O Melhor Terror de 2018







 

 James Benning, L. Cohen, 2018




The analogy frequently invoked between films and dreams is usually concerned with the experience of the audience. The spectator sits in darkness, and the sort of involvement the entertainment film invites necessitates a certain switching-off of consciousness, a losing of oneself in a fantasy-experience. But the analogy is also useful from the point of view of the filmmakers. Dreams — the embodiment of repressed desires, tensions, fears that our conscious mind rejects become possible when the "censor" that guards our subconscious relaxes in sleep, though even then the desires can only emerge in disguise, as fantasies that are 'innocent" or apparently meaningless.

One of the functions of the concept of "entertainment" — by definition, that which we don't take seriously, or think about much ("It's only entertainment”) — is to act as a kind of partial sleep of consciousness. For the filmmakers as well as for the audience, full awareness stops at the level of plot, action, and character, in which the most dangerous and subversive implications can disguise themselves and escape detection. This is why seemingly innocuous genre movies can be far more radical and fundamentally undermining than works of conscious social criticism, which must always concern themselves with the possibility of reforming aspects of a social system whose basic rightness must not be challenged. The old tendency to dismiss the Hollywood cinema as escapist always defined escape from, but escape logically must also be escape to. Dreams are also escapes, from the unresolved tensions of our lives into fantasies. Yet the fantasies are not meaningless; they can represent attempts to resolve those tensions in more radical ways than our consciousness can countenance.

Popular films, then, respond to interpretation as at once the personal dreams of their makers and the collective dreams of their audiences — the fusion made possible by the shared structures of a common ideology. It becomes easy, if this is granted, to offer a simple definition of horror films: they are our collective nightmares. The conditions under which a dream becomes a nightmare are (a) that the repressed wish is, from the point of view of consciousness, so terrible that it must be repudiated as loathsome, and (b) that it is so strong and powerful as to constitute a serious threat. The disreputability noted — the general agreement that horror above films are not to be taken seriously — works clearly for the genre viewed from this position. The censor (in both the common and the Freudian sense) is lulled into sleep and relaxes vigilance.

Robin Wood, American nightmare: essays on the horror film, 1979.
Editado por Robin Wood e Richard Lippe. 






18

James Benning, L. Cohen
Yann Gonzalez, Un couteau dans le coeur
Juliana Rojas, Marco Dutra, As Boas Maneiras
Ari Aster, Hereditary
Lars von Trier, The House That Jack Built
François Simard, Anouk Whissell, Yoann-Karl Whissell, Summer of 84 
Andy Mitton, The Witch in the Window
Johannes Roberts, The Strangers: Prey at Night 
John Krasinski, A Quiet Place
Shinichiro Ueda, Kamera o tomeru na! (One Cut of the Dead)
Joachim Trier, Thelma
Cory Finley, Thoroughbreds
Mike Flanagan, The Haunting of Hill House 
Coralie Fargeat, Revenge 
Duncan Skiles, The Clovehitch Killer
Justin Benson, The Endless
David Gordon Green, Halloween
Kiyoshi Kurosawa, Sanpo suru shinryakusha (Before We Vanish)



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The suburbs

















Summer of 84 (François Simard, Anouk Whissell, Yoann-Karl Whissell, 2018) 




You never know what might be coming around the corner.
And that's the thing about this place.
It all might seem normal and routine,
but the truth is the suburbs are where the craziest shit happens.

Just past the manicured lawns and friendly waves.
Inside any house, even the one next door,
anything could be happening and you'd never know.
If I've learned anything, it's that people hardly ever let you know who they really are.
Tough pill to swallow, I know. But it's true.
Even serial killers live next door to somebody.


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I am going to come back for you


Summer of 84 (François Simard, Anouk Whissell, Yoann-Karl Whissell, 2018) 




You brought this on yourself.
All you had to do was leave me alone.
This is your goddamn fault!
You forced me out of my home.
You stole my life!
You do not get to be sorry.
All I wanna do is kill you.

That's not enough for you.
You have spent so much time thinking about me.
I want you to keep thinking about me.
I want you to imagine what I am going to do when I come back for you.
And I am going to come back for you.
After you have spent your life looking over your shoulder.
After you have wondered every single day if that is the day that I'm gonna come for you.
One day... you'll be right.



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O Melhor Terror de 2016





















Hush (Mike Flanagan, 2016)




16

Rob Zombie, 31
Fede Alvarez, Don't Breathe
Kiyoshi Kurosawa, Kurîpî: Itsuwari no rinjin (Creepy)
Ti West, In a Valley of Violence
Na Hong-jin, Goksung (The Wailing)
Yeon Sang-Ho, Busanhaeng (Train to Busan)
James Wan, The Conjuring 2
Jeremy Saulnier, Green Room
Bryan Bertino, The Monster
Nicolas Pesce, The Eyes of My Mother
Mike Flanagan, Hush
Bo Mikkelsen, What We Become
Can Evrenol, Baskin
Karyn Kusama, The Invitation
Jon Watts, Clown
Babak Anvari, Under the Shadow


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Walerian Borowczyk: Make me Scream Again






















Docteur Jekyll et les femmes (Walerian Borowczyk, 1981)




Em parceria com o colectivo White Noise, o MOTELX - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa apresenta uma homenagem a Walerian Borowczyk (1923-2006), cineasta de culto, cuja obra tem vindo a ser reavaliada internacionalmente, acompanhando o restauro dos seus filmes, mas que em Portugal ainda não recebeu a atenção merecida.

Nascido na Polónia, Walerian Borowczyk  construiu uma obra que coloca em confronto noções de inocência e de experiência, de autoridade e de sexualidade, num tom herdado do surrealismo e do cinema primitivo, cruzando um conjunto de disciplinas que engloba o cinema, a escrita, o design, a pintura e a escultura. A sua carreira iniciou-se pelo desenho de posters e na realização de curtas-metragens de animação. Em 1958, radicou-se em Paris, onde sedimentou um percurso auspicioso na animação, apadrinhado por Chris Marker. Passou para a longa-metragem em modo live action no meio das transgressões eróticas das décadas de 1960 e 1970, chegando a capa da prestigiada revista Cahiers du Cinema. Quando enveredou por ambientes carregados de erotismo quase que arruinou a reputação.

O programa Walerian Borowczyk: Make me Scream Again repesca dois dos seus filmes mais relevantes,  La bête (1974) e Docteur Jekyll et les femmes (1981), apresentados em cópias restauradas, e contextualiza o seu trabalho na masterclass One Man Band: Walerian Borowczyk, conduzida por Daniel Bird, um dos maiores especialistas e responsáveis pela reavaliação da sua obra, que também estará presente na projeção dos filmes, para uma breve introdução, lançando algumas surpresas que não constam no programa.

Na edição de Abril de 1996 da revista Sight & Sound, Chris Newby afirmava: “Nunca vi um retrato de Walerian Borowczyk pelo que me sinto feliz. Gosto de imaginá-lo como homem de poucas palavras, nos seus setenta anos, meio-monge, meio-coruja, talvez impetuoso, com longos dedos cadavéricos. O curador do seu próprio museu erótico, nas profundezas de uma floresta, algures na França rural. [...] Talvez seja conveniente que os filmes de Borowczyk sejam um prazer obscuro, que seja necessário algum empenho em procurá-los, como se fossem livros antiquados numa livraria poeirenta."


Programa:

La bête (1975)
08.09, 19h15, Cinema S. Jorge, Sala 3

Docteur Jekyll et les femmes (1981)
10.09, 14h40, Cinema S. Jorge, Sala 3

One Man Band: Walerian Borowczyk, masterclass por Daniel Bird
10.09, 17h30, Cinema S. Jorge, Sala 2


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Una lucertola con la pelle di donna





















Una lucertola con la pelle di donna (Lucio Fulci, 1971)




Numa avaliação superficial do cinema de género italiano, Lucio Fulci aparece injustamente  numa categoria abaixo de mestres como Mario Bava ou Dario Argento. Respondendo superficialmente aos que apontam o gore como a única arma de Lucio Fulci, tão desmedido que engole tudo à sua volta incluindo a capacidade de análise do espectador desprevenido, poder-se-ia apontar que, também no caso de Dario Argento, a preponderância da composição dramaticamente operática é responsável pelo mesmo efeito obliterador.

