Please Suck My Blood: The Dark Loves of Christopher Lee




















O MOTELx, em colaboração com o colectivo White Noise, organiza uma homenagem ao grande ícone do cinema de terror, o britânico Christopher Lee, desaparecido em Junho passado aos 93 anos. Lee, imortalizado pela sua interpretação de Dracula nos filmes da Hammer, fazia parte da mesma estirpe de rostos clássicos do terror como Lon Chaney, Boris Karloff ou Bela Lugosi. Para este efeito, foi lançado o convite ao jornalista e crítico dos “Cahiers du Cinéma”, Stéphane du Mesnildot, autor de diversos livros sobre cinema de género como «Jess Franco. Énergies du fantasme», «Fantômes du cinéma japonais. Les métamorphoses de Sadako» e o mais recente «Le Miroir obscur. Une histoire du cinéma des vampires», todos editados pela Rouge Profond, para escolher e apresentar um dos seus filmes preferidos do actor, «Eugenie (Jess Franco, 1969), e conduzir uma palestra que tem o sugestivo título «Please suck my blood: The dark loves of Christopher Lee». Em complemento a esta sessão, Stéphane du Mesnildot programou também a curta-metragem de Bertrand Mandico «Notre Dame des Hormones» (2014).


Programa:

12.09 | 17h00, Cinema São Jorge, MOTELx
"Please Suck My Blood: The Dark Loves of Christopher Lee"
Palestra por Stéphane du Mesnildot
Entrada gratuita

13.09 | 19h15, Cinema São Jorge, MOTELx
"Eugenie" (Jess Franco, 1969)
"Notre Dame des Hormones" (Bertrand Mandico, 2014)
Sessão apresentada por Stéphane du Mesnildot


Este é o clipe de apresentação do evento:





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Uma vela para Deus e outra para o Diabo



























Muerte de un ciclista (Juan Antonio Bardem, 1955)




«(...) esse histórico Salida de la misa de doce del Pilar de Zaragoza tem grande significado por marcar indubitavelmente o nascimento da cinematografia espanhola e, para além disso, fazê-lo não pelas chegadas e partidas de comboios que marcam o inicio da produção de filmes em quase todo o mundo, mas fixando no celulóide um testemunho da sensibilidade nacional, a fé religiosa, e precisamente no templo justamente chamado Santuário da Raça.» (Carlos Fernández Cuenca. (1959). Promio, Jimeno y los primeros pasos del cine en España. Madrid: Filmoteca Nacional de España).


 Imagens do Cinema na Espanha Franquista


Não é certo que Salida de la misa de doce de la Iglesia del Pilar de Zaragoza (Eduardo Jimeno Correas, 1897) tenha sido o primeiro filme da cinematografia espanhola pois existem polémicas e acusações de que sectores ligados à ditadura franquista tenham manipulado a História e criado o mito por motivos ideológicos. Mesmo assim, se compararmos os cenários escolhidos para este filme e para Sortie des usines Lumière (Irmãos Lumière, 1895), obra fundadora da produção de cinema em França, respectivamente a igreja e a fábrica,  compreende-se a diferente relação hierárquica que é dada às práticas da religião e do trabalho em cada uma das sociedades, a primeira maioritariamente agrária e a segunda em amplo desenvolvimento industrial. No caso espanhol, desde cedo o cinema foi entendido como uma máquina poderosa capaz de invocar todos os males denunciados pelos poderes vigentes, não só pela proximidade entre corpos que a escuridão da sala favorecia, mas também pela mensagem emanada pela tela. Trata-se de uma perspectiva que acompanhou a difusão do cinema no país, que se reorganizou com a entrada do som nas salas e que a ditadura do General Francisco Franco traduziu num veículo censor que pudesse dominar a população ao longo de várias décadas, obrigando a submeter para análise, primeiro os guiões e depois o produto final e o material de promoção. Entre outras medidas, ainda antes da chegada de Franco ao poder, em 1921, foi ordenado que as salas de cinema madrilenas fossem divididas em três espaços: um para as senhoras, outro para os senhores e um terceiro, iluminado por uma luz vermelha, destinado a casais, não fosse o Diabo envenenar os espíritos e embaraçar os corpos. Em 1937, em plena Guerra Civil, de ambos os lados das trincheiras o cinema era visto como veículo de propaganda pelo que os Franquistas criaram a Junta Superior de Censura Cinematográfica, pouco tempo depois de os Republicanos terem implementado normas censoras nos territórios que dominavam. (continua aqui)



