Terror na Terceira Vaga do Feminismo













Lovelace (Rob Epstein, Jeffrey Friedman, 2013)



A forma como é encarada a representação da sexualidade feminina é algo que tem dividido os estudos feministas. Se numa primeira fase do movimento feminista havia um consenso relativo à reivindicação para a mulher de um estatuto de cidadã nos mesmos termos que o homem, já no final da década de 1970 outras preocupações se levantaram e as discussões em torno da exploração do sexo criaram rupturas dentro do próprio movimento que se prolongaram até à actualidade. Neste contexto, assumiram particular relevo as diferentes posições em relação à sexualidade, à pornografia, à prostituição e a outras formas que podiam ser entendidas como manifestações do poder sexual masculino. O filme Snuff (Michael Findlay, Roberta Findlay, Horacio Fredriksson, 1976), um marco da exploitation, fora um dos motes para a guerra que se instalou, ao mostrar, como se fosse um verdadeiro snuff film, uma mulher a ser violentamente desmembrada pela equipa de filmagens. Inflamado por uma engenhosa campanha publicitária que recorreu a falsos protestos contra a produção do filme, o lançamento ocorreu debaixo de manifestações reais por parte de grupos que apelavam ao fim da exploração sexual da mulher. Também a publicidade de ordem sadomasoquista que os The Rolling Stones utilizaram para o álbum Black and Blue (1976), tornou-se numa outra frente de batalha. O hardcore não poderia passar despercebido e foi exigido que se criassem normas legais que condicionassem a indústria pornográfica. Neste caso, a publicação, em 1980, de Ordeal por Linda Boreman - mais conhecida como Linda Lovelace, a protagonista de Deep Throat (Gerard Damiano, 1972) - serviu de suporte aos discursos professados pois a autora assumia que tinha trabalhado na indústria do sexo, explorada financeiramente e forçada, de forma física e emocional, pelo ex-marido. Os grupos feministas levaram Boreman a percorrer os Estados Unidos, em conferências que apelavam contra a objectivação sexual da mulher. Mais tarde, também Boreman acusaria o movimento feminista de ter ganho imenso dinheiro com ela, sem o ter repartido de uma forma que considerava equitativa. Em variadas ocasiões o cinema analisou os fenómenos de libertação sexual em que surgiu Deep Throat, nomeadamente em Inside Deep Throat (Fenton Bailey, Randy Barbato, 2005). Mais lá para o final deste ano, vamos poder aí regressar com Lovelace, o biopic de Linda "Lovelace" Boreman que recentemente foi apresentado no Festival de Sundance.

Como referido, as posições que se manifestavam contra a utilização do sexo na representação da mulher não eram consensuais mesmo dentro do feminismo. Havia correntes que acreditavam que a libertação sexual era uma componente determinante da libertação da mulher. Não só a pornografia era entendida como mais um meio para a libertação, como as posições anti-pornografia eram consideradas tão opressivas como aquelas que vinham dos sectores mais conservadores da sociedade pois ignoravam a capacidade da mulher para decidir e agir. Puritanismo sexual, autoritarismo moral e ameaça à liberdade de expressão, acusava a activista feminista Ellen Willis em 1979. O choque entre as frentes pró e anti sexo marcou o fim da segunda vaga do feminismo e a entrada numa nova fase que durou até ao presente. Esta terceira vaga trata a sexualidade feminina enquanto algo que merece ser celebrado e assume um maior leque de definições do que o sexo significa e do que a opressão e a emancipação podem implicar nesse contexto. Isto traduziu-se numa reavaliação de posições conservadoras anteriores no que diz respeito à representação da sexualidade da mulher e no desafiar da crença de que a mulher estaria sempre a ser explorada. O fenómeno Riot grrrl é bem exemplificativo desta nova tendência. Por volta de 1990, na área de Washington um grupo de mulheres jovens com ligações ao mundo da arte adoptava uma atitude do it yourself herdeira do punk, criava fanzines e formava bandas de música garage. Bikini Kill e Bratmobile foram as bandas que melhor incorporaram o movimento, convocando os ideários punk e feminista numa fusão que se apresentava como um ataque frontal a uma paisagem musical dominada pelos homens. Kathleen Hanna, uma das mentoras das Bikini Kill, trabalhara antes como stripper e uma década depois formaria as mais conhecidas Le Tigre, numa tentativa de actualização do espírito Riot grrrl. É de 2001, o clássico Feminist Sweepstakes das Le Tigre.