Quando falamos da produção italiana de cinema, falamos realmente de indústria, uma vez que, entre as décadas de 1950 e 1970, chegaram a produzir-se mais de duas centenas de filmes por ano, repartidos pelos mais variados géneros, entre o western, a ficção científica, o thriller, o policial, o peplum, o drama ou a comédia. Esta actividade florescente, determinou que Roma fosse chamada Hollywood do Tibre e que os estúdios americanos para aí deslocassem vedetas e a produção de filmes de grande orçamento, nomeadamente os de carácter histórico. No que toca ao cinema feito por italianos, à exceção dos realizadores respeitados pelas academias (de Sica, Rosselini, Fellini, Visconti, Pasolini, Antonioni), havia uma apetência por um cinema popular que encontrava antecedentes, em meados do século XX, na obra de Riccardo Freda. Detestando a comédia e o realismo, Freda seguira um caminho alternativo ao neorrealismo, desviando o olhar da reconstrução do pós-guerra e trocando as filmagens na rua e os actores amadores pelo controlo do estúdio e a elegância das vedetas, criando épicos sumptuosos que, apesar do financiamento limitado, se tornavam grandes sucessos de bilheteira, não ficando atrás dos seus parentes ricos de Hollywood. Nas décadas seguintes, enquanto a obra de Freda definhava, demasiado presa aos formalismos clássicos ou desajustada dos ímpetos da vida moderna, tornava-se necessária à voracidade comercial da indústria, uma revigorada ousadia no tratamento da violência e do erotismo.

É neste ponto de viragem do cinema de género italiano que se dá igualmente uma mudança radical na obra de Lucio Fulci, anteriormente notado como argumentista e autor de comédias e musicais. Em 1969, Fulci realiza dois filmes bastante diferentes: Beatrice Cenci, um drama histórico e Una sull'altra, um thriller all’italiana, formato que ficaria conhecido como giallo. Ao longo da carreira, Fulci realizaria mais cinco giallos: Una lucertola con la pelle di donna (1971), Non si sevizia un paperino (1972), Sette note in nero (1977), Lo squartatore di New York (1982) e Murderock - Uccide a passo di danza (1987). Ainda em 1969, o realizador seria tragicamente abalado pelo suicídio da esposa que, através de intoxicação com gás, põe fim ao sofrimento causado por uma doença cancerígena. Filmado nos Estados Unidos, em cenários reais, incluindo uma câmara de gás, o negrume de Una sull'altra parece refletir essa perda irreparável. Marisa Mell, a vedeta do fabuloso delírio pop Danger: Diabolik (1968) de Mario Bava, é uma das protagonistas, ao lado de Elsa Martinelli e Jean Sorel. Fulci filma o final, em que Sorel devido a um erro judicial é condenado à morte na câmara de gás, sem qualquer sentimentalismo e de modo tão seco que quase se aproxima do registo realista. Na última cena, cabe a um repórter contar o desfecho da história, com a salvação de Sorel, sem qualquer flashback ou imagem do galã, que, havia minutos, deixáramos na cela à espera da execução.

Dois anos depois, Jean Sorel, “perfeito” playboy inexpressivo, volta a representar um marido adúltero em Una lucertola con la pelle di donna. A esposa, Carol Hammond  (Florinda Bolkan) tem recorrentemente sonhos em que se envolve sexualmente com a vizinha libertina, Julia Durer (Anita Strindberg). Sem grande espanto, o psicanalista ao interpretar o sonho conclui que Carol deseja sexualmente a vizinha, a encarnação do pecado e da degradação moral, cuja casa funciona como símbolo do vício. Um dia Carol sonha que mata brutalmente Julia, mais tarde descobrindo que a vizinha foi de facto assassinada. Una lucertola é um giallo um tanto atípico. Primeiro, porque não existe um assassino misterioso, torturado por uma memória, que vai dizimando personagens – aqui, a única incógnita é relativa à morte de Julia Durer que acontece pouco depois do inicio do filme. Mais, Fulci recentra o filme no processo policial, sendo que, nos assassinatos que acontecem posteriormente, não só a vítima reconhece o assassino, como também o espectador, a quem, segundo a fórmula do giallo, deveria ser vedada esta informação até perto do final. A decadência normalmente instalada em famílias aristocratas que vivem segundo modelos tradicionais em ruína – da qual será arquétipo visual a condição de Veneza enquanto cidade a afundar-se nas águas – dá lugar à modernidade da Swinging London e dos novos valores da cultura hippie.

Se no seu próximo giallo, Non si sevizia un paperino, Fulci olha para o interior de Itália e para a corrupção no seio de estratos sociais ancestrais, em Una lucertola sugere desencanto com as novíssimas formas de organização social predominantemente de origem urbana. É também aí que se reproduz o pecado, a degradação moral e o vício. Num dos primeiros planos, Florinda Bolkan aparece deitada numa cama que mais parece uma gaiola, envolta por armações de ferro. Encontramos nela sentimentos contraditórios em relação ao “amor livre”, sublinhado pelos novos desenvolvimentos sociais, que lhe provocam curiosidade, mas também se apresentam como ameaça à sua condição social de mulher branca, heterossexual, oriunda de um estrato social alto. Como fórmula recorrente, o envolvimento de mulheres em relações lésbicas não passou despercebido aos movimentos feministas que acusavam os cineastas de exploração sexual da mulher. Especialmente, por se tratar de filmes realizados por homens e dirigidos a um público maioritariamente masculino. Mas nem sempre era esse o entendimento, uma vez que duas mulheres envolvidas sexualmente poderiam representar para o homem, simultaneamente prazer e ameaça – neste ultimo caso, ao constatar a possibilidade de prazer sexual pleno, dispensando a presença masculina.

O último plano de Una lucertola coloca-nos no mundo dos mortos, debruçando-se sobre as sepulturas num cemitério. Passados poucos anos, seguindo a palavra de ordem de George Romero - when there's no more room in hell, then the dead will walk the earth – caberá a Fulci abrir as portas do inferno e soltar os mortos em Zombi 2 (1979), falsa sequela de Dawn of the Dead (George Romero, 1978), e depois na falsa trilogia Gates of Hell: Paura nella città dei morti viventi (1980), ...E tu vivrai nel terrore! L'aldilà (1981) e Quella villa accanto al cimitero (1981). Foram estes os filmes que deram fama a Fulci, pelo uso de um gore estilizado que submete o corpo a novas formas que remetem tanto para o território do body horror como para o desmembramento na obra pictórica de Francis Bacon – já em Una lucertola pressentíamos Bacon nas pinturas da casa ou nos sonhos de Carol. Com o gore, Lucio Fulci parece sugerir que são os corpos rasgados que autorizam a libertação violenta das vísceras, como se estas estivessem, impacientemente, expectantes à espera de permissão de saída.


Versão revista do texto distribuído no âmbito do evento 3 na Cossoul que decorreu na Sociedade Guilherme Cossoul com produção dos colectivos À pala de Walsh, Germinal Art e White Noise.



