Cinema Extremo Francês: Passado e Presente


Cartaz de Frontière(s) (Xavier Gens, 2007)


Enquanto os americanos juntavam os cacos resultantes da guerra de palavras em torno do torture porn, os franceses propunham uma série de filmes a que o crítico James Quandt, num artigo para a revista Artforum, apelidava de New French Extrimity. Bava as much as Bataille, Salo no less than Sade seem the determinants of a cinema suddenly determined to break every taboo, to wade in rivers of viscera and spumes of sperm, to fill each frame with flesh, nubile or gnarled, and subject it to all manner of penetration, mutilation, and defilement, assinalava Quandt, de forma certeira, no artigo. No meio dos autores nomeados - grande parte deles eram nomes queridos da crítica francesa - surgia um jovem cineasta que lançara um filme de terror que se distanciava do formato que associamos ao cinema de autor francês. Falamos de Alexandre Aja e do seu filme Haute tension (2003), um slasher que deixava a milhas a maior parte da concorrência norte-americana da época. Para isso contribuíam muito a segurança de Aja na direcção e os efeitos especiais criados por Giannetto De Rossi, que colaborara habitualmente com Lucio Fulci e  também com David Linch para o brilhante desenho futurista de Dune (1984). A Lionsgate (casa das séries Saw e Hostel) acabaria por lançar o filme no mercado norte-americano e o sucesso foi imediato dentro dos círculos do cinema de terror.

Nos anos seguintes, outros títulos franceses marcaram a actualidade do cinema de terror internacional: Ils (David Moreau, Xavier Palud, 2006) , Frontière(s) (Xavier Gens, 2007), À l'intérieur (Alexandre Bustillo, Julien Maury, 2007) e Martyrs (Pascal Laugier, 2008), de tal forma que se começou a falar de um movimento de cinema de terror francês, cuja existência os autores dos filmes negavam. No entanto, para além de os realizadores andarem quase todos na casa dos trinta anos e terem o cinema americano como grande referência, tornava-se evidente que havia temas comuns aos filmes e um contexto social e politico que era referido nas narrativas e que parecia contextualizar as obras. As revoltas de jovens franceses suburbanos foi um tema que marcou a actualidade mediática de 2005 e que coincidiu com a produção de vários desses filmes. Residentes nos subúrbios das grandes cidades e descendentes de comunidades oriundas do norte de África, os jovens foram protagonistas de actos que envolviam o incêndio de carros e de edifícios públicos e pelos quais se manifestavam contra uma França que, enquanto se promovia como a casa da liberdade, igualdade e fraternidade, lhes devolvia um futuro sem esperança e marcado pela discriminação. Uma luta entre a cidade endinheirada e o subúrbio remediado, ao qual era negada qualquer hipótese de integração. Outro acontecimento que os filmes parecem evocar é a ascensão no seio da sociedade francesa de partidos de extrema direita e de ideias a ela associadas. É este o quadro que  acaba por ditar um dos grandes temas explorados por estes filmes: o medo da diferença e do Outro. Não acompanhamos a opinião de muitos críticos que acusam os filmes de gratuitidade na forma como exploram a representação da violência, tendo como único objectivo quebrar limites e consequentemente provocar o espectador. No entanto, parece-nos que alguma subtileza seria desejável e que, em alguns momentos, as doses crescentes de violência e histerismo, sonoro e visual, acabam por anestesiar e alienar o espectador.

Tradicionalmente, nos Estados Unidos, o mercado do cinema de terror é um negócio lucrativo. Com alguma regularidade, filmes desta área ocupam lugares cimeiros no box office e estrelas de primeira grandeza encabeçam os  elencos. Em França, os filmes americanos conseguem receitas de bilheteira consideráveis que contrastam com os valores modestos ou mesmo fracos que atinge a produção local. Para se ter uma ideia, Paranormal Activity 3 (Henry Joost, Ariel Schulman, 2011) conseguiu 807 464 entradas, enquanto Ils obteve 251 302 e À l'intérieur apenas 70 839 – nem mesmo a presença de Béatrice Dalle neste último conseguiu inverter a tendência. No entanto, se a produção local foi recebida com indiferença em França, também é de notar que suscitou uma atenção enorme nos festivais de cinema de terror e da crítica especializada norte-americana. Uma das razões que pode explicar o interesse por estes filmes nos  Estados Unidos, para além da utilização do gore em doses industriais, é a influência que a memória do cinema de terror americano exerce sobre eles. Ao virar de cada cena espreitam, entre muitos outros, os efeitos sonoros e o ambiente bizarro de The Texas Chain Saw Massacre (Tobe Hooper, 1974), a violência gráfica das cenas finais de Carrie (Brian De Palma, 1976) e até mesmo a linha ténue que separa o sobrenatural do real de Jeepers Creepers (Victor Salva, 2001). Não tardou que muitos destes autores fossem convidados a tentar a sua experiência americana, com os donos dos estúdios a procurarem aliar criatividade jovem a rígidos códigos de trabalho, num jogo que parecia difícil de equilibrar. Como seria de esperar, os resultados demonstraram ser desiguais.




















