Triad God e o Fenómeno das Mixtapes



Lo Por, Triad God, 2012


Do pouco que se conhece do projecto musical Triad God, sabe-se que é composto pelo músico Vinh Ngan, nascido no Vietname, criado em Hong Kong e a residir actualmente no sul de Londres. O projecto assinou recentemente pela Hippos In Tanks, editora norte-americana que conta com registos de Hype Williams, James Ferraro e Laurel Halo. A antecipar um longa duração, que estará apenas disponível em 2013, Triad God lançou a mixtape NXB, que pode ser encontrada em formato de dowload gratuito e se apresenta, desde já, como um dos momentos musicais do ano. Para desespero das grandes editoras e felicidade dos melómanos, os músicos continuam a explorar formas menos convencionais para disponibilizar a sua produção. Um dos formatos que tem revelado verdadeiras pérolas é a mixtape. Quase sempre oferecida gratuitamente, permite aos músicos libertarem-se dos constrangimentos da indústria musical e fugirem ao controlo apertado que recai sobre os direitos de autor dos samples, que muitas vezes utilizam.



House Of Balloons / Glass Table Girls, The Weeknd, 2011


Um dos casos paradigmáticos é o grupo de produtores reunido sob o nome de The Weeknd. Tirando as colaborações com outros músicos, toda a sua restante produção foi disponibilizada exclusivamente em três notáveis mixtapes: House of Balloons, Thursday e Echoes of Silence, todas de 2011. Seguramente, House of Balloons é um dos registos musicais mais estimulantes do ano passado e mesmo algumas publicações e sites mainstream colocaram-no no topo das suas listas de final de ano, bem à frente de outros títulos editados em formatos convencionais. Os samples utilizados são mais ou menos evidentes. No caso da faixa título, a base é o fundo musical do tema Happy House de Siouxsie and the Banshees, com a voz de Siouxsie Sioux a ser substituída pela de Abel Tesfaye, o líder do grupo. The Weeknd é um produto criado e massificado pela internet, em que os músicos envolvidos preferem refugiar-se na sombra e não ceder às tentações da solicitação mediática. O resultado apresentado nas três mixtapes é uma mistura desbragada de amor, sexo e drogas e uma desconstrução do R&B e da soul, apoiada por elementos contemporâneos de dubstep. Num registo menos R&B, mas com resultados igualmente brilhantes, podem ser encontradas na internet duas mixtapes gratuitas do projecto Clams Casino: Instrumental Mixtape (2011) e Instrumental Mixtape 2 (2012).



Happy House, Siouxsie and the Banshees, 1980


A mixtape NXB de Triad God foi lançada em Maio passado e pode ser acedida no link abaixo. Há algo na sua música que nos remete para alguma produção downtempo de meados da década de 1990, nomeadamente para o grupo japonês Silent Poets. No entanto, Triad God recorre também ao ruído e a instrumentos tradicionais orientais, o que resulta num som menos aveludado e mais experimental. O facto de ser falado/cantado maioritariamente em cantonês, se bem que o torna quase imperscrutável, isso não deixa de nos atrair e levar a concentrar, não no significado, mas no som das palavras. Durante cerca de trinta minutos, imaginamo-nos a ver In the Mood for Love  (Wong Kar-wai, 2000), mas sem legendas e com o Tony Leung a soltar as palavras em formato rap. É certo que a língua não ajuda a decifrar qual a mood de Vinh Ngan. Como pistas ficam apenas algumas músicas com o nome em inglês: Bruce Lee's Funeral ou I Never Told You. Ou uma pequena parte de uma letra: I never told you, I wanna hold you. A meio caminho entre a tradição e a modernidade, NXB não se refugia no exótico meloso, revelando novos pormenores a cada audição e baralhando-nos relativamente à sua posição geográfica. Misteriosa e melancólica, é a banda sonora ideal para ouvir num fim de tarde dos meses que se avizinham. Uma brisa serena, e a espaços inquietante, para este Verão.

NXB, Triad God, mixtape

Opening: Sleepy Hollow



Sleepy Hollow (Tim Burton, 1999), imagem da rodagem



Não é o fracasso de Dark Shadows que mancha a obra imensa de Tim Burton. Mas, temos de admitir que, ultimamente, tem andado longe da mestria que lhe conhecíamos. Sem contar com as animações, é necessário recuar até 1999 para lhe encontrar um grande filme e a sua última obra-prima. Falamos, é claro, de Sleepy Hollow (A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça). Na sua terceira colaboração com Tim Burton, Johnny Depp veste a pele de Ichabod Crane, um investigador policial que vê o seu racionalismo desafiado, quando é enviado para Sleepy Hollow, para desvendar o mistério de várias mortes causadas por um cavaleiro sobrenatural que rouba a cabeça das suas vítimas. Os fabulosos ambientes do filme foram criados artesanalmente em estúdio, sem a tentação da utilização do tratamento digital, criando uma fantasia que tanto vai beber aos clássicos da Hammer, como a algum Mario Bava. Num comentário publicado na revista Cahiers du Cinema, Burton afirmou que na preparação do filme teve em conta o trabalho dos realizadores de cinema de terror e de série Z, que, muitas vezes, utilizavam os mesmos cenários, destruindo-os e reconstruindo-os, com a intenção de os conduzir a uma reciclagem que tinha tanto de artesanal como de criativa. Sigamos o link abaixo, para rever os créditos iniciais do filme e espreitar os seus cenários. //