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O Artesão Borowczyk
































O Artesão Borowczyk, curtas de animação de Walerian Borowczyk 


On June 21st 1887, on the railway line from Paris to Saint-Germain-en-Laye, at the level crossing located at kilometre 12, a cart was struck and overturned by train number 17. The horse was killed and three people were taken to the Chatou hospital. The Vesinet police arrived at the scene of the accident to help the passengers transfer their baggage onto another train. No one appeared to claim a leather trunk covered with numerous labels bearing the names of the most fashionable international hotels and boarding houses. In the owners’s absence, the police were obliged to write a report on the contents of the suitcase. The document is preserved at the archives of the Transport Mininistry.
A letter found at the bottom of the trunk and addressed to Madame Jeanne-Loiuse-Henriette d’A. led one to believe that the bag belonged to this same person. When questioned, Madame d’A. declared most emphatically that the trunk did not belong to her, that surely the letter, fallen from her left pocket, then blown by the blast of air produced at the moment of collision, had by chance slipped inside the trunk in question.
It is easy to understand why Madame Jeanne-Lois-Henriette did not wish to identify herself as the owner of the accursed trunk: among its contents was an object of feminine auto-eroticism.
It is not known how or when the trunk disappeared from the storage locker of the Vesinet police station; today I am the one in possession of this picturesque luggage with all its precious contents.
The object that caused Mme. D’A so much trouble is a representation of a male member of ample wood root. The larger end of the device features a sepia toned photograph now faded, in which one can discern the features of a handsome, bearded man. A small mirror incorporated into the case of the apparatus is designed to prevent one losing sight of one’s lover for the entire period of the sex act. An instrument of not altogether solitary pleasure, elegant and surprising.
To date – a century after the train accident – none of the heirs of Madame Jeanne-Loise-Henriette d’A. has come forward to claim the inheritance.
Actually, there was one. But he was an impostor, unable to prove his kinship to the man with the beard, whom he claimed was his grandfather.

Walerian Borowczyk, The inheritance, 1992



O programa O Artesão Borowczyk faz parte de uma proposta do colectivo White Noise que visa divulgar cineastas de culto internacional, que no circuito nacional de exibição não obtiveram a visibilidade merecida. No caso de Walerian Borowczyk, trata-se de uma obra que durante muitos anos foi relegada para pequenos nichos de público, passando actualmente por um período de revalorização a nível internacional. Esta proposta tem como ponto de partida um conjunto de trabalhos de curta duração, em animação ou no caso de live action com fortes influências do trabalho desenvolvido em animação.

Walerian Borowczyk foi um pintor, escultor e cineasta polaco. Radicado em Paris, onde sedimentou uma carreira auspiciosa na animação, apadrinhado por Chris Marker, passou para a longa-metragem live action, no contexto das transgressões eróticas dos anos de 1960 e 1970, chegando a capa da revista “Cahiers du Cinema”, mais tarde enveredando por ambientes porno-chique que quase destruíram a sua reputação. O pontapé de saída para a operação internacional de reabilitação foi a bem sucedida campanha de crowdfunding lançada pela Arrow Video - dinâmica companhia inglesa responsável por óptimas edições em DVD e Blu-ray de clássicos de Mario Bava, Lucio Fulci, Dario Argento, Brian De Palma e Tobe Hoper, entre muitos outros - para restaurar Goto, l'île d'amour (1969), uma das suas primeiras longas-metragens e a que originou a capa da revista francesa. Numa caixa de colecionador, Camera Obscura: The Walerian Borowczyk Collection (2014), a Arrow juntou a esta obra algumas das suas animações mais notáveis, as longas Théâtre de Monsieur & Madame Kabal (1967), Blanche (1972), Contes immoraux (1974) e La bête (1975), um livro editado por Daniel Bird e Michael Brooke com novos ensaios, artigos históricos de Raymond Durgnat, Philip Strick, Patrice Leconte, David Thompson e Chris Newby, e um grupo de contos do artista originalmente incluídos na publicação L'anatomie du diable (P. Belfond, 1992), entre muitos outros extras preciosos. Apesar de se tratar de uma edição limitada e numerada, seguiu-se a edição autónoma de algumas dessas longas-metragens. Em paralelo, entre Maio e Junho de 2014, o Institute of Contemporary Arts (Londres) apresentou a exposição Walerian Borowczyk: The Listening Eye, reunindo trabalhos seus pouco conhecidos como os estudos preliminares de animações e esculturas sonoras em madeira, que remetem imediatamente para os cenários artesanais dos seus primeiros filmes, também por ele desenhados. A operação da Arrow arrastou-se para 2015, lançando em conjunto com a sua nova congénere americana, um dos seus melhores filmes, Docteur Jekyll et les femmes, realizado já na década de 80, ainda antes de se dedicar a um novo título da série erótica Emmanuelle e acentuar o período de desgraça. A cópia restaurada de Docteur Jekyll et les femmes teve estreia no prestigiado Festival Internacional de Cinema de Roterdão, na secção Critic’s Choice, selecionado por Adrian Martin e Cristina Álvarez López, autores do vídeo-ensaio sobre o filme que fora incluído na edição da Arrow.



Versão revista do texto distribuído no âmbito do evento 3 na Cossoul que decorreu na Sociedade Guilherme Cossoul com produção dos colectivos À pala de Walsh, Germinal Art e White Noise.



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3 na Cossoul





















Una lucertola con la pelle di donna” (Lucio Fulci, 1971) 




A S.i.Guilherme Cossoul recebe no próximo dia 18 de Fevereiro (quinta-feira) três projectos irmãos: À pala de Walsh, Germinal Art e White Noise.

O dia começa às 19h00, na Galeria Germinal, com um cocktail de boas-vindas. Ao mesmo tempo, na biblioteca (sala ao lado), o colectivo White Noise apresenta "O Artesão Borowczyk", conjunto de curtas-metragens de animação da autoria do idiossincrático cineasta polaco.

Às 20h45, na sala Raul Solnado acontece, com programação de White Noise, a projecção do clássico do giallo “Una lucertola con la pelle di donna” (Serpente com Pele de Mulher, 1971) de Lucio Fulci. A exibição e as folhas de sala são da responsabilidade dos white noisers Carlos Alberto Carrilho, Miguel Patrício e Sabrina D. Marques. Após a projecção, os walshianos Carlos Natálio, João Lameira e Luís Mendonça reúnem-se com o cinéfilo Vasco T. Menezes para uma conversa sobre essa obra de Fulci.

Às 23h15, a Raul Solnado dá lugar ao convívio musicado a preceito pelo disc-jockey João Lameira.

As entradas são todas, sem excepção, "à pala".

Assim se comemora a ocupação triádica do magnífico espaço da Guilherme Cossoul. Apareça!


Programa:

19h00
Recepção com cocktail, Galeria Germinal
O Artesão Borowczyk, curtas de animação de Walerian Borowczyk, Biblioteca

20h45
Serpente com Pele de Mulher (Lucio Fulci, 1971), M/17, Sala Raul Solnado

22h30
Filme Falado Especial: conversa sobre o filme de Lucio Fulci com o convidado Vasco T. Menezes, Sala Raul Solnado

23h15
Convívio com os 3, Sala Raul Solnado


Entrada gratuita para todos os eventos. Destina-se apenas a fins educativos.


Este é o clipe de apresentação do evento:





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15


























Nie yin niang (Hou Hsiao-Hsien, The Assassin, 2015)




15
Hou Hsiao-Hsien, Nie yin niang (The Assassin)
Larry Clark, The Smell of Us 
Hong Sang-soo, Jigeumeun matgo geuttaeneun tteullida (Right Now, Wrong Then)
Paul Thomas Anderson, Inherent Vice
Miguel Gomes, As Mil e Uma Noites
Levan Gabriadze, Unfriend
Jean-Luc Godard, Adieu au langage
George Miller, Mad Max: Fury Road
Bennett Miller, Foxcatcher
Bertrand Mandico, Notre Dame des Hormones
Peter Strickland, The Duke of Burgundy
David Robert Mitchell, It Follows
Wang Bing, Feng ai ('Til Madness Do Us Part)
Philippe Garrel, L'ombre des femmes 
M. Night Shyamalan, The Visit



































J. G. Biberkopf, Ecologies (Knives, 2015)




+ 15
King Midas Sound, Fennesz, Edition 1 (Ninja Tune)
death's dynamic shroud.wmv, I'll Try Living Like This (Dream Catalogue)
Dawn Richard, Blackheart (Our Dawn Entertainment)
Jeff Bridges, Sleeping Tapes (edição própria)
Rustie, EVENIFUDONTBELIEVE (Warp)
Future, 56 Nights / DS2, (Freebandz)
Romare, Projections (Ninja Tune)
DJ Richard, Grind (Dial)
Oneohtrix Point Never, Garden Of Delete (Warp)
Helm, Olympic Mess (Pan)
Fis, The Blue Quicksand Is Going Now (Loopy)
J. G. Biberkopf, Ecologies (Knives)
Disasterpeace, It Follows OST (Milan)
Kuedo, Assertion of a Surrounding Presence (Knives)
Jamie XX, In Colour (Young Turks)



Como complemento, ver lista do melhor terror de 2015 (aqui).