Livide (Alexandre Bustillo, Julien Maury, 2011)


A onda de remakes de clássicos americanos das décadas de 1970 e de 1980 e do J-Horror japonês, em  que a indústria de Hollywood estava empenhada, tornou-se o campo privilegiado de onde saiu a maior parte das propostas de trabalho. Alexandre Aja – apesar de ser francês foi incluído no grupo dos Splat Pack - foi o primeiro a chegar e aquele que obteve maiores sucessos de bilheteira. Foi convidado a fazer uma revisão do clássico de Wes Craven, The Hills Have Eyes (2006). Seguiram-se Mirrors (2008) e Piranha 3D (2010). A David Moreau e Xavier Palud coube The Eye (2008), com Jessica Alba e a partir do filme com o mesmo nome realizado pelos irmãos Pang. As coisas não correram bem e os realizadores deram conta da sua insatisfação, queixando-se da forma como o estúdio controlou a edição, o que determinou que o resultado final estivesse longe do que inicialmente tinha sido desenhado. O poderoso Bob Weinstein convidou dois dos mais talentosos, Alexandre Bustillo e Julien Maury, para ressuscitarem a série Hellraiser, porém as negociações acabaram com uma resposta negativa por parte dos realizadores. Ainda se falou de um novo Halloween com assinatura da dupla mas tal não se confirmou. Regressaram a França para trabalhar em Livide (2011), com meios bem mais modestos e com a liberdade criativa que lhes fora recusada. Ironicamente, já se fala de um remake deste filme, em língua inglesa, feito pelo produtor francês e com outro realizador. No final deste mês inicia-se o lançamento internacional de The Tall Man (também conhecido por The Secret), o primeiro filme de Pascal Laugier falado em inglês. Quanto a Xavier Gens, depois do choque de Frontière(s) seguiram-se a adaptação do jogo vídeo com o mesmo nome, Hitman (2007), e mais recentemente The Divide (2011). A estreia deste último em Portugal tem sido adiada e está novamente agendada, para Setembro. Também nesse mês, durante o MOTELx será apresentado Livide, pela primeira vez em Portugal. Com estas duas apresentações no nosso país, teremos uma boa oportunidade para medir o pulso da produção recente de autores oriundos desta vaga de cinema de terror francês.