Rich Kid on Acid



Dark Shadows (Sombras da Escuridão, Tim Burton, 2012)


Dark Shadows (Sombras da Escuridão, 2012), de Tim Burton, adapta a série televisiva homónima, criada por Dan Curtis e emitida pela cadeia ABC, entre 1966 e 1971. No centro do filme está o confronto entre a bruxa Angelique Bouchard (Eva Green) e o vampiro Barnabas Collins (Johnny Depp), a personagem mais popular da série. Angelique é apaixonada por Barnabas e, quando descobre o seu interesse por outra mulher, condena-o à condição de vampiro e enterra-o num caixão, que se tornará a sua prisão, durante cerca de duas centenas de anos. Acidentalmente, os funcionários de uma empresa de construção libertam Barnabas, que descobre que Angelique ainda é viva e comanda os destinos da cidade. Assim, Barnabas terá de enfrentar a sua eterna inimiga, e apaixonada, enquanto lida com a  decadência da familia Collins, longe do fulgor económico de outros tempos.

Já tivemos a oportunidade de declarar o nosso amor pela série original de Dan Curtis. Para quem está familiarizado com ela, entrar em Dark Shadows, de Tim Burton, pode ser um choque. O tamanho do écran de cinema, a escala dos cenários, os efeitos especiais digitais e as cores vibrantes têm muito pouco a ver com a austeridade e a teatralidade da série de Curtis. Nunca nos pareceu tarefa fácil transformar a longa série original numa hora e meia de filme, mas Tim Burton surgiu como a escolha acertada para lidar com a sua mistura equilibrada de terror, gótico e camp. Surpreendentemente,  o resultado que o realizador apresenta, no filme que agora estreou, é muito desequilibrado e poderá não agradar, nem aos fãs da série (e são muitos), nem ao restante público.

Tim Burton parece decidido a concentrar no filme uma boa parte das personagens e da história da série original,  pelo que abre logo com um dispensável prólogo que, em versão fast forward, mostra os acontecimentos que levaram à condenação de Barnabas. Ao som de Nights in White Satin, dos The Moody Blues, entramos em 1972, com a chegada de uma jovem mulher, Victoria Winters (Bella Heathcote), à cidade de Collinsport, onde ficará encarregue da educação de um rapaz da família Collins.  Apesar de ter sido lançado, inicialmente,  em 1967, o tema musical dos The Moody Blues foi  um enorme sucesso nos Estados Unidos em 1972, o ano em que foi reeditado e em que também decorre a acção do filme. Inesperadamente, a lamechice do tema adquire aqui uma certa graça, talvez pela combinação com um negrume que, ainda que erradamente, antecipamos.

O regresso de Barnabas Collins a Collinsport marca um dos poucos momentos relevantes do filme. Depois de ter sugado os operários que trabalhavam no terreno onde estava sepultado, caminha pela cidade em direcção à mansão da família, com a face e a roupa a escorrerem sangue, denotando uma violência e falta de pudor, que se encontram ausentes no resto do filme. É o único sinal de nevoeiro que desce sobre um Dark Shadows demasiado solarengo.  O confronto de Barnabas Collins, "adormecido" durante duzentos anos, com a cultura da época era suposto divertir mas apenas provoca enfado. Quantas vezes é que já vimos isto? Ainda por cima, temperado por um tipo de graçola que parece dirigida a um público de doze anos. É de Tim Burton de quem falamos e de quem esperaríamos algum requinte e delicadeza. Ainda nos lembramos de Edward Scissorhands (Eduardo Mãos de Tesoura, 1990), da descida de Edward ao bairro de classe média e do seu desajustamento em relação à cultura suburbana que aquela sociedade representa. Alguém falou em sensibilidade ou subtileza? Algo que falta a Dark Shadows.

Tim Burton despacha um conjunto de excelentes actores secundários, sem que haja qualquer cuidado no trabalho das suas personagens. São apenas adereços no confronto entre os bonecos de Johnny Depp e Eva Green. Se eram muitas as saudades que tínhamos de Michelle Pfeiffer, saímos da sala com pena de mais esta oportunidade perdida.

Com uma composição musical pouco inspirada, efeitos digitais bocejantes, um verdadeiro festival de cores e todas as mordomias que um grande estúdio pode proporcionar, eis a remix de Dark Shadows, versão "rich kid on acid", que Tim Burton nos apresenta. Perto do final, quando Barnabas olha para o coração de Angelique, ainda esperamos por algo que nos surpreenda e salve o filme. Que Barnabas pegue no coração e o devore. Mas, nem isso. Dark Shadows é, para já, o pior filme do ano. Não porque seja realmente mau. Há, por aí, filmes muito piores. Mas, com esses, nem sequer perdemos tempo. //

veja aqui a nossa apresentação da série televisiva original