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O Melhor Terror de 2015




















Unfriended  (Levan Gabriadze, 2014)




15  (-3)

David Robert Mitchell, It Follows
Levan Gabriadze, Unfriend
M. Night Shyamalan, The Visit
Todd Strauss-Schulson, The Final Girls
Eli Roth, The Green Inferno
Jason Lei Howden, Deathgasm
Jemaine Clement, Taika Waititi, What We Do in the Shadows
Grant Harvey, Steven Hoban, Brett Sullivan, A Christmas Horror Story
Corin Hardy, The Hallow
Alex Ross Perry, Queen of Earth
Fabrice Du Welz, Alléluia
John Logan, We Are Still Here


+ 1

Tom Six, The Human Centipede III (Final Sequence)


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think thin think fat






























No âmbito da exposição "Think Thin" de André Trindade, a decorrer no Atelier Concorde até 21 de Novembro, o artista organizou um evento com a participação especial de Filipe Felizardo, White Noise e Alien Terrestre.

O colectivo White Noise preparou o fanzine "think thin think fat" que é apresentado nesse dia e faz parte do corpo de trabalho que André Trindade tem organizado nesse formato.


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Please Suck My Blood: The Dark Loves of Christopher Lee




















O MOTELx, em colaboração com o colectivo White Noise, organiza uma homenagem ao grande ícone do cinema de terror, o britânico Christopher Lee, desaparecido em Junho passado aos 93 anos. Lee, imortalizado pela sua interpretação de Dracula nos filmes da Hammer, fazia parte da mesma estirpe de rostos clássicos do terror como Lon Chaney, Boris Karloff ou Bela Lugosi. Para este efeito, foi lançado o convite ao jornalista e crítico dos “Cahiers du Cinéma”, Stéphane du Mesnildot, autor de diversos livros sobre cinema de género como «Jess Franco. Énergies du fantasme», «Fantômes du cinéma japonais. Les métamorphoses de Sadako» e o mais recente «Le Miroir obscur. Une histoire du cinéma des vampires», todos editados pela Rouge Profond, para escolher e apresentar um dos seus filmes preferidos do actor, «Eugenie (Jess Franco, 1969), e conduzir uma palestra que tem o sugestivo título «Please suck my blood: The dark loves of Christopher Lee». Em complemento a esta sessão, Stéphane du Mesnildot programou também a curta-metragem de Bertrand Mandico «Notre Dame des Hormones» (2014).


Programa:

12.09 | 17h00, Cinema São Jorge, MOTELx
"Please Suck My Blood: The Dark Loves of Christopher Lee"
Palestra por Stéphane du Mesnildot
Entrada gratuita

13.09 | 19h15, Cinema São Jorge, MOTELx
"Eugenie" (Jess Franco, 1969)
"Notre Dame des Hormones" (Bertrand Mandico, 2014)
Sessão apresentada por Stéphane du Mesnildot


Este é o clipe de apresentação do evento:





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Uma vela para Deus e outra para o Diabo



























Muerte de un ciclista (Juan Antonio Bardem, 1955)




«(...) esse histórico Salida de la misa de doce del Pilar de Zaragoza tem grande significado por marcar indubitavelmente o nascimento da cinematografia espanhola e, para além disso, fazê-lo não pelas chegadas e partidas de comboios que marcam o inicio da produção de filmes em quase todo o mundo, mas fixando no celulóide um testemunho da sensibilidade nacional, a fé religiosa, e precisamente no templo justamente chamado Santuário da Raça.» (Carlos Fernández Cuenca. (1959). Promio, Jimeno y los primeros pasos del cine en España. Madrid: Filmoteca Nacional de España).


 Imagens do Cinema na Espanha Franquista


Não é certo que Salida de la misa de doce de la Iglesia del Pilar de Zaragoza (Eduardo Jimeno Correas, 1897) tenha sido o primeiro filme da cinematografia espanhola pois existem polémicas e acusações de que sectores ligados à ditadura franquista tenham manipulado a História e criado o mito por motivos ideológicos. Mesmo assim, se compararmos os cenários escolhidos para este filme e para Sortie des usines Lumière (Irmãos Lumière, 1895), obra fundadora da produção de cinema em França, respectivamente a igreja e a fábrica,  compreende-se a diferente relação hierárquica que é dada às práticas da religião e do trabalho em cada uma das sociedades, a primeira maioritariamente agrária e a segunda em amplo desenvolvimento industrial. No caso espanhol, desde cedo o cinema foi entendido como uma máquina poderosa capaz de invocar todos os males denunciados pelos poderes vigentes, não só pela proximidade entre corpos que a escuridão da sala favorecia, mas também pela mensagem emanada pela tela. Trata-se de uma perspectiva que acompanhou a difusão do cinema no país, que se reorganizou com a entrada do som nas salas e que a ditadura do General Francisco Franco traduziu num veículo censor que pudesse dominar a população ao longo de várias décadas, obrigando a submeter para análise, primeiro os guiões e depois o produto final e o material de promoção. Entre outras medidas, ainda antes da chegada de Franco ao poder, em 1921, foi ordenado que as salas de cinema madrilenas fossem divididas em três espaços: um para as senhoras, outro para os senhores e um terceiro, iluminado por uma luz vermelha, destinado a casais, não fosse o Diabo envenenar os espíritos e embaraçar os corpos. Em 1937, em plena Guerra Civil, de ambos os lados das trincheiras o cinema era visto como veículo de propaganda pelo que os Franquistas criaram a Junta Superior de Censura Cinematográfica, pouco tempo depois de os Republicanos terem implementado normas censoras nos territórios que dominavam. (continua aqui)



Contribuição para um conjunto de textos sobre fendas na censura cinematográfica, iniciativa coordenada por Sabrina D. Marques para a publicação online Wrong Wrong. Para além dos que estão mencionados no final do texto, um agradecimento especial a Paulo Soares, cuja ajuda foi preciosa no visionamento dos filmes.



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Les lèvres rouges






















Les lèvres rouges (Harry Kümel, 1971




Na cultura popular, o equivalente feminino do Conde Dracula é encontrado na Condessa húngara Elizabeth Báthory, acusada do assassinato em série de centenas de mulheres virgens, cujo sangue utilizava para beber e se banhar de modo a rejuvenescer o corpo, numa deriva em busca da beleza e da vida eterna. Walerian Borowczyk partiu  da vida de Báthory para compor o retrato que faz parte no terceiro segmento do filme Contes immoraux (1974). Pouco depois da sua prisão, Elizabeth Báthory acabaria por morrer, desconhecendo-se o paradeiro actual dos seus restos mortais, tendo a sua biografia alimentado a imaginação popular, que a equiparou a Vlad, o Empalador, o Príncipe da Valáquia (actual Roménia) que serviu de base ao escritor irlandês Bram Stoker na criação da figura de Dracula. Mesmo após uma fria recepção critica ao seu filme anterior, Monsieur Hawarden (1968), drama de época em que uma mulher se disfarça de homem para evitar ser perseguida pela morte do amante, o realizador belga Harry Kümel arranjou facilmente financiamento internacional para Les lèvres rouges (1971), actualização da figura de Elizabeth Báthory, como se não tivesse sido presa e a sua vida se tivesse prolongado ao longo dos séculos. A ideia era manter o tom do seu filme anterior, combinado com boas doses de sexo e sangue, respondendo aos ventos da época que indicavam uma maior cedência da censura no que diz respeito a imaginários polémicos.