Em The Divide, ainda antes de surgirem os créditos e o nome do filme, vemos uma série de explosões nucleares que levam um pequeno grupo de habitantes de um arranha-céus a proteger-se no espaço isolado de uma cave. Pelo desenho urbano, adivinhamos estar em Nova Iorque. A porta da cave fecha-se deixando do lado de fora a poeira nuclear que faz desaparecer o mundo, tal como era conhecido. Durante as próximas duas horas ficamos reduzidos ao espaço da cave e ao que vai sobrando do grupo de sobreviventes. Protegidos, mas impossibilitados de sair e com recursos limitados para assegurar a sobrevivência, criam uma micro-sociedade com traços fascistas, geradora de lutas de poder, em que os mais fortes exploram as angústias dos mais fracos e em que o dominador troca rapidamente de lugar com o dominado. É muito pouco o que é fornecido sobre o passado destas personagens, nem isso seria relevante para explicar a bestialidade que é gerada num mundo sem futuro. São aqueles, como poderiam ser outros, como poderíamos ser nós. Os contornos da narrativa não seriam muito diferentes. De cena em cena, a violência de cada plano sempre em crescendo - em busca do máximo possível de prazer antes do fim, num processo de decadência até à eliminação da ultima réstia de humanidade. Não é comparável com a grandeza de Salò o le Centoventi Giornate di Sodoma (Pier Paolo Pasolini, 1976), mas não deixa de ser uma leitura possível para os dias de hoje do romance do Marquês de Sade em que Pasolini se inspirou. Numa das suas cartas, Sade refere que imaginou tudo o que poderia ser concebido, mas certamente que não teria feito tudo o que concebeu e que, seguramente, jamais o faria. É na cave de The Divide que foram criadas as condições para levar a cabo o variado cardápio das obsessões de Sade: humilhações de todo o tipo, inclusive com fluídos corporais; torturas; mutilações; violações; ou assassínios. Já perto do final, a ordem estabelecida é subvertida, quando a dominação masculina é contestada e derrubada. O filme foi filmado por ordem cronológica, em longas sequências, e os actores foram incentivados a improvisar. Este lado performativo permitiu ir reescrevendo as personagens, o que desencadeou tensões entre os actores durante a rodagem, de tal forma que isso se pressente no filme. Num decór fechado e inexpressivo, que facilmente poderia enfadar, é à câmara e aos actores a quem coube criar uma dinâmica que pudesse anular essa limitação. Por isso, não poderíamos deixar de destacar o bom naipe de actores: entre eles, Rosanna Arquette, Lauren German (a protagonista de Hostel: Part II), Michael Biehn, Michael Eklund e Milo Ventimiglia (o menino bonito da série Heroes). Xavier Gens mantém as qualidades que apreciáramos em Frontière(s) e ainda controla um certo histerismo visual, tornando The Divide um dos melhores filmes pós-apocalípticos que vimos nos últimos tempos. Já que mais não fosse, teríamos de reconhecer a força invulgar de Gens ao impor à industria americana um final tão negro. Numa entrevista recente perguntaram ao realizador se, no caso de acontecer uma explosão nuclear, preferiria morrer imediatamente ou lutar para sobreviver. Vendo The Divide não será difícil adivinhar a resposta.

Estava previsto que Livide fosse filmado na Irlanda e com um orçamento confortável. Questões relacionadas com intromissões na orientação artística do projecto levaram a que a rodagem ocorresse na Bretanha francesa e com um orçamento bem mais modesto, inferior ao de À l'intérieur. As paisagens naturais (lembrando os filmes da Hammer) e as lendas dessa região servem de inspiração a uma história de vampiros, mas sem os alhos, os crucifixos, os reflexos no espelho e todos os outros clichés do género. Durante um estágio de cuidados médicos ao domicílio, Lucie (Chloé Coulloud) ouve uma história relacionada com um tesouro escondido numa mansão decrépita e decide procurá-lo, juntamente com dois amigos (Félix Moati e Jérémy Kapone). A única informação que têm da casa é que a dona (Marie-Claude Pietragalla), uma antiga professora de dança, vive aí sozinha, acamada e em coma. Béatrice Dalle regressa num pequeno papel, como mãe de Lucie. Ao contrário de alguma informação que corre, nem Livide é um giallo, nem Alexandre Bustillo e Julien Maury são, até ver, qualquer tipo de herdeiros de Dário Argento. Até porque o filme recusa, nitidamente, ceder a uma tentativa de categorização. Começa em modo de retrato social, segue para o giallo – via Chi l'ha vista morire? (Aldo Lado, 1972) -, continua em jeito de slasher, vira para uma história de vampiros, volta ao giallo – via Suspiria (Dário Argento, 1976) - e termina como conto de fadas. A mistura de géneros e referências, mantendo uma saudável narrativa aberta e com algumas pontas soltas, contrasta com o minimalismo de À l'intérieur, que se tornava demasiado explicativo – de resto, um problema que era partilhado pela maior parte dos outros filmes dessa vaga. Temos menos gore (o suficiente) e mais poesia. Outro ponto a reter é o tratamento da luz, com inspiração no chiaroscuro do pintor Georges de La Tour – para as cenas de escuridão – e nas pinturas de bailarinas de Edgar Degas – para as cenas com luz natural. Com a sua estreia mundial no festival TIFF 2011, o filme teve uma recepção bastante fria, talvez causada pelas expectativas, no nosso entender exageradamente elevadas, que foram colocadas sobre a dupla de realizadores. Tal não impediu que a Dimension Films tivesse assegurado a sua distribuição para o mercado norte-americano – sem ter adiantado até hoje qualquer detalhe sobre o lançamento. Esta companhia já tinha sido responsável pela tentativa de envolvimento dos realizadores em projectos made in USA e também pela distribuição de À l'intérieur nesse mercado. À l'intérieur foi recebido como um verdadeiro acontecimento. Livide é o desejável copo de agua fria direccionado ao buzz que se criou. Uma boa razão para, em Setembro, ir ao MOTELx. //