  American Mary (Jen Soska, Sylvia Soska, 2012)



De origem canadiana, as gémeas Jen e Sylvia Soska podem ser enquadradas nesta linhagem de mulheres que olha sem vergonha e mostra sem pedir desculpa. Ainda estudantes, depois de lhes terem cortado o financiamento para o trabalho de graduação, fizeram um filme compilação com todos os elementos que a escola lhes tinha imposto como proibidos. O resultado foi que, na apresentação, a maior parte dos espectadores abandonou a sala e, os que restaram, proferiram impropérios em voz alta. Depois, as gémeas pegaram em Rebel Without a Crew - Or How a 23-Year-Old Filmmaker with $7,000 Became a Hollywood Player de Robert Rodriguez (como o subtítulo indica, um manual para cineastas tesos alcançarem sucesso em Hollywood) e gastaram todo o dinheiro que tinham a fazer Dead Hooker in a Trunk (2009), que Eli Roth viu e do qual afirmou: you should check out the Soska sisters, who made a film called Dead Hooker In A Trunk. They made it low budget and it's fucking awesome. Entretanto, Roth assumiu o papel de mentor das irmãs e sugeriu-lhes qual o caminho a seguir, de entre os projectos que tinham em mão. É assim que surge American Mary (2012), cujo título é uma brincadeira com American Psycho (2000) da conterrânea Mary Harron. Depois do circuito dos festivais - passou pelo MOTELx 2012 -, foi recentemente lançado em Blu-ray e DVD. Katharine Isabelle protagoniza o filme como Mary, uma dedicada estudante de medicina que vê os seus sonhos profissionais e emocionais, um a um, serem destruídos. Segue-se o habitual caminho da vingança e o espectador aprende que de um cirurgião, ainda que aprendiz, nunca deve fazer um inimigo. Mas antes de mais, American Mary propõe, sob o signo do body horror, uma discussão sobre noções de beleza e uma exploração em torno dos fantasmas da modificação corporal. A Jen e Sylvia Soska interessa confrontar a cirurgia plástica e a modificação corporal e perceber a forma como cada uma delas é tratada a nível legal e social. Enquanto a primeira é aceite, a segunda é contestada moralmente e olhada com ansiedade e medo.

American Mary sugere um outro tempo, em que o terror era construído a partir de componentes artesanais que salientavam o lado táctil e visceral dos corpos. Em que a computer-generated imagery não existia ou era posta de lado a favor da utilização de bonecos eléctricos, próteses, latex, silicone ou líquidos. Neste aspecto podemos considerar American Mary mais próximo dos primeiros filmes de John Carpenter ou de David Cronenberg do que do terror da última década. Não surpreende, então, que um dos filmes favoritos das irmãs Soska seja The Thing (John Carpenter, 1982), um paradigma da utilização realística de efeitos especiais baseados em técnicas artesanais. Contando com a assessoria de técnicos e artistas que trabalham questões relacionadas com a modificação corporal e a participação em formato cameo de elementos da comunidade body-mod, American Mary é um hino aos heróis sem cara, muitos deles perdidos na história, que de modo talentoso experimentaram e aperfeiçoaram técnicas que atingiram um apogeu no cinema de ficção cientifica e de terror dos anos 80.