Em torno de Delphine Seyrig, icónica actriz francesa de origem libanesa, memorável nos papéis que representou em L'année dernière à Marienbad (Alain Resnais, 1961), Muriel ou Le temps d'un retour (Alain Resnais, 1963) ou Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles (Chantal Akerman, 1975), juntou-se um grupo de actores internacionais propostos pelas diferentes partes envolvidas no financiamento: o americano John Karlen, mais conhecido pela participação em séries televisivas, nomeadamente na brilhante Dark Shadows (Dan Curtis, 1966-1971), recentemente adaptada ao cinema por Tim Burton, e na popular Cagney & Lacey (Barbara Avedon, Barbara Corday; 1981-1988); a modelo e estrela erótica canadiana Danielle Ouimet; e a jovem actriz alemã Andrea Rau, até aí apenas com notoriedade no sector hardcore. Para a composição física das personagens de Delphine Seyrig e Andrea Rau, o realizador teve como modelo a vincada personalidade das actrizes  Marlene Dietrich e Louise Brooks. As filmagens decorreram entre o pôr do sol e a madrugada, maioritariamente entre a estância balnear de Ostend (exteriores) e o hotel Astoria de Bruxelas (interiores).

O argumento de Les lèvres rouges centra-se no encontro de Elizabeth Báthory (Delphine Seyrig) e da sua secretária e companheira Ilona (Andrea Rau) com um casal de recém-casados, Stefan e Valerie  (Danielle Ouimet e John Karlen), que devido a um problema na ligação de transportes, se vê retido numa estância balnear deserta, durante a época baixa, enquanto nas redondezas ocorrem sangrentos assassinatos de mulheres noticiados pela imprensa local. O mistério ronda ambos os casais: se, por um lado, vão sendo lançados sinais da ligação de Elizabeth Báthory aos assassinatos referidos, por outro, o homem pertencente ao segundo casal recusa-se a regressar e apresentar a nova companheira à “mãe”, aristocrata com ideias bem definidas sobre o conceito de classe social. Segundo o relato de Harry Kümel, o slogan utilizado no trailer americano do filme chamava a atenção para este elemento, bastante secundário mas eficaz como motor na engrenagem da violência: Se pensa que estas duas mulheres são ferozes (wild, no original), espere até conhecer a Mãe.  Do encontro entre as diferentes agendas dos elementos dos dois casais, emerge uma enorme brutalidade na violência que antes era sugerida levemente e logo mecanicamente controlada, conduzindo inevitavelmente à reorganização dos casais e, posteriormente, a um desfecho marcado pela morte. Algo que não surpreende pois a morte não é mais que o signo que acompanha Elizabeth Báthory na viagem pelo tempo.






















Les lèvres rouges (Harry Kümel, 1971)




Les lèvres rouges, no mercado internacional traduzido para Daughters of Darkness, é um filme a quatro cores. Nos primeiros planos de Elizabeth Báthory, a baixa intensidade da luz pouco mais revela que o preto das botas brilhantes e o vermelho do batom nos lábios. O branco juntar-se-á, completando o esquema de cores dominante no vestuário e acessórios de todos os elementos do grupo que, em sucessivas trocas, fixam combinações de carácter simbólico, culminando na cena em que Elizabeth consuma a aproximação a Valerie, em que ambas usam branco.  Não será irrelevante ter presente que este conjunto de cores representa o Império Germânico e que foi adoptado pelo Partido Nazi, reforçando a ideia de que estamos perante duros jogos de poder que visam a imposição e a tirania. Para a construção dos ambientes outra cor é chamada: o azul da água e do céu nocturno, que se remete para a tranquilidade e revela o carácter aristocrata também evoca a frieza e, por se tratar da cor mais fria entre as frias, é para escuridão infinita, a morte, que inevitavelmente aponta.

Na composição das cenas, importa também realçar a influência da pintura das escolas flamenga e italiana, cujo exemplo maior é o plano polémico da  morte de Stefan que lembra a obra Lamentações sobre o Cristo Morto (1490) do pintor Andrea Mantegna (1431-1506); a música de François de Roubaix que sugere algum do minimalismo do compositor flamengo Wim Mertens, célebre pelas bandas sonoras que escreveu para os filmes de Peter Greenaway; os jogos de geometria proporcionados pela arquitectura dos locais desertos; a performance encantatória de Delphine Seyrig (a quem o realizador permitiu que ajustasse os seus diálogos) que coloca o movimento do corpo ao mesmo nível do uso da palavra, deslizando serpentinamente até colocar Valerie sob a sua capa negra, antes de a noite chegar ao fim; e, finalmente, o atmosférico e onírico tom geral. O resultado é um nível de estilização invulgar na produção de cinema de terror da época que é (des)equilibrado pelos habituais códigos do género, em cenas comandadas pelo sadismo, o gore e o sexo.

Harry Kümel afirmou que não lhe interessava o realismo no cinema e, certamente, que a depurada sofisticação fantasista de Les lèvres rouges acompanha o seu pensamento, pelo que não deixamos de acompanhar com ironia a ligação posterior de Delphine Seyrig a Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles. Numa das obras mais fascinantes da história do cinema, Chantal Akerman questiona a utilização no cinema desta proposta de ilusão do pensamento e dos sentidos do espectador, que  Kümel sugere e em que assenta a estrutura de Les lèvres rouges. Akerman funde as vanguardas americanas e europeias, das décadas de 1960 e 1970, que ambicionavam despertar no espectador a percepção das especificidades do cinema, desmontando as suas características ilusionistas: os meios normativos na organização da narrativa e da criação de significado (europeia); e as propriedades espaciais e temporais do filme enquanto medium (americana).


Versão revista do texto distribuído no âmbito do ciclo BELA LUGOSI ESTÁ MORTO!, programado por Carlos Alberto Carrilho para o colectivo White Noise.



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Vampyros Lesbos





















Vampyros Lesbos (Las vampiras, Jess Franco, 1970)



Durante a primeira metade da década de 1970, Jess Franco realizou alguns dos seus filmes mais populares. Entre eles, encontra-se Vampyros Lesbos (Las vampiras, 1970), exemplar de uma nova forma de organização dos filmes que o realizador vinha experimentando ao longo dos anos e que indicia o seu trabalho futuro. As performances eróticas que antes aconteciam em clubes nocturnos e que apareciam pontualmente nos filmes da primeira década da sua carreira, parecem agora contaminar por inteiro os filmes. Com a narrativa reduzida ao mínimo, a música é o mote para uma sucessão de longos actos performativos que os actores dirigem em frente à câmara, à qual cabe o papel de activar o olhar do espectador, ora mostrando, ora escondendo, numa sucessão de zooms e de manipulações do foco. O resultado são atmosferas em fuga para a abstracção, que tanto seduzem os fãs, como afastam irremediavelmente os detractores. Esta nova estrutura dos filmes coincide com a chegada de Soledad Miranda (Soledad Rendón Bueno) e, mais tarde, de Lina Romay (Rosa María Almirall Martínez) que não só tomam o lugar antes ocupado por Estella Blain, Janine Reynaud e Maria Rohm, como aceitam o olhar fascinado de Franco, com uma disponibilidade sem precedentes. É o olhar obsessivo de Jess Franco sobre os seus corpos que se tornará o motor de cada filme.

Vampyros Lesbos é a participação mais famosa de Soledad Miranda no cinema, onde interpreta a Condessa Nadine Korody, uma herdeira do conde Dracula com uma predilecção por sangue de mulheres. A ligação entre vampiros e amor entre mulheres não era tema novo no cinema. Em 1936, ao camuflar lesbianismo com vampirismo, a Universal impediu que Dracula's Daughter (Lambert Hillyer, 1936) não ficasse enredado em processos levantados pela censura. Segundo Vito Russo, historiador especializado em estudos queer e autor do livro The Celluloid Closet (1981), o estúdio chegou a promover o filme com o slogan: Save the women of London from Dracula's Daughter! No entanto, o autor lembra a problemática que se levanta pois, na combinação de ambos os temas, a fraqueza predatória é apresentada como a essência da homossexualidade. A personagem Carmilla, criada em 1872 pelo escritor Joseph Thomas Sheridan Le Fanu, para a obra com o mesmo nome, tornar-se-ia numa grande influência para os filmes que sugerem a temática. Ainda que com diferentes doses de subtileza, Vampyr (1932) de Carl-Theodor Dreyer e ... Et mourir de plaisir (Blood and Roses, 1960) de Roger Vadim vão inspirar-se a Carmilla. Na viragem da década de 1960, também o francês Jean Rollin e a produtora inglesa Hammer entram seguros neste território, respondendo ao esgotamento dos filmes protagonizados por Dracula e à mudança de costumes no que diz respeito à aceitação do sexo e da violência no panorama audiovisual. Na Hammer, esta nova abordagem ao vampirismo é evidente na Karnstein Trilogy, numa referência directa a Carmilla Karnstein e que inclui The Vampire Lovers (Roy Ward Baker, 1970), Lust for a Vampire (Jimmy Sangster, 1971) e Twins of Evil (John Hough, 1971).