Opening: Cannibal Holocaust


Em Hostel: Part II (Eli Roth, 2007), numa das salas de tortura, um homem com ar respeitável corta um pedaço da perna de um rapaz e dirige-se para um canto, dominado por uma grande pintura e uma mesa iluminada harmoniosamente por um candeeiro, onde refastelado degusta o insólito manjar. A música de fundo é uma ária da ópera Carmen de Georges Bizet. A intérprete, acompanhada pelo coro, canta o seguinte:

L'amour est enfant de Bohême,
il n'a jamais, jamais connu de loi;
si tu ne m'aimes pas, je t'aime
si je t'aime, prends garde à toi! (Prends garde à toi!)
Si tu ne m’aimes pas,
Si tu ne m’aimes pas, je t’aime! (Prends garde à toi!)
Mais, si je t’aime,
Si je t’aime, prends garde à toi!

Sabemos como podem ser ínvios os caminhos do amor. E os do cinema? O senhor que está sentado à mesa é Ruggero Deodato, realizador italiano que em 1980 lançou o filme-choque Cannibal Holocaust. Para proceder às filmagens, levou os actores - estudantes inexperientes do famoso Actors Studio de Nova Iorque; um protagonista da era dourada do porno, cujo maior feito até aí tinha sido participar no clássico Debbie Does Dallas (Robert Kerman aka Richard Bolla); um futuro deputado italiano (Luca Barbareschi); e outros quase desconhecidos - para a fronteira entre a Colômbia e o Brasil e pô-los a contracenar com tribos locais num excessivo festim de sexo e violência, onde nem os animais são poupados. Porque é real toda a violência que é dirigida aos animais, encontrou-se o grande motivo polémico que envolve o filme. Mas não o único. Ambientalistas e grupos de defesa dos direitos dos animais, das mulheres ou dos nativos da Amazónia impossibilitariam que um filme destes fosse produzido e distribuído nos dias de hoje. A crueldade com os animais é tão desmedida e reforça tanto toda a outra violência que as autoridades italianas pensaram tratar-se de um snuff film e obrigaram Deodato a levar actores a tribunal para comprovar que não teriam morrido. Mas tudo não  passava de uma estratégia de marketing, pois os actores teriam assinado contractos que os obrigavam a permanecer longe da comunicação social durante um longo período de tempo. Cannibal Holocaust anda em torno de uma equipa de filmagens que é morta por uma tribo amazónica. Pelo título do filme, talvez pensemos que os elementos da equipa encarnam o papel de vítimas, mas não é isso que acontece, pois utilizam métodos muito questionáveis para obter as imagens. Ainda antes de sermos excomungados, atrever-nos-íamos a dizer que Cannibal Holocaust é um belo filme. Para além da violência gráfica, para a história ficou a forma como abriu caminho para os filmes do tipo found footage - lembram-se de The Blair Witch Project (Daniel Myrick, Eduardo Sánchez, 1999) ? - e a música de Riz Ortolani. Os sintetizadores tensos, imagem do cinema de terror italiano da época, marcam os momentos mais fortes do filme, mas é com doçura e melancolia que abrimos a porta para o "inferno verde". Si tu ne m’aimes pas, je t’aime! (Prends garde à toi!)//


Cannibal Holocaust (Ruggero Deodato, 1980)

What's up, doc?


Hostel (Eli Roth, 2005)


Durante a década de 2000, Eli Roth encabeçou um grupo de cineastas, ao qual foi dado o nome de Splat Pack, que lançou um conjunto de filmes do género splatter, mostrando imagens de uma violência extrema e nudez pouco frequentes para o contexto em que eram produzidos e distribuídos. Se anteriores trabalhos neste campo, principalmente nas décadas de 1970 e de 1980, eram criados em contextos independentes e relegados para sessões tardias ou circuitos de exibição específicos, o grupo dos Splat Pack produzia os filmes dentro de poderosos estúdios e utilizava as grandes cadeias de distribuição para chegar ao maior número de espectadores. Os orçamentos de produção destes últimos também eram, comparativamente, muito superiores. O segundo filme de Eli Roth, Hostel (2005), chegou ao primeiro lugar do box office norte-americano, devolvendo ao estúdio que o produziu consideráveis lucros. O grande sucesso comercial destes filmes pôs os cabelos em pé a muitos críticos de cinema norte-americanos que não se contiveram na linguagem que utilizaram para descrever o fenómeno. Os mais conservadores consideraram que os realizadores eram doentes e que os espectadores que se divertiam com os filmes não passavam de um bando de depravados, sádicos e masoquistas. Uma América inteira a precisar de uma longa sessão no divã do psicanalista, portanto. Torture porn foi o termo que o critico David Edelstein utilizou para descrever este grupo de filmes. O título do artigo de Edelstein era, esclarecidamente, Now Playing at Your Local Multiplex: Torture Porn. Why has America gone nuts for blood, guts, and sadism?. O estúdio Lionsgate, onde foram produzidos muitos destes filmes, ficou, definitivamente, denominado como a casa do torture porn.