Contribuição para um conjunto de textos sobre fendas na censura cinematográfica, iniciativa coordenada por Sabrina D. Marques para a publicação online Wrong Wrong. Para além dos que estão mencionados no final do texto, um agradecimento especial a Paulo Soares, cuja ajuda foi preciosa no visionamento dos filmes.



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Les lèvres rouges






















Les lèvres rouges (Harry Kümel, 1971




Na cultura popular, o equivalente feminino do Conde Dracula é encontrado na Condessa húngara Elizabeth Báthory, acusada do assassinato em série de centenas de mulheres virgens, cujo sangue utilizava para beber e se banhar de modo a rejuvenescer o corpo, numa deriva em busca da beleza e da vida eterna. Walerian Borowczyk partiu  da vida de Báthory para compor o retrato que faz parte no terceiro segmento do filme Contes immoraux (1974). Pouco depois da sua prisão, Elizabeth Báthory acabaria por morrer, desconhecendo-se o paradeiro actual dos seus restos mortais, tendo a sua biografia alimentado a imaginação popular, que a equiparou a Vlad, o Empalador, o Príncipe da Valáquia (actual Roménia) que serviu de base ao escritor irlandês Bram Stoker na criação da figura de Dracula. Mesmo após uma fria recepção critica ao seu filme anterior, Monsieur Hawarden (1968), drama de época em que uma mulher se disfarça de homem para evitar ser perseguida pela morte do amante, o realizador belga Harry Kümel arranjou facilmente financiamento internacional para Les lèvres rouges (1971), actualização da figura de Elizabeth Báthory, como se não tivesse sido presa e a sua vida se tivesse prolongado ao longo dos séculos. A ideia era manter o tom do seu filme anterior, combinado com boas doses de sexo e sangue, respondendo aos ventos da época que indicavam uma maior cedência da censura no que diz respeito a imaginários polémicos.

Em torno de Delphine Seyrig, icónica actriz francesa de origem libanesa, memorável nos papéis que representou em L'année dernière à Marienbad (Alain Resnais, 1961), Muriel ou Le temps d'un retour (Alain Resnais, 1963) ou Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles (Chantal Akerman, 1975), juntou-se um grupo de actores internacionais propostos pelas diferentes partes envolvidas no financiamento: o americano John Karlen, mais conhecido pela participação em séries televisivas, nomeadamente na brilhante Dark Shadows (Dan Curtis, 1966-1971), recentemente adaptada ao cinema por Tim Burton, e na popular Cagney & Lacey (Barbara Avedon, Barbara Corday; 1981-1988); a modelo e estrela erótica canadiana Danielle Ouimet; e a jovem actriz alemã Andrea Rau, até aí apenas com notoriedade no sector hardcore. Para a composição física das personagens de Delphine Seyrig e Andrea Rau, o realizador teve como modelo a vincada personalidade das actrizes  Marlene Dietrich e Louise Brooks. As filmagens decorreram entre o pôr do sol e a madrugada, maioritariamente entre a estância balnear de Ostend (exteriores) e o hotel Astoria de Bruxelas (interiores).

