Yes, I shed some tears this morning, but listening to Clifford Brown's "I'll Remember April" -- a song I posted on Facebook in tribute to Jess -- reminded me that grief is selfishness. To really be in the presence of Jess Franco, all you need do is listen to great jazz, the most alive music there is. Wherever Jess is, the mystery is taking him into his confidence as a final reward. His best movies addressed the balance of those two great mysteries, sex and death, and he now knows more about the poem he spent his life writing than he ever did while alive.
The Tall Man (O Homem das Sombras, 2012), de Pascal Laugier, fez o pleno dos festivais de cinema de terror portugueses (Fantasporto e MOTELx) e estreou na semana passada. Já o tínhamos dito aqui: The Tall Man é um falhanço, em grande parte devido a uma narrativa dominada pelos twists e que demora demasiado tempo a afirmar-se. Não é um problema de género - de saber se se inscreve ou não no cinema de terror -, mas sim de fundo. Um veículo para Jessica Biel que, para além de actriz principal, aparece também como produtora executiva. Surpreende, então, que Pascal Laugier, um dos casos mais celebrados da vaga de cinema de terror francês da década de 2000, tenha agora uma exposição mediática desta medida com um filme que não a merece. A presença de elenco e financiamento norte-americanos não deveria ser razão suficiente para o facto. A estreia de The Tall Man foi também motivo para o ressurgimento de louvores entusiásticos dirigidos aos primeiros filmes deste grupo de realizadores e da constatação de que os filmes que se seguiram consistem, regra geral, em desilusões.
A vaga de cinema de terror gaulês (Alexandre Aja, Alexandre Bustillo e Julien Maury, David Moreau e Xavier Palud, Pascal Laugier, Xavier Gens, ... ) surgiu num contexto específico da realidade politica e social francesa: a ascensão da extrema direita e as revoltas de jovens suburbanos. Daí que, as narrativas se concentrassem na ansiedade perante a diferença e o Outro. Os resultados foram desiguais, com muitos dos filmes a evidenciarem um certo histerismo e violência desenfreada que, no seu pior, anestesiavam e alienavam o espectador. Nos filmes seguintes, perdido o contexto e com a chegada das propostas para filmarem na América, deu-se uma renovação que, mais que desejada, foi imposta. Na maior parte dos casos, os filmes actuais não são menores quando comparados com aqueles que foram produzidos na década de 2000. Se os discursos foram amaciados, perdeu-se em violência o que se ganhou em subtileza. Veja-se o caso de Livide (Alexandre Bustillo, Julien Maury, 2011) ou de The Divide (Xavier Gens, 2011), já aqui apreciados. O que acontece é que, para muita gente, as expectativas foram colocadas demasiado altas. Como complemento, no link abaixo deixamos a reflexão alargada que fizemos, no ano passado, sobre a produção passada e actual destes realizadores. Não está referido no post, mas aproveitamos para acrescentar que, da primeira fornada, um dos filmes de que mais gostamos é Ils (David Moreau, Xavier Palud, 2006), o mais modesto e de que ninguém fala. //
Depois do lançamento no Reino Unido, American Mary (Jen Soska, Sylvia Soska, 2012) já tem marcada, para o próximo mês de Maio, a estreia em sala, nos Estados Unidos. Há uns tempos, a Time Out de Londres publicou uma lista com os filmes favoritos das realizadoras de American Mary, também conhecidas como The Twisted Twins. Estes são os filmes que escolheram e o respectivo comentário:
American Psycho (Mary Harron, 2000) Funny Games (Michael Haneke, 1997) The Exorcist (William Friedkin, 1973) Audition (Takashi Miike, 1999) Let the Right One In (Tomas Alfredson, 2008) Antichrist (Lars von Trier, 2009) Martyrs (Pascal Laugier, 2008) Man Bites Dog (Remy Belvaux, Andre Bonzel, Benoit Poelvoorde, 1992) The Thing (John Carpenter, 1982) Alien (Ridley Scott, 1979)
"American Psycho” is one of the greatest horror satires ever made. The controversial Bret Easton Ellis novel turned into a film by Mary Harron is violent, fun, and disturbing all at the same time. “Martyrs” is a female-driven bloodbath that will please even the most gore hungry fans with hauntingly dark undertones. The film delves into what makes a victim and the power exchange between people who victimize and those they inflict their torture upon. The same goes for “Audition” – most often we see the female characters in a horror film as the helpless victim. This film leads you in one direction, skillfully hinting at a darker storyline for the otherwise meek and slight Asami until the final 15 minutes where we are introduced to a merciless monster. A perfect personification of the irrational rage of a woman scorned.
No there's something out there, recuperamos o favorito das Soska, American Psycho, mas com um pouco de batota pois, ao contrário do que acontece habitualmente nesta rubrica, não mostramos os créditos ou a primeira cena do filme. American Psycho é a adaptação do livro homónimo (1991) de Bret Easton Ellis, que assinalou o fim da euforia yuppie, nos Estados Unidos, durante a segunda metade da década de 1980. Tal como o livro, a produção do filme esteve envolta em controversia. A proposta para a realização passou por várias mãos, desde Oliver Stone a David Cronenberg. Não deixa de ser interessante verificar que foi uma mulher, Mary Harron, que assumiu a realização, depois das acusações de misoginia que foram dirigidas a Bret Easton Ellis. Para dar corpo à personagem principal, Patrick Bateman, foram indicados vários actores - entre eles, Brad Pitt e Leonardo DiCaprio - que acabaram por desistir pela ameaça de poderem manchar a carreira. A personagem foi entregue a Christian Bale, no seu primeiro marcante papel de adulto e anos depois de ter sido notado pela participação em Empire of the Sun (Império do Sol, 1987) de Steven Spielberg. Bale enfrenta o que lhe é proposto, expondo-se com uma generosidade invulgar, numa atitude consciente de que não tem nada a perder.
Esta é a terceira cena de American Psycho, surgindo logo a seguir aos créditos, e é exemplar no modo como, em dois minutos, condensa as quase duas horas do filme. Patrick Bateman é um rico executivo nova-iorquino transformado em serial killer. Pelo piano de John Cale, partilhamos o espaço intimo de Bateman. A dieta, a máscara de gelo, os abdominais, o gel, o óleo, o esfoliante, o aftershave, o hidratante, o creme anti-rugas e, mais uma vez, a máscara. Como se estivéssemos num clipe publicitário, cada produto é apresentado com a sua especificidade e respectivas indicações de como o usar. É o cinema à boleia da linguagem da publicidade, mas reservando a possibilidade de a boicotar, tanto com o som da urina como com os restos da máscara que ficam na face. Uma tensão que também aponta para a incompatibilidade que Patrick Bateman parece viver - enquanto executivo, belo e de sucesso, e ao mesmo tempo um criminoso violento. Mais à frente, a banalidade e o vazio provocado pelos rituais do consumo serão contrastados com cenas cruas de violação, desmembramento, tortura, morte e canibalismo. Não como proposta de incitação à violência, tal como o filme foi acusado, mas como um caminho para reflectir sobre a insatisfação de Bateman. Antes que caia a máscara da sanidade, a câmara rodeia a pele da personagem, incapaz de perscrutar o seu interior. Como um sofisticado manual de instruções de como cuidar a carne. No que toca à alma, é a negação da hipótese de catarse que veremos a seguir. //