Eli Roth, filho de uma artista e de um psiquiatra, passara a infância e a adolescência a devorar filmes de terror. No cinema local era muito conhecido pelos funcionários, não só pela assiduidade e tenra idade - com oito anos viu Alien (Ridley Scott, 1979), acompanhado pelos pais - mas também pela frequência com que vomitava durante as sessões. Consta que, a sua persistência em continuar a ver os filmes, levava a que o fizesse mesmo dentro da sala. Num desses dias, decidiu que haveria de ser realizador de cinema. Acabados os estudos, escreveu, em parceria com um amigo, e realizou o seu primeiro filme, o óptimo Cabin Fever (2002), que se tornou um grande sucesso comercial e o levou para o circulo de protegidos de Quentin Tarantino. Este afirmou publicamente que Roth era o futuro do cinema de terror e produziu os seus dois próximos filmes, Hostel (2005) e Hostel: Part II (2007). Hostel é a obra maior do torture porn e um dos filmes de terror mais importantes da década de 2000. Aos que acusavam o torture porn de primário e vazio de crítica social, Roth respondia com um filme fortemente político que dirigia a uma América fascinada com a violência e que a obrigava a olhar de frente para os seus fantasmas. O filme lança uma crítica feroz ao capitalismo e à globalização, mapeando a circulação da violência e do sexo, num quadro em que todas as necessidades tendem a ser mercantilizadas através do uso de complexas redes transnacionais. A produção do filme coincidiu com o rebentar de dois grandes escândalos relacionados com o uso da tortura por parte das forças armadas e agências militares norte-americanas.  Um deles estava relacionado com a divulgação de imagens captadas na prisão iraquiana de Abu Ghraib, onde soldados norte-americanos eram mostrados a torturar violentamente prisioneiros, muitos deles mantidos ali sem acusação e outros sem qualquer culpa nas alegações que lhes eram feitas. O outro escândalo estava associado à CIA, sendo a agência acusada de ter utilizado várias bases na Europa de Leste para interrogar e torturar prisioneiros acusados de terrorismo. Ali, longe do controle da lei americana, eram utilizados procedimentos muito pouco convencionais e o escândalo propagou-se também a outros países, inclusive Portugal, que teriam autorizado a utilização de bases locais para o transporte dos hipotéticos terroristas. É precisamente nessa nova e misteriosa Europa, renascida do Bloco de Leste, que Roth situa a sua narrativa e onde os americanos, por momentos, largam a posição do carrasco e se sentam na cadeira da vítima. Em determinado ponto  do filme, uma das personagens, no meio de uma rixa num bar, grita: I'm american! I have rights!