Jess Franco não apreciava os filmes da Hammer, considerando-os mal produzidos e filmados, e cópias a cores pouco inspiradas dos modelos da Universal, o que não o impediu de aceitar Christopher Lee, um dos símbolos do estúdio inglês, para protagonizar o falhado Count Dracula (El Conde Drácula, 1969), adaptação fiel da obra Dracula de Bram Stoker. Christopher Lee talvez seja um dos maiores defeitos do filme, não pela qualidade da representação, mas pela inevitável lembrança e comparação a que nos obriga, com o superior Dracula (1958), que Terence Fisher dirigiu para a Hammer e onde o actor vive semelhante história e personagem. Em Vampyros Lesbos, a perspectiva inventiva de Franco avança com desafios bem mais livres e estimulantes, através de uma narrativa simples e não linear que não se dirige à criação de medo ou suspense e passa ao lado das convenções do género: os vampiros não só não assumem qualquer incompatibilidade com a luz solar ou os reflexos nos espelhos, como não apresentam sinal dos famosos dentes pontiagudos.

Tendo sido filmado em Alicante, Barcelona, Istambul e Berlim, em Vampyros Lesbos as florestas e o gótico da Hammer dão lugar a paisagens ensolaradas, casas de recorte modernista, aves exóticas, escorpiões e borboletas. À volta, surge o mar, presença insistente nos filmes de Jess Franco, e a música inebriante de Manfred Hübler e Siegfried Schwab, que Quentin Tarantino homenagearia na banda sonora de Jackie Brown (1997). O erotismo de Soledad Miranda, de semblante impenetrável com olhos escuros e figura pálida, tornam-se no motivo do sucesso público do filme, o que levou Artur Brauner, proprietário da produtora alemã Telecine, a propor à actriz um contrato para vários filmes, pouco antes dela morrer num acidente trágico em Portugal. Coube à senhora que se seguiu, Lina Romay, evocar a memória de Nadine Korody, já em territórios próximos do hardcore, em La comtesse noire (Female Vampire, 1973) e Die Marquise von Sade (Doriana Gray, 1976), ambos rodados em Portugal.

Contra as críticas de exploração do corpo da mulher com que, por vezes, é atacada a obra de Jess Franco, recorremos às palavras do crítico Brad Stevens num artigo para o British Film Institut, em que discute a produção tardia do realizador. Retomando a justificação do British Board of Film Classification (BBFC) em recusar a certificação para a distribuição de Les possédées du diable (Lorna The Exorcist, Jess Franco 1974) - the work of this particular filmmaker has often fallen well outside the parameters of BBFC standards... offering little pleasure to the viewer other than a conscious vicarious gratification of misogyny –, Brad Stevens contrapõe: one of the most touching aspects of Franco’s final period is the way he continued making erotica focused on his long-term partner, star and muse Lina Romay (...) Yet, in the context of a cinema where only young bodies are presented as attractive, Franco’s insistence that a woman in her fifties can still be viewed as a sexual ‘object’ seems positively revolutionary. Perhaps ‘misogyny’ and ‘feminism’ can no more be unproblematically opposed than amateurism and professionalism, exploitation and art, childish innocence and sexual perversity, or creator and audience.

Este texto foi distribuído no âmbito do ciclo BELA LUGOSI ESTÁ MORTO!, programado por Carlos Alberto Carrilho para o colectivo White Noise. Trata-se de uma versão revista do texto (aqui) que acompanhou a iniciativa Jess Franco: Um Mapa, organizada pelos blogues My Two Thousand Movies e there's something out there, entre Julho e Novembro de 2013.



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Vampir-Cuadecuc




























Vampir-Cuadecuc (Pere Portabella, 1970)




No contexto da produção de cinema espanhola, embora Jess Franco e Pere Portabella ocupem posições singulares e diametralmente opostas, há um dado importante que os une: a vontade de experimentar. No início da carreira, Pere Portabella teve como principal distinção o facto de ter sido produtor de Viridiana (1961) de Luis Buñuel. No entanto, hoje talvez seja mais conhecido pelos frequentadores de museus e galerias de arte do que pelos das salas de cinema, com uma cinematografia composta por poucos títulos e muitos deles de duração curta, sem grandes preocupações narrativas, reflectindo sobre o cinema e os seus modos de produção. Jess Franco realizou cerca de duzentos filmes, para os quais escreveu argumentos, compôs música e fez a produção, participando muitas vezes como actor. Os baixos orçamentos levaram-no a soluções engenhosas, numa obra que muitos consideram curiosidade camp, trash ou exploitation, e uma informada minoria procura conhecer detalhadamente, tornando-o num dos realizadores de maior culto no mundo. A sua ligação a Portugal é intensa, onde realizou alguns dos seus melhores filmes, durante a década de 1970, aliado a co-produtores nacionais. Aqui viveu, casada com um português e de ascendência lusa, a sua primeira grande musa, Soledad Miranda, morta num trágico acidente de automóvel, entre o Estoril e Lisboa. Um dos exemplos mais célebres desta ligação é Die Liebesbriefe einer portugiesischen Nonne (Cartas de Amor de Uma Freira Portuguesa, 1976), filme com uma forte componente erótica, ainda que tenha obtido autorização para ser rodado em monumentos religiosos (entre eles, o Mosteiro dos Jerónimos). Quando esta obra foi exibida em Portugal, na década de 1980, foi motivo de escândalo levantado pelo tablóide Tal & Qual, que lhe colou, indevidamente, o rótulo de pornográfico, levando os actores nacionais participantes (Herman José, Ana Zanatti e Victor de Sousa) a se demarcarem dela.

A censura espanhola do regime ditatorial do general Francisco Franco, obrigou Jess Franco a refugiar-se noutras paragens para continuar a actividade de cineasta, principalmente quando se tratavam de aproximações ao softcore ou ao hardcore - muitas vezes forçado pelos produtores e distribuidores que chegavam a fazer terríveis inserções hardcore, rodadas sem o seu conhecimento e com outros actores. A maior parte dos seus filmes seguia para o mercado internacional, em versões diferentes, dependendo da força da censura local, pelo que não é tarefa fácil entrar na sua obra, sendo aconselhável um mapa que permita assinalar as versões que mais se aproximam do seu plano de intenções. Os grandes cultores da sua obra encontram-se espalhados pelo mundo e procuram avidamente as diferentes versões, trocando informações valiosas e discutindo em grupos especializados, nas redes sociais. Por volta de 1969, Jess Franco lança-se numa adaptação fiel da obra Dracula (1897) de Bram Stoker, a ser rodada em Espanha, com financiamento e actores internacionais. Não gostava particularmente dos filmes produzidos pela Hammer, que considerava versões a cores dos filmes de monstros da Universal, mas foi lá roubar a sua maior estrela, Christopher Lee, para desempenhar o papel do conde vampiro, juntando-o a outras vedetas internacionais, Klaus Kinski e Herbert Lom, e a lendas do cinema de género europeu, Maria Rohm, Soledad Miranda, Paul Muller e Jack Taylor. Count Dracula (El Conde Drácula, 1969) não teria grande interesse dentro da produção de Jess Franco ou da filmografia de Christopher Lee - impossível de descolar das suas interpretações de Dracula, nos filmes de Terence Fisher - não fosse a fama que lhe deu o catalão Pere Portabella, quando foi autorizado a acompanhar as filmagens, daí resultando a notável obra Vampir-Cuadecuc (1970). O termo catalão “cuadecuc” pode ser traduzido como “cauda de verme” mas também pode referir-se à parte não exposta no final de um rolo de filme.

