Do Androids Dream of Electric Sheep?





Prometheus (Ridley Scott, 2012), anúncio de imprensa ao modelo David 8



Fundada pelo milionário Peter Weyland, a Weyland Industries é uma poderosa companhia global que tem como lema Buildind Better Worlds. A aposta da empresa recai sobre áreas relacionadas com a tecnologia e a ciência e os seus técnicos descobrem, exploram e expandem aquilo que está para além dos nossos limites. Peter Weyland é um indiano natural de Bombaim, cujas extraordinárias capacidades e uma grande ambição permitiram-lhe erguer a empresa, atribuindo-lhe uma posição estratégica na indústria mundial e tornando-a responsável pelo lançamento da primeira missão privada de carácter industrial destinada a estabelecer as bases da exploração de planetas para além da Terra.

Outra das grandes revoluções tecnológicas da Weyland Industries foram os andróides da série David. O nome foi escolhido pelo próprio Peter Weyland, que inicialmente tinha pensado nele para o dar a um filho. O modelo actual deste andróide é o David  8, surgindo como resultado da oitava geração de progresso cibernético. O seu avançado revestimento de poliuretano replica as propriedades biológicas da pele humana para a exacta textura, flexibilidade e resistência, reagindo de imediato aos estímulos exteriores e mostrando sentimentos de irritação, confiança, desgosto, alegria, tristeza ou mesmo certeza. Mas não nos iludamos, tratam-se apenas de reacções cutâneas que não derivam de qualquer contrapartida interior. Servem apenas para melhorar as suas capacidades de interacção e sustentar a confiança dos humanos que com ele se relacionam. As suas especificações técnicas notam que pode gravar, processar, entender e expressar muitas emoções complexas, mas que nunca conhecerá verdadeiros sentimentos humanos, como o sofrimento, o amor e a compaixão. Quando as situações o exigem, ainda pode ser programado para uma função neutral onde desactiva as respostas cutâneas e é apenas guiado por directrizes racionais. Com esta descrição, tudo seria perfeito para o dedicado David, e também para nós, não se desse o caso de viver apenas na imaginação humana e fazer parte de um filme que não o merece, Prometheus (2012) de Ridley Scott.

O filme foi rodado dentro do maior secretismo, com o pessoal técnico e os actores a serem proibidos de revelar publicamente pormenores do guião ou das filmagens. Muito se especulou sobre a sua produção e o que estaria a acontecer em frente às câmaras, mas era apenas certo que se tratava de um filme que se inseria dentro da franquia Alien e que a sua acção decorria antes do primeiro filme da série, que o mesmo realizador assinara em 1979. A expectativa dos fãs crescia e nos primeiros meses deste ano começou uma, sofisticada e muito eficaz, campanha de divulgação do filme. Um dos seus elementos mais surpreendentes foi aquele que rodeou o modelo David 8. No Wall Street Journal, o estúdio produtor colocou um anúncio de página inteira  que pretendia "vender" David. Tal como podemos ler no anúncio, manufactured by Weyland, powered by Verizon. Esta última, uma empresa norte-americana bem real. Ao mesmo tempo surgia um clipe onde o próprio David se apresentava ao mundo. E assim, Prometheus tornou-se um dos filmes mais aguardados do ano.



Prometheus (2012, Ridley Scott), Introducing the David 8



Prometheus é o nome de uma nave espacial que parte da Terra em direcção ao planeta LV-223 em busca das origens da vida humana, numa viagem financiada pela Weyland Industries e com o alto patrocínio de Peter Weyland. A chegada ao planeta proporciona o encontro com criaturas alienígenas (chamadas engenheiros), que se crê serem os responsáveis pela criação dos terráqueos mas que possuem uma ameaça (algo parecido com os aliens nossos conhecidos) que pode pôr em causa a existência da vida na Terra. A linha narrativa mais interessante do filme é aquela que se refere à agenda de David, que é bem diferente da da restante tripulação. Se nos filmes anteriores  da série o andróide acaba por ter um papel determinante na narrativa mas nunca ofusca a presença da tenente Ripley (Sigourney Weaver), em Prometheus ele rouba as cenas a todas as outras personagens. Não só pelo papel que lhe cabe no desenrolar dos acontecimentos, mas também pela superior qualidade da interpretação de Michael Fassbender, que imprime a David uma complexidade ausente em todas as outras personagens.