Apesar dos vários pontos de contacto com o universo da família Cronenberg - em breve vamos poder ver o primeiro filme do filho Brandon, Antiviral (2012) -, é certo que não possui a mesma gravidade. Contudo apresenta-se bastante sóbrio, algo que o primeiro contacto com a atitude terrorista das Soska não deixa adivinhar. A beleza da protagonista é reforçada por um catálogo de roupa de conotações fetichistas (gabardinas, batas médicas, negligees e lingeries), que se evidencia a sua sexualidade, não pretende abrir ao espectador a porta do voyeurismo mas sim problematizar a sexualidade feminina. Segundo Jen e Sylvia Soska: we're very into third-wave feminism, where a woman can own her sexuality and not shy away from it. Numa das cenas mais perturbantes, uma mulher escultural com aspecto de Barbie afirma que não considera justo que Deus escolha como ela deve parecer por fora e que nunca fez cirurgias para se tornar num simbolo sexual. Pede a Mary que intervenha no seu corpo, acentuando a sua forma de boneca, pois assim poderá estar nua e nunca sentir-se envergonhada, sexualizada ou degradada. //

Zero Dark Thirty






Zero Dark Thirty (Kathryn Bigelow, 2012) 



The following motion picture is based on
first hand accounts of actual events.


A obra de Kathryn Bigelow enfrenta uma série de convenções instaladas na indústria cinematográfica. Não só se tornou na primeira mulher a receber o óscar para a melhor realização, como o seu olhar é dirigido para universos marcadamente masculinos, que tradicionalmente são abordados por homens. Falamos tanto do filme de guerra, The Hurt Locker (2008),  como do filme de surf, Point Break (1991). No que diz respeito aos géneros, não se fica pelos citados e ainda poderíamos destacar a ficção cientifica, Strange Days (1995), ou o terror, o fabuloso Near Dark (1987). Mas não foi o cinema que recolheu inicialmente a sua atenção. Nos anos de 1970, dedicou-se à pintura e trabalhou com Lawrence Weiner e o colectivo Art & Language. Tratam-se de duas das maiores influências da arte conceptual que, nas décadas seguintes, marcaram vigorosamente o rumo da arte internacional. Em Sentences on Conceptual Art, outro dos gurus do movimento, Sol LeWitt, aponta que ideas can be works of art; they are in a chain of development that may eventually find some form. All ideas need not be made physical. Por outras palavras, uma ideia pode substituir uma pintura ou uma escultura, enquanto obra de arte - um conceito que reagia à mercantilização imposta pelo mercado da arte. Em finais da década de 1970, numa mistura de arte pop com arte conceptual, um grupo de artistas norte-americano, Pictures Generation, apropriava-se, de modo critico, das imagens produzidas pelos meios de comunicação de massa, numa reacção, segundo o crítico Douglas Crimp, à importância crescente do modo como as imagens – dos jornais, revistas, televisão e cinema – definiam a experiência humana (para mais detalhe, ver post a propósito de Robert Longo). Perante isto, não deixa der ser curiosa a aproximação de Kathryn Bigelow ao cinema na sua forma industrial - não foi caso único -, depois de ter convivido com a fracção mais radical da arte conceptual e enquanto as artes plásticas olhavam para o cinema de modo crítico. Ainda mais quando a obra de Bigelow se dirige claramente ao grande público e não acumula sinais evidentes do típico "filme de artista". Numa entrevista ao The Village Voice, quando lhe perguntaram como é que a sua anterior passagem pelas artes plásticas comunica com os seus filmes, respondeu: I think there's something called a clean-room theory, a legal term: You can't unknow what you know. Whether or not it's background or foreground, it's still somehow there, subconsciously. Like a pigment. E quanto ao facto de já não pintar: I don't, actually, but I think of film really in the same parameters I did when I was in the art world: The sense of trying to use the work to justify the work. So I guess I think of tonal balances—of accessibility (meaning entertainment) and substance. And there's a wonderful tension between the two, and if you can strike the right balance, therein is the art.