Considerar Cuadecuc um dos mais célebres making-off da história do cinema, muitos anos antes da vulgarização deste formato, é bastante redutor em termos formais. Portabella usa filme a preto e branco de alto contraste, para a criação de imagens expressionistas que revelam os bastidores, a definição dos ambientes, a criação artificial de nevoeiro e de teias de aranha, as pausas, as repetições ou os sorrisos dos actores para a câmara, ou seja, para exibir todo o aparato que está para além da tela de cinema, expor os códigos que definem o género do terror e, de um modo mais lato, explorar a linguagem do cinema. Na pista de som, os diálogos foram substituídos por silêncio ou música concreta da responsabilidade do seu colaborador habitual, Carles Santos. Unindo o som de instrumentos musicais a ruídos reconhecíveis do quotidiano, que interferem insolitamente com o conteúdo da imagem, cria situações perturbantes, como as cenas em que os actores falam e apenas se ouvem sons que parecem toques insistentes de alguém numa porta ou no soalho. Pontualmente, os operadores de câmara de Franco entram no plano de Portabella como se estivessem a intervir com precisão numa cirurgia, que mais não é, do que um filme de terror modelado com efeitos especiais de baixo orçamento. O mesmo procedimento utiliza na curta Play Black (1970), agora com a sua própria equipa a filmar a gravação de um coro para a banda sonora de um filme sobre Antoni Gaudí. No entanto, o que destaca o dispositivo de Cuadecuc de um mero making off é o facto de Portabella (re)filmar a encenação de Franco, como se lhe pertencesse, a partir de diferentes ângulos, não só vampirizando o trabalho de Franco, como juntando imagens de uma Espanha parada no tempo, com ruas desertas e prédios que se diriam desabitados, a contrastar com outras imagens ou sons em off que indiciam sinais de movimento, mudança ou progresso: uma filmagem a partir de um veículo em movimento rápido, um comboio que passa tão veloz que só retemos as linhas do design das carruagens ou os sons de um avião e do que parece ser um martelo pneumático a perfurar o chão. Em planos repetidos, do alto da varanda da sua casa senhorial, Dracula vigia atento todos os movimentos à sua volta.

No genérico inicial de Cuadecuc está assinalado: Este filme foi realizado durante a rodagem de Dracula de Jesus Franco, produzido pela Hammer Films. Não existe evidência real de que a produtora britânica estivesse envolvida na produção do filme de Franco, pelo que podemos recorrer a alguma especulação para contextualizar este facto. E se não se tratasse de um lapso? E se esse erro factual fosse inserido, conscientemente, por Portabella, no genérico? Assim, também poderíamos imaginar que, nas condições em que está assinalado, o filme em questão nunca existiu, servindo apenas como motivo para contornar a censura e filmar abertamente a realidade crua da ditadura fascista espanhola. E que interesse nutriria Portabella pelo facto de o mestre de cerimónias Jess, partilhar o mesmo apelido, Franco, com o ditador Francisco? Portabella continuaria a reflectir sobre o regime fascista em Umbracle, realizado no mesmo ano que Cuadecuc e também com Christopher Lee. Em Cuadecuc, Pere Portabella não mostra a morte de Dracula e pede a Cristopher Lee que retire todos os elementos da sua máscara para ler o excerto da obra de Bram Stoker, que descreve a morte da sua personagem, terminando com um close up do rosto do actor, imóvel por alguns segundos a olhar para a câmara, enquanto se ouve a voz de alguém que grita: corta. O negro invade o écran e percebemos que é o fim. Poucos anos depois, a 20 de Novembro de 1975, o general Francisco Franco morreria, acelerando a queda da ditadura, e Pere Portabella tornar-se-ia num participante activo da vida política espanhola.

Versão revista do texto distribuído no âmbito do ciclo BELA LUGOSI ESTÁ MORTO!, programado por Carlos Alberto Carrilho para o colectivo White Noise.



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Bela Lugosi está morto!





















Com programação de Carlos Alberto Carrilho para o colectivo White Noise e organização em conjunto com o estúdio dos artistas plásticos André Trindade e Filipa Cordeiro, está a decorrer o ciclo de cinema BELA LUGOSI ESTÁ MORTO! A mostra acontece entre os dias 6 e 15 de Julho, no espaço 22ATELIER, e é constituída pelos títulos Vampir-Cuadecuc (Pere Portabella, 1970), Blood for Dracula (Paul Morrissey, 1974), Les lèvres rouges (Harry Kümel, 1971) e Vampyros Lesbos (Jess Franco, 1970). Cada exibição será antecedida por uma curta-metragem de Peter Tscherkassky: L'arrivée (1997/1998), Outer Space (1999), Dream Work (2001) e Manufraktur (1985).

O colectivo White Noise, de constituição recente, propõe-se programar cinema, entre "o melhor, o mais demente e o mais escondido". Como aperitivo, apresentamos o clipe de divulgação deste evento.





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Antes de saudarmos oficialmente o novo ano, encerramos aquele que terminou com algumas notas sobre o que marcou e ajuda a definir esse conjunto oficial de dias, ainda que as palavras se possam referir a produção que poderá ir um pouco além desse limite temporal. Um dos nomes que seguimos insistentemente foi Walerian Borowczyk, pintor, escultor e cineasta polaco radicado em Paris, onde sedimentou uma carreira auspiciosa na animação, apadrinhado por Chris Marker, passou para a longa metragem em modo live action no meio das transgressões eróticas dos anos 60 e 70, chegando a capa da revista Cahiers du Cinema, e terminou a carreira em ambientes pornô-chique que quase destruíram a reputação que lhe restava. O pontapé de saída para a operação de reabilitação em curso foi a bem sucedida campanha de crowdfunding lançada pela Arrow Video - dinâmica companhia inglesa responsável por óptimas edições de clássicos de Mario Bava, Dario Argento, Brian De Palma e Tobe Hoper, entre outros - para restaurar uma das suas primeiras longas-metragens, Goto, l'île d'amour (1969), a tal que originou a capa da revista francesa. Numa caixa sumptuosa, Camera Obscura: The Walerian Borowczyk Collection, a Arrow juntou a esta obra algumas das suas animações mais notáveis, as longas Théâtre de Monsieur & Madame Kabal (1967), Blanche (1972), Contes immoraux (1974) e La bête (1975), um livro editado por Daniel Bird e Michael Brooke com novos ensaios, artigos históricos de Raymond Durgnat, Philip Strick, Patrice Leconte, David Thompson e Chris Newby, e uma colecção de contos do artista, entre muitos outros extras preciosos. Apesar de se tratar de uma edição limitada e numerada, seguiu-se a edição autônoma de algumas dessas longas metragens. Em paralelo, entre Maio e Junho, o ICA apresentou em Londres a exposição Walerian Borowczyk: The Listening Eye, reunindo trabalhos pouco conhecidos como os estudos preliminares de animações e esculturas sonoras em madeiras que remetem imediatamente para os cenários artesanais dos seus primeiros filmes, também por ele desenhados. A operação da Arrow arrasta-se para 2015, que em conjunto com a sua novíssima congénere americana lançará Docteur Jekyll et les femmes, um dos seus melhores filmes, realizado já na década de 80, ainda antes de se dedicar a um novo titulo da série erótica Emmanuelle e acentuar o período de desgraça.

