Italians Do It Better - Parte 2











































Candy, Chromatics (Kill for Love, Italians Do It Better, 2012)



E o que dizer de Kill for Love, o último longa duração dos Chromatics. A primeira amostra do álbum, o tema Kill for Love lançado em Outubro de 2011, revelara-se pouco entusiasmante. O título, a letra e a voz de Ruth Radelet mantinham-nos perto do universo dos Chromatics, mas a guitarra, muito presente no tema, ameaçava aproximar-se de territórios dos Joy Division. Por outro lado, o período que mediara entre este álbum e o anterior, Night Drive (2007), fora longo e proporcionara o aparecimento de vários clones da banda que lançaram álbuns estimáveis e obtiveram sucesso mediático dentro dos circuitos mais alternativos da pop. Ainda no ano passado tivemos Xander Harris com o óptimo Urban Gothic (Not Not Fun). Nesse intervalo de tempo, tendo em conta o aspecto cinemático da música dos Chromatics, dois temas seus foram incluídos em Drive (Nicolas Winding Refn, 2011) e uma das caras da banda, Johnny Jewel, foi convidado a escrever música para o filme. O final de 2011 já tinha  marcado o ressurgimento da editora dos Chromatics, a nova-iorquina Italians Do It Better, dirigida pelo músico Mike Simonetti,  que deu início a um período de grande actividade. Em Dezembro, o projecto Symmetry, uma colaboração de Johnny Jewel com Nat Walker, lançou Themes for an Imaginary Film (Italians Do It Better), sobre o qual se especula ter sido composto a partir de temas recusados para a banda sonora de Drive. Em Março foi a vez da nova edição dos Chromatics e nos próximos meses ainda vamos poder ouvir uma nova compilação da série After Dark e um novo longa duração dos Glass Candy. No que diz respeito a Kill for Love, da sua audição integral torna-se evidente que as nossas reservas iniciais acabaram por se diluir. Por outro lado, verificamos que os Chromatics pouco mudaram e que isso não é propriamente mau.

Na maioria das bandas da editora Italians Do It Better sente-se a inspiração de dois fenómenos culturais muito populares em Itália durante as décadas de 1970 e 1980, o italo disco e o giallo. O italo disco tratava-se de música electrónica destinada à pista de dança, com particular ênfase nos sintetizadores, que na altura divertiu muita gente e revelou ao mundo pérolas de gosto discutível - entre elas Valentino Mon Amour (Alan Ross) e Tarzan Boy (Baltimora) - e outras mais apreciáveis - Happy Station (Fun Fun) ou Power Run (Laserdance). Na década de 1980, a intelligentsia musical, muito marcada pelo industrial e pelos sucedâneos dos Joy Division, se alguma convivência teve com o clima de festa do italo disco, foi envergonhada e nunca assumida. Mas o cinema italiano acabou por se apropriar do italo disco de uma forma muito produtiva. O giallo, com o seu clima de demência, absorveu o disco e criou uma forma musical muito mais sombria e propícia ao clima de terror e mistério que o género explorava. Em modelos diferentes, os Goblin e Ennio Morricone criaram paisagens sonoras surpreendentes para as inúmeras bandas sonoras que assinaram nesse período. Ainda hoje, basta ouvir a música dos Goblin em Suspiria (Dario Argento, 1977) e de Ennio Morricone em Chi l'ha vista morire? (Who Saw Her Die?, Aldo Lado, 1972) para o comprovar. As duas obras ocupam lugares cimeiros na história do giallo e para isso muito contribuíram as respectivas bandas sonoras. Se hoje, de uma forma descomplexada, pegássemos no disco italiano, tornássemos o seu ritmo mais lento e ainda lhe acrescentássemos algum do clima sombrio do giallo teríamos como resultado os Chromatics e outras bandas da editora Italians Do It Better - Glass Candy, Mirage e Farah. Não se tratam de pastiches do italo disco, mas sim de leituras que o retiram do contexto original e actualizam à luz das novas correntes da pop electrónica. Pop com sintetizadores, batidas narcóticas e uma voz  feminina sedutora que parece vinda do além para nos falar do amor, dos seus encontros e desencontros. 