Acabado de estrear, Zero Dark Thirty (00:30 A Hora Negra, 2012)  é um exercício aberto que lança pistas e pede ao espectador que construa a "sua" narrativa. Que tem, desde logo, um fim à vista: a captura de Osama bin Laden. Mas o que está em causa são os contornos dessa mesma narrativa: as obscuras movimentações que tiveram lugar entre o 11 de Setembro e a morte de Laden. Quem está familiarizado com o mundo das séries televisivas poderá, de imediato, estabelecer um paralelo entre Zero Dark Thirty e a série Homeland (Howard Gordon, Alex Gansa, 2011– ). Ambas as obras debruçam-se sobre a luta contra o terrorismo islâmico e têm como protagonistas duas agentes obcecadas com a sua missão. A aproximação poderia ficar por aí, pois no filme de Bigelow não há réstia de romantismo ou sentimentalismo. As personagens, agentes envolvidos nas operações de captura, não têm passado e renunciam a qualquer indicio de futuro que as possa desviar da obstinação que lhes consome o presente. Um processo de abstracção que toma conta do filme e que culmina na espantosa longa cena final, quando os militares tomam de assalto o último refúgio de Osama bin Laden. Com a luz reduzida ao mínimo e os militares totalmente tapados com o equipamento, desaparece qualquer traço de individualidade, tanto nas personagens como nos cenarios. É seguindo o ponto de vista do grupo que caminhamos até ao culminar da missão. Sem contracampos e, por conseguinte, pontos de vista dos alvos. Zero Dark Thirty pode não ter o brilho de The Hurt Locker mas resulta numa instalação, suficientemente elegante, duma artista que trabalha no seio da indústria. Na era da infantilização dos discursos, estamos perante cinema feito por adultos e dirigido a adultos.

Estes méritos não foram suficientes para conter a instrumentalização politica de que Zero Dark Thirty foi alvo, tanto da esquerda como da direita, e a violência crítica com que foi recebido, mesmo por muitos dos que incensaram Kathryn Bigelow no ano em que recebeu o óscar. Uma das armas que tem sido usada contra o filme é que promove o uso da tortura e que faz parte duma campanha de propaganda da administração norte-americana, que tenta limpar a face no que toca ao uso da tortura nos interrogatórios aos presumíveis terroristas, no período pós 11 de Setembro. A realizadora foi, em parte, responsável pela polémica pois insistiu exageradamente no carácter documental do filme. Foi, assim, com alívio que lemos a afirmação de Kathryn Bigelow no título da entrevista que concedeu à revista francesa Les Inrockuptibles: Zero Dark Thirty est une fiction. Mesmo que documentos confidenciais tenham sido consultados e por mais rigor que possa ter havido na reconstituição dos factos, estamos em modo de ficção e é assim que o filme deve ser julgado. Passar de acusações de propaganda política até colagens a Leni Riefenstahl parece um passo de gigante, mas não para Naomi Wolf que utilizou a sua tribuna no The Guardian para cometer o pecado, numa carta aberta dirigida a Kathryn Bigelow. Segundo Wolf, it may seem extreme to make comparison with this other great, but profoundly compromised film-maker, but there are real echoes. When Riefenstahl began to glamorize the National Socialists, in the early 1930s, the Nazis' worst atrocities had not yet begun; yet abusive detention camps had already been opened to house political dissidents beyond the rule of law – the equivalent of today's Guantánamo, Bagram base, and other unnameable CIA "black sites". Pois a comparação entre Kathryn Bigelow e Leni Riefenstahl parece extrema e violenta. E enquanto compara, vai relativizando o que não pode ser relativizado. Riefenstahl, claro. //

Revivre



Denis Lavant em Holy Motors (Leos Carax, 2012)



En même temps qu'on a froid, quand même on pense
Que si le ciel nous laisse on voudra
Revivre.
Ça signifie :
On voudrait vivre encore la même chose.


Gérard Manset, 1991


Parte final do destaque que demos ao trabalho do actor francês Denis Lavant e à sua relação com a música. Completamos com um excerto da sua participação no recente Holy Motors (2012) de Leos Carax - para nós, o melhor filme de 2012 -, sob um tema da autoria de Gérard Manset. Já não há dança, contorções, espasmos ou epilepsia. Estamos em fim de viagem. Lar, doce lar! //