O actor afirmou que, na preparação do seu papel, não lhe interessou estudar os anteriores andróides da série, mas sim os replicantes de Blade Runner (1982, também de Ridley Scott), David Bowie em The Man Who Fell to Earth (Nicolas Roeg, 1976), Peter O'Toole em Lawrence of Arabia (David Lean, 1962),  Dirk Bogarde em The Servant (Joseph Losey, 1963), a voz de HAL 9000 de 2001: A Space Odyssey (Stanley Kubrick, 1968) e o andar do atleta olímpico Greg Louganis. O fascínio por Lawrence of Arabia estende-se também à personagem que o actor interpreta. Durante a viagem até ao planeta distante, enquanto a tripulação humana repousa no hipersono, David vê o filme, treina as falas de T. E. Lawrence (Peter O'Toole) e copia o corte e a cor do seu cabelo. É o melhor momento de Prometheus, com a nave deserta e David fascinado, a aprender e a matar o tempo. A entrada em cena das outras personagens, revela um David curioso relativamente aos humanos, mas que os considera inferiores e incapazes de lhe mostrarem gratidão pelas suas acções.

Pouco há em Prometheus, que possa ligá-lo aos restantes filmes da série. Continuamos dentro de conflitos entre pais e filhos - neste caso entre os engenheiros e os humanos e entre os humanos e David -, mas os belos e mortíferos aliens passam para segundo plano. Na verdade, quase que não aparecem. Os ambientes negros, o viscoso e o vapor foram substituídos por planos cheios de luz onde vemos tudo, inclusive as pinceladas de efeitos digitais, presentes em quase todos os planos. Nas notas de produção do filme, lemos que Ridley Scott andou a viajar por meio mundo para captar ambientes naturais. Se assim foi, não se cansou de adicionar CGI (computer-generated imagery) a muitos dos planos, parecendo que todos os ambientes de Prometheus, inclusive os exteriores, foram desenhados em laboratório. No entanto, admitimos que algumas das nossas reservas se possam diluir na versão em 3D (não foi essa a versão que vimos). Se, com Alien (1979), Ridley Scott abriu uma das linhagens mais excitantes  da história do cinema - na nossa opinião, não o melhor filme pois esse lugar está reservado para Aliens (1986) de James Cameron -, com Prometheus o realizador arrisca-se a ter feito o pior filme da série. Quando a melhor cena de acção acontece a meio da sessão - numa mesa cirúrgica automatizada -, até ao fim, apenas nos resta seguir David. Afinal, a única razão para ver Prometheus//

Triad God e o Fenómeno das Mixtapes



Lo Por, Triad God, 2012


Do pouco que se conhece do projecto musical Triad God, sabe-se que é composto pelo músico Vinh Ngan, nascido no Vietname, criado em Hong Kong e a residir actualmente no sul de Londres. O projecto assinou recentemente pela Hippos In Tanks, editora norte-americana que conta com registos de Hype Williams, James Ferraro e Laurel Halo. A antecipar um longa duração, que estará apenas disponível em 2013, Triad God lançou a mixtape NXB, que pode ser encontrada em formato de dowload gratuito e se apresenta, desde já, como um dos momentos musicais do ano. Para desespero das grandes editoras e felicidade dos melómanos, os músicos continuam a explorar formas menos convencionais para disponibilizar a sua produção. Um dos formatos que tem revelado verdadeiras pérolas é a mixtape. Quase sempre oferecida gratuitamente, permite aos músicos libertarem-se dos constrangimentos da indústria musical e fugirem ao controlo apertado que recai sobre os direitos de autor dos samples, que muitas vezes utilizam.