Imagem de torturas na prisão de Abu Ghraib, © Associated Press


Em Hostel encontramos dois jovens turistas americanos e um islandês a viajarem pela Europa em busca de sexo e drogas. Enfadados com o que encontram na velha Europa (Holanda), dirigem-se para uma outra, nova e sedutora (Eslováquia), onde as raparigas têm corpos de capa de revista e não pedem licença para se despir. Com o inferno logo ao virar da esquina, são apanhados numa rede dirigida a clientes internacionais que pagam somas avultadas para torturar e matar jovens incautos. Uma enorme instalação industrial desactivada é utilizada como base para as operações e onde as vítimas são preparadas para se adequarem à fantasia do torturador. Este paga de acordo com a nacionalidade do jovem e, evidentemente, os americanos estão no topo da tabela de preços. Numa escolha feliz, um carrasco é representado por, nem mais nem menos que, o realizador japonês Takashi Miike, outro que também foi colocado na prateleira do torture porn. Em Hostel: Part II os rapazes dão lugar a três raparigas, norte-americanas, que também na Europa, fazem um percurso semelhante e vão parar ao mesmo local. À sua chegada é lançado um secreto leilão internacional, tipo eBay, muito disputado, para escolher os contemplados com a execução das torturas. Um dos arcos narrativos acompanha dois clientes ricos que fazem parte da rede e que levantam o pano relativamente às suas vidas e motivações. Há uma sequência que se replica do primeiro para o segundo filme e que resulta numa homenagem e agradecimento a Quentin Tarantino, também dono de um cinema intransigente, que não se quer refém das normas estabelecidas. No momento da entrada dos jovens na recepção do hotel onde ficam hospedados, na televisão passa Pulp Fiction (1994), dobrado na língua local. Tal como Tarantino, Roth conhece bem e cita os clássicos italianos e japoneses ditos menores, ao arrepio das convenções do cinema que se celebra como sério, dos críticos e dos teóricos.

Dias antes de Hostel: Part II ser lançado, uma cópia da versão final foi parar à internet e ao mercado de rua, o que levou a que, no dia em que estreou, já tivessem sido contabilizados cerca de dois milhões de downloads. Assim, os lucros do filme ficaram abaixo do esperado e em alguns países acabou por nem ser lançado. Relativamente a este facto, na Deadline, o editor Nikki Finke referia: Lionsgate deserves to feel the effects of piracy (not to mention the wrath of mankind) for distributing such a disgusting film. I always support a moviemaker’s right to make whatever creative project he wants. But when businesses profit off uber-violence, the marketplace shouldn’t reward them. Às críticas que lhe eram dirigidas, sobre o excesso de sangue nos seus filmes, Eli Roth respondia, em entrevista à mesma Deadline: Hopefully we’ll get to a point where there are absolutely no restrictions on any kind of violence in movies. I’d love to see us get to a point where you can go to theaters and see movies unrated and that people know its not real violence. Hoje, sabemos que esse momento ainda não chegou, mas desde o lançamento de Hostel: Part II, o cinema extremo deu um enorme passo em frente com uma nova vaga de filmes independentes protagonizada por The Human Centipede (First Sequence) (Tom Six, 2009), The Human Centipede II (Full Sequence) (Tom Six, 2011) e A Serbian Film (Srdjan Spasojevic, 2010), mas isso é uma conversa para outro dia.

Com a passagem da década, declinava o sucesso comercial do torture porn produzido pelos grandes estúdios americanos, a favor de um cinema de terror atmosférico ou do tipo found footage - Paranormal Activity 1, 2 e 3 (Oren Peli, 2007; Tod Williams, 2010; Henry Joost, Ariel Schulman, 2011) e The Last Exorcism (Daniel Stamm, 2010, também produzido por Eli Roth). Durante vários anos falou-se de uma terceira parte para Hostel, mas Eli Roth cedo se demarcou do projecto e desejou sorte ao senhor que se seguia. Em Dezembro de 2011, a Lionsgate lançou finalmente nos Estados Unidos a terceira parte da série, Hostel: Part III (Scott Spiegel), que não passou pelas salas e foi parar directamente ao mercado do DVD. A falta de empenhamento do estúdio na distribuição do filme percebe-se, pois parece claramente dirigido ao público doméstico e aos fãs da série. Os valores de produção são bastante modestos, o que é bem visivel nos exteriores e nas cenas mais violentas. A acção passa da Europa de Leste para Las Vegas, onde um grupo de rapazes participa numa festa de despedida de solteiro. A escolha da cidade do pecado para localizar este Hostel poderia ter sido utilizada para criar novos significados mas tal resulta apenas no esvaziar do conteúdo politico. Se alguns twists dramáticos são divertidos, também se revelam de alcance limitado para quem não tenha visto os anteriores filmes, pois tentam jogar com os conhecimentos que o espectador tem da série.  Aguenta-se relativamente bem durante a primeira parte, onde parece que foram concentrados todos os recursos e energia. Na segunda metade é o disparate total, nomeadamente no que se refere às (in)capacidades de representação do elenco. Hostel: Part III mostra bem que, mesmo para ser scream queen (ou king), é preciso ter fibra.  Quem tiver interesse e estomago, não deve perder aqui o seu tempo, mas antes procurar os dois tomos do soberbo grand guignol de Eli Roth, frescos como no primeiro dia. //