Por Portugal, na Cinemateca Portuguesa aconteceram dois óptimos ciclos dedicados ao cinema de terror clássico e contemporâneo. Falamos de Kiyoshi Kurosawa - O Padrinho do Terror, com cinco filmes rodados entre Cure (1997) e Kairo (2001), para nos fazer esquecer o fracasso recente de Sebunsu kôdo (Seventh Code, 2013), de um dos realizadores asiáticos mais importantes da actualidade, com uma carreira que passa pelo cinema e pela televisão; e do ciclo Mario Bava, figura tutelar do cinema de género italiano, com uma vasta obra repartida por trabalhos de realização, director de fotografia, operador de câmara e desenho de luz e efeitos especiais, em que os corpos, os objectos e os espaços são marcados de forma definida, recortados por jogos contrastados de luz e saturados de cor. O site À Pala de Walsh dedicou o dossier Os Filhos de Bénard ao "pai" de muitos cinéfilos portugueses e ex-director da Cinemateca Portuguesa, João Bénard da Costa. Um dos pontos altos da iniciativa foi a tradução para onze línguas de um dos seus textos mais conhecidos, dedicado ao "filme de muitas vidas",  Johnny Guitar (Nicholas Ray, 1954). Vindo de fora, ainda que com contribuições importantes de portugueses, destacamos: Joseph Losey na publicação La Furia Umana (ainda de 2013); Jean-Claude Brisseau na Foco - Revista de Cinema; Kinuyo Tanaka e Kenji Mizoguchi na revista LUMIÈRE; The Essential Raymond Durgnat organizado por Henry K. Miller; Mise en Scène and Film Style: From Classical Hollywood to New Media Art, mesmo que a preço proibitivo, do crítico australiano Adrian Martin; Midi-Minuit Fantastique : Volume 1, encadernação luxuosa dos primeiros números da célebre revista francesa dedicada ao fantástico; uma nova edição da revista online Lola; e a reedição de clássicos de cinemas das margens, Nightmare USA: The Untold Story of the Exploitation Independents de Stephen Thrower e The Haunted World of Mario Bava de Troy Howarth. Actualmente, o ensaio audiovisual é um meio de divulgação e reflexão pertinente, tendo na dupla Adrian Martin e Cristina Álvarez López um dos seus maiores cultores. Deles retemos o belíssimo exemplar que dedicaram a Brian De Palma, [De Palma's] VISION, a partir dos cenários de fantasia e da ideia de visão presentes na obra do realizador.




















Under the Skin (Jonathan Glazer, 2013)



Scarlett Johansson é despida da sua pose de estrela e posta à solta, a percorrer numa van ambientes urbanos da Escócia, enquanto flerta com os transeuntes. Há actores e pessoas comuns que são "apanhadas" enquanto caminham para o emprego ou para o centro comercial mais próximo, pelo que é ténue a separação entre o real e o encenado, entre os dispositivos do documentário e da ficção.
Pode passar por sacrilégio, mas neste aspecto, podemos ver Under the Skin (Jonathan Glazer, 2013) a aproximar-se de um certo "realismo" de Stromboli (Roberto Rossellini, 1950), nomeadamente no reflexo do confronto da estrela Ingrid Bergman, longe da segurança de Hollywood e das passadeiras vermelhas, com o vulcão e as condições exigentes em que vive a comunidade "primitiva" da ilha. O argumento de Walter Campbell e Jonathan Glazer pega no romance de Michel Faber com o mesmo nome e limpa-o de grande parte dos detalhes, incluindo o motivo do interesse da caçadora nas presas, criando uma narrativa fragmentada com pontas soltas entregues à capacidade ou interesse na decifração por parte do espectador. A propósito de Under the Skin, nas entrevistas, Jonathan Glazer gosta de citar Stanley Kubrick e relegar Nicolas Roeg para segundo plano. E é Kubrick que vemos, na geometria dos primeiros planos. Ainda o pressentimos, de tempos a tempos, na gestão precisa da música e do silêncio e no notável regresso a essa estilizada sala negra em que Scarlett Johansson caminha pela superfície de um liquido pastoso enquanto as suas vitimas nele se afundam. Mas é do David Bowie de Nicolas Roeg, em The Man Who Fell to Earth (1976), que mais nos lembramos: o cabelo laranja do alien andrógino, descendente da figura de Ziggy Stardust, intoxicado pelo álcool e pelo "american way of life", como também Scarlett Johansson de casaco de pêlo felpudo se vai desintegrando no contacto com a humanidade. We’re trapped in our shells. Skin can be beautiful one moment and frightening the next, é o comentário de Nicolas Roeg a propósito de The Man Who Fell to Earth, que quase rima com o filme de Glazer. Mas é o que está para além da pele que desconcerta a personagem de Johansson, incapaz de processar a complexidade do que é humano e rapidamente a caçadora passa a presa, o que vai ditar a sua queda. Certo é que o acentuar da fragilidade da personagem de Johansson a leva a procurar refúgio no espaço desabitado do campo e das florestas, como se qualquer pedaço da natureza terrestre ainda fosse esse espaço original arredado da construção humana. É aí que um homem a tenta violar, descasca-lhe a carcaça protectora e a empurra para uma redenção pelo fogo. Mas é no perturbante plano final que a criatura se revela finalmente ameaçadora: sobe com o fumo ao céu, que inesperadamente a devolve envolta na neve, como a coisa indefinível que irá contaminar o olhar do espectador, o que poderia fazer raccord com um plano de Quatermass 2 (Val Guest, 1957), clássico da ficção científica e do terror britânico, em que um grupo de cientistas observa num écran uma imagem gráfica semelhante a flocos de neve que caem sobre a Terra, que não são mais que pequenos meteoritos que em contacto com os terrestres os transformam em zombies ao serviço de uma comunidade alienígena.
   

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Jonathan Glazer, Under the Skin
Abel Ferrara, Welcome to New York
Vítor Gonçalves, A Vida Invisível
Joaquim Pinto, E Agora? Lembra-me
James Gray, The Immigrant
Hong Sang-soo, Nugu-ui ttal-do anin Haewon (Nobody's Daughter Haewon)
David Cronenberg, Maps to the Stars
Hong Sang-soo, U ri Sunhi (Our Sunhi)
Bruno Dumont, Li'l Quinquin
Hayao Miyazaki, Kaze tachinu (The Wind Rises)
Albert Serra, Història de la meva mort
Rithy Panh, L'image manquante
James DeMonaco, The Purge: Anarchy
Jennifer Kent, The Babadook

+ 14
Actor: Gérard Depardieu, Welcome to New York (Abel Ferrara)
Actriz: Essie Davis, The Babadook (Jennifer Kent)
Realizador: John Carpenter (omnipresente, mesmo sem novos filmes)
Banda sonora: Mica Levi, Under The Skin (Jonathan Glazer)
Ensaio visual: Adrian Martin & Cristina Álvarez López, [De Palma's] VISION
Evento: Mario Bava na Cinemateca Portuguesa (8 ½ Festa do Cinema Italiano)
Televisão: Penny Dreadful (John Logan), 1ª Temporada
DVD: Coffret Jean Epstein, Potemkine Films
Blu-ray: Torso (Sergio Martino), The Ecstasy of Films
Dual Format Blu-ray/DVD: Camera Obscura: The Walerian Borowczyk Collection, Arrow Video
Lost & found: Let's Scare Jessica to Death (John D. Hancock, 1971)
A grande (des)ilusão: The Sacrament (Ti West)
O pior: A Field in England (Ben Wheatley)
O mais aguardado: In a Valley of Violence (Ti West)

+ + 14
Mica Levi, Under The Skin OST (Milan)
Actress, Ghettoville (Werk Discs)
Shinichi Atobe, Butterfly Effect (Demdike Stare)
The Bug, Angels & Devils (Ninja Tune)
Lana Del Rey, Ultraviolence (Interscope)
Lorenzo Senni, Superimpositions (Boomkat Editions)
Ariel Pink, Pom Pom (4AD)
Kassem Mosse, Workshop 19 (Workshop)
Aphex Twin, Syro (Warp)
Andy Stott, Faith In Strangers (Modern Love)
Mr. Mitch, Parallel Memories (Planet Mu)
Popcaan, Where We Come From (Mixpak)
Untold, Black Light Spiral (Hemlock Recordings)
Dean Blunt, Black Metal (Rough Trade)


Como complemento, ver lista do melhor terror de 2014 (aqui).



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