House Of Balloons / Glass Table Girls, The Weeknd, 2011


Um dos casos paradigmáticos é o grupo de produtores reunido sob o nome de The Weeknd. Tirando as colaborações com outros músicos, toda a sua restante produção foi disponibilizada exclusivamente em três notáveis mixtapes: House of Balloons, Thursday e Echoes of Silence, todas de 2011. Seguramente, House of Balloons é um dos registos musicais mais estimulantes do ano passado e mesmo algumas publicações e sites mainstream colocaram-no no topo das suas listas de final de ano, bem à frente de outros títulos editados em formatos convencionais. Os samples utilizados são mais ou menos evidentes. No caso da faixa título, a base é o fundo musical do tema Happy House de Siouxsie and the Banshees, com a voz de Siouxsie Sioux a ser substituída pela de Abel Tesfaye, o líder do grupo. The Weeknd é um produto criado e massificado pela internet, em que os músicos envolvidos preferem refugiar-se na sombra e não ceder às tentações da solicitação mediática. O resultado apresentado nas três mixtapes é uma mistura desbragada de amor, sexo e drogas e uma desconstrução do R&B e da soul, apoiada por elementos contemporâneos de dubstep. Num registo menos R&B, mas com resultados igualmente brilhantes, podem ser encontradas na internet duas mixtapes gratuitas do projecto Clams Casino: Instrumental Mixtape (2011) e Instrumental Mixtape 2 (2012).



Happy House, Siouxsie and the Banshees, 1980


A mixtape NXB de Triad God foi lançada em Maio passado e pode ser acedida no link abaixo. Há algo na sua música que nos remete para alguma produção downtempo de meados da década de 1990, nomeadamente para o grupo japonês Silent Poets. No entanto, Triad God recorre também ao ruído e a instrumentos tradicionais orientais, o que resulta num som menos aveludado e mais experimental. O facto de ser falado/cantado maioritariamente em cantonês, se bem que o torna quase imperscrutável, isso não deixa de nos atrair e levar a concentrar, não no significado, mas no som das palavras. Durante cerca de trinta minutos, imaginamo-nos a ver In the Mood for Love  (Wong Kar-wai, 2000), mas sem legendas e com o Tony Leung a soltar as palavras em formato rap. É certo que a língua não ajuda a decifrar qual a mood de Vinh Ngan. Como pistas ficam apenas algumas músicas com o nome em inglês: Bruce Lee's Funeral ou I Never Told You. Ou uma pequena parte de uma letra: I never told you, I wanna hold you. A meio caminho entre a tradição e a modernidade, NXB não se refugia no exótico meloso, revelando novos pormenores a cada audição e baralhando-nos relativamente à sua posição geográfica. Misteriosa e melancólica, é a banda sonora ideal para ouvir num fim de tarde dos meses que se avizinham. Uma brisa serena, e a espaços inquietante, para este Verão.

NXB, Triad God, mixtape

Opening: Sleepy Hollow



Sleepy Hollow (Tim Burton, 1999), imagem da rodagem



Não é o fracasso de Dark Shadows que mancha a obra imensa de Tim Burton. Mas, temos de admitir que, ultimamente, tem andado longe da mestria que lhe conhecíamos. Sem contar com as animações, é necessário recuar até 1999 para lhe encontrar um grande filme e a sua última obra-prima. Falamos, é claro, de Sleepy Hollow (A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça). Na sua terceira colaboração com Tim Burton, Johnny Depp veste a pele de Ichabod Crane, um investigador policial que vê o seu racionalismo desafiado, quando é enviado para Sleepy Hollow, para desvendar o mistério de várias mortes causadas por um cavaleiro sobrenatural que rouba a cabeça das suas vítimas. Os fabulosos ambientes do filme foram criados artesanalmente em estúdio, sem a tentação da utilização do tratamento digital, criando uma fantasia que tanto vai beber aos clássicos da Hammer, como a algum Mario Bava. Num comentário publicado na revista Cahiers du Cinema, Burton afirmou que na preparação do filme teve em conta o trabalho dos realizadores de cinema de terror e de série Z, que, muitas vezes, utilizavam os mesmos cenários, destruindo-os e reconstruindo-os, com a intenção de os conduzir a uma reciclagem que tinha tanto de artesanal como de criativa. Sigamos o link abaixo, para rever os créditos iniciais do filme e espreitar os seus cenários. //