O argumento de Les lèvres rouges centra-se no encontro de Elizabeth Báthory (Delphine Seyrig) e da sua secretária e companheira Ilona (Andrea Rau) com um casal de recém-casados, Stefan e Valerie  (Danielle Ouimet e John Karlen), que devido a um problema na ligação de transportes, se vê retido numa estância balnear deserta, durante a época baixa, enquanto nas redondezas ocorrem sangrentos assassinatos de mulheres noticiados pela imprensa local. O mistério ronda ambos os casais: se, por um lado, vão sendo lançados sinais da ligação de Elizabeth Báthory aos assassinatos referidos, por outro, o homem pertencente ao segundo casal recusa-se a regressar e apresentar a nova companheira à “mãe”, aristocrata com ideias bem definidas sobre o conceito de classe social. Segundo o relato de Harry Kümel, o slogan utilizado no trailer americano do filme chamava a atenção para este elemento, bastante secundário mas eficaz como motor na engrenagem da violência: Se pensa que estas duas mulheres são ferozes (wild, no original), espere até conhecer a Mãe.  Do encontro entre as diferentes agendas dos elementos dos dois casais, emerge uma enorme brutalidade na violência que antes era sugerida levemente e logo mecanicamente controlada, conduzindo inevitavelmente à reorganização dos casais e, posteriormente, a um desfecho marcado pela morte. Algo que não surpreende pois a morte não é mais que o signo que acompanha Elizabeth Báthory na viagem pelo tempo.






















Les lèvres rouges (Harry Kümel, 1971)




Les lèvres rouges, no mercado internacional traduzido para Daughters of Darkness, é um filme a quatro cores. Nos primeiros planos de Elizabeth Báthory, a baixa intensidade da luz pouco mais revela que o preto das botas brilhantes e o vermelho do batom nos lábios. O branco juntar-se-á, completando o esquema de cores dominante no vestuário e acessórios de todos os elementos do grupo que, em sucessivas trocas, fixam combinações de carácter simbólico, culminando na cena em que Elizabeth consuma a aproximação a Valerie, em que ambas usam branco.  Não será irrelevante ter presente que este conjunto de cores representa o Império Germânico e que foi adoptado pelo Partido Nazi, reforçando a ideia de que estamos perante duros jogos de poder que visam a imposição e a tirania. Para a construção dos ambientes outra cor é chamada: o azul da água e do céu nocturno, que se remete para a tranquilidade e revela o carácter aristocrata também evoca a frieza e, por se tratar da cor mais fria entre as frias, é para escuridão infinita, a morte, que inevitavelmente aponta.

Na composição das cenas, importa também realçar a influência da pintura das escolas flamenga e italiana, cujo exemplo maior é o plano polémico da  morte de Stefan que lembra a obra Lamentações sobre o Cristo Morto (1490) do pintor Andrea Mantegna (1431-1506); a música de François de Roubaix que sugere algum do minimalismo do compositor flamengo Wim Mertens, célebre pelas bandas sonoras que escreveu para os filmes de Peter Greenaway; os jogos de geometria proporcionados pela arquitectura dos locais desertos; a performance encantatória de Delphine Seyrig (a quem o realizador permitiu que ajustasse os seus diálogos) que coloca o movimento do corpo ao mesmo nível do uso da palavra, deslizando serpentinamente até colocar Valerie sob a sua capa negra, antes de a noite chegar ao fim; e, finalmente, o atmosférico e onírico tom geral. O resultado é um nível de estilização invulgar na produção de cinema de terror da época que é (des)equilibrado pelos habituais códigos do género, em cenas comandadas pelo sadismo, o gore e o sexo.

Harry Kümel afirmou que não lhe interessava o realismo no cinema e, certamente, que a depurada sofisticação fantasista de Les lèvres rouges acompanha o seu pensamento, pelo que não deixamos de acompanhar com ironia a ligação posterior de Delphine Seyrig a Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles. Numa das obras mais fascinantes da história do cinema, Chantal Akerman questiona a utilização no cinema desta proposta de ilusão do pensamento e dos sentidos do espectador, que  Kümel sugere e em que assenta a estrutura de Les lèvres rouges. Akerman funde as vanguardas americanas e europeias, das décadas de 1960 e 1970, que ambicionavam despertar no espectador a percepção das especificidades do cinema, desmontando as suas características ilusionistas: os meios normativos na organização da narrativa e da criação de significado (europeia); e as propriedades espaciais e temporais do filme enquanto medium (americana).


Versão revista do texto distribuído no âmbito do ciclo BELA LUGOSI ESTÁ MORTO!, programado por Carlos Alberto Carrilho para o colectivo White Noise.



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