A Morte Melancólica do Rapaz Ostra & Outras Estórias


Durante 2012, vamos ouvir falar muito de Tim Burton. No próximo dia 10, será lançado em Portugal o seu novo filme, o muito esperado Dark Shadows. Em Junho, surgirá uma produção sua, Abraham Lincoln: Vampire Hunter (Timur Bekmambetov). Finalmente, em Outubro, será a vez de Frankenweenie, uma nova animação feita a partir da curta com o mesmo nome que realizou em 1984. Para acompanhar toda esta actividade, o there's something out there irá dedicar um pequeno destaque à obra de Tim Burton. Para abrir, repescamos a publicação A Morte Melancólica do Rapaz Ostra & Outras Estórias, que junta texto e ilustração da sua autoria. A versão original data de 1997 e em 2000 surgiu uma bela edição portuguesa lançada pela Errata, uma pequena editora já extinta. Segundo as notas da editora, "nas suas fantasias cinematográficas, Tim Burton desvenda um universo de estranhas criaturas, aliando o onírico ao macabro. Agora em livro, o autor cria um elenco de enternecedoras crianças desajustadas que se esforçam por ser amadas e aceites nos seus mundos terrivelmente cruéis. A sinistra comicidade das ilustrações e do texto evoca a triste sorte destas personagens, heróis canhestros e ansiosos, nos quais se projectam os nossos próprios sentimentos de alienação, fazendo-nos rir de uma infância que julgamos ter deixado para trás". Esta edição encontra-se esgotada, mas no mercado está disponível uma outra da responsabilidade da Antígona. Como amostra, vamos espreitar a pequena história Palitinho e Fosforina Apaixonados. A tradução é de Margarida Vale de Gato. //



























Palitinho amava Fosforina
gostava muito dela.
Com a sua figura franzina,
que quente era ela.



























Mas seria amor ardente
o de uma fósfora e de um palito?
Pois muito literalmente
incendiou-se o pauzito.

A Morte Melancólica do Rapaz Ostra & Outras Estórias, Tim Burton (Errata, 2000)

Opening: The Thing

No there's something out there, ao longo das últimas semanas,  foram várias as referências que foram feitas  a John Carpenter e ao giallo. Por volta de 1982, John Carpenter convidou Ennio Morricone, um dos mais importantes compositores de bandas sonoras do giallo, para escrever música para o filme The Thing (Veio do Outro Mundo, 1982), uma revisão do clássico The Thing from Another World (1951) de  Howard Hawks/Christian Nyby. O portentoso filme de Carpenter mantém-se como um dos melhores filmes de terror/ficção cientifica de sempre e nos seus efeitos especiais continuamos a não ver qualquer marca do tempo. Com os executivos de Hollywood lançados numa interminável vaga de remakes dos clássicos das décadas de 1970 e 1980, era inevitável que um dia chegasse a vez deste filme de John Carpenter. Aconteceu no ano passado, com o lançamento de uma prequela. De notar que, os seus efeitos especiais, desenhados a computador, não deixam de ser patéticos quando comparados com os do filme de Carpenter, onde foram trabalhados de uma forma bem mais artesanal. No clipe que mostramos a seguir, recuperamos a abertura de The Thing de 1982. //


The Thing (John Carpenter, 1982)

Penumbra


Penumbra (Adrián García Bogliano, Ramiro García Bogliano, 2011)















Penumbra (Adrián García Bogliano, Ramiro García Bogliano, 2011) pode não ser uma obra-prima mas é exemplar a vários níveis. Trata-se de um filme de ilusões e equívocos, tanto para as personagens como para o espectador. O facto de vir rotulado de terror pode levar o espectador desprevenido a pensar em sangue e sustos fáceis. Se for isso que procura vai dar o tempo e o dinheiro por mal gastos pois, se algo próximo disso existe no filme,  surge apenas no final e por alguns minutos. É certo que a estranheza da situação coloca o espectador numa posição de vigilância permanente, mas tal não impede que encontre muitos momentos divertidos, próprios de uma comédia de enganos.

Marga (Cristina Brondo) é uma executiva arrogante que ao tentar arrendar uma casa, devido à falta de escrúpulos, acaba por ser apanhada no meio de um perigoso ritual de uma seita. O enredo em que é lançada é potenciado pela sua impetuosidade e ilusão de que controla os acontecimentos, o que é divertidamente aproveitado pelos outros personagens. O comportamento de Marga chega a roçar o desprezível levando o espectador a pouco se importar com a sua sorte e a relativizar as acções dos membros da seita. O elenco é dominado por um bom naipe de actrizes, com destaque para Cristina Brondo, uma mulher à beira de um ataque de nervos, e Mirella Pascual, uma deliciosa e intrometida vizinha. Por vezes, ambas nos lembram Pedro Almodovar e o papel que dá às mulheres na organização dramática. Outra das referências que pairam sobre o filme é The House of the Devil de Ti West, tanto no tema como na forma como conduz a narrativa.  Tal como no filme de West, a dupla de realizadores de Penumbra vai cozendo muito lentamente a história até um surpreendente climax.

Depois de ter sido um dos destaques do Fantastic Fest, esta produção argentina foi lançada este mês nas salas de cinema e em VOD nos Estados Unidos, onde  está a ter uma boa recepção critica. Poderíamos pensar que apenas o cinema de autor estrangeiro teria algum destaque nos Estados Unidos mas este filme é a prova de que nem sempre é assim que acontece. A limitação de recursos financeiros e o facto de vir de um país que não pertence aos grandes centros de produção não é razão para se ficar pela qualidade indigente característica de grande parte dos filmes portugueses dirigidos ao grande público. //