Em Kill for Love encontramos os Chromatics a trabalhar dentro de um regime de risco controlado. As citações que fazem não seriam tão evidentes em 2007 mas hoje tornaram-se familiares. A abrir temos uma versão de Hey Hey, My My (Into The Black) de Neil Young, que nos lembra a remontagem de Running Up that Hill de Kate Bush, apresentada em Night Drive. Durante cerca de noventa minutos, um alinhamento de canções sofisticadas, pertencentes a um formato de pop clássica, é entrecortado por outras próximas da música ambiental, onde também é convocada a música de John Carpenter. Dir-se-ia que os instrumentais são longos e em demasia, mas são eles que, no meio do requinte, nos permitem respirar e renovar o interesse para uma nova  audição. Decididamente, o primeiro disco de 2012 para ouvir em repeat contínuo. Mas, as paisagens dos Chromatics poderão ser viciantes mas não são negras. Elas situam-se num ponto de passagem, entre o branco e o vermelho, a luz e a perdição. //



 Into the Black, Chromatics (Kill for Love, Italians Do It Better, 2012)

Opening: Assault on Precinct 13


John Carpenter é o Mestre. Qualquer apreciação que fizéssemos da sua obra daria para muitas linhas e seria sempre redutora. Aqui fica a abertura de Assault on Precinct 13 (Assalto à 13ª Esquadra, 1976), um dos filmes do seu período mais rico, lançado em Portugal em 6 de Dezembro de 1979. O seu sentido de economia está presente neste genérico extremamente simples, onde a música em leve crescendo, da autoria do próprio Carpenter, instala rapidamente o ambiente para o que vem a seguir.  //


Assault on Precinct 13 (John Carpenter, 1976)

Italians Do It Better - Parte 1


Requiem for a Vampire, Pierre Raph (Finders Keepers, 2012)






















Dir-se-ia que, na Europa, a partir da década de setenta, os italianos se impuseram como os mestres incontestados do terror e do uso do excesso no cinema. Para a atribuição desse estatuto seria determinante a invenção do giallo, um género que junta crime, suspense e erotismo. Mario Bava, primeiro, e Dario Argento, depois, abriram caminho para outros realizadores italianos, criadores de fantasias oníricas que conquistaram ao longo dos anos um público numeroso que, ainda hoje, ultrapassa  as fronteiras da Europa. Na ultima década foram-lhes dedicadas edições luxuosas em DVD, que deram a conhecer ou a rever algumas das obras maiores dos mestres e também outras mais raras, acompanhadas por incisivas notas críticas que contextualizavam as obras e analisavam a sua herança. Se toda a divulgação e reconhecimento crítico que receberam são totalmente merecidos, isso também contribuiu para ofuscar o trabalho de outros grandes autores do cinema europeu do género de terror. Um desses casos é o do francês Jean Rollin. Filho do Maio de 68, dividiu a sua produção entre o cinema de terror, com forte componente erótica, e o porno assumido, juntando nos seus filmes criadores irreverentes provenientes do underground parisiense, da música e da moda.

A editora Finders Keepers acabou de disponibilizar três edições dedicadas às bandas sonoras de Requiem for a Vampire
(Vierges et Vampires, 1971) e Fascination (1979), duas obras maiores de Jean Rollin. Tratam-se de duas edições em vinil de 10", uma para cada banda sonora, e uma terceira em CD, que junta as duas bandas sonoras. A realização destas edições é pertinente, não se dirigindo apenas aos fãs do género e inserindo-se num contexto actual de reabilitação de bandas sonoras de filmes de terror, que inspiram muita da boa música electrónica e pop actuais - Demdike Stare, Sunn O))), Salem,  Xander Harris e as bandas da editora Italians Do It Better são apenas alguns dos exemplos.

A banda sonora de Requiem for a Vampire
é composta por improvisações free-rock da responsabilidade de Pierre Raph. No filme é notável a forma como a música de Raph pontua os planos de Rollin. Num período inicial, que se prolonga por cerca de quarenta minutos, acompanhamos duas mulheres em fuga pelos campos, algures no interior da França, e , embora quase não haja diálogos, o jogo criado entre as imagens e a música nunca permite que o filme perca o fôlego. Para Fascination, Philippe D'Aram criou uma música fantasmagórica com elementos de sintetizador, serrote, drones e coros. Em alguns momentos lembra-nos a música que John Carpenter criou para os seus filmes. Ambas as bandas sonoras emancipam-se muito para além das imagens, o que as torna em marcos importantes na experimentação sonora da década de setenta e permite entender até que ponto a sua herança se manifesta na produção actual. As edições vêm acompanhadas por notas da autoria do realizador Daniel Bird.

Em entrevista à Fact, Andy Votel, um dos patrões da editora, declarou as suas intenções. "Finders Keepers is very proud to have the means to present Rollin fans with something that they’ve deserved for a long time, and we hope to open up his work to another generation of open-minded viewers, but as far as making apologies for it, or trying to justify it to the out-dated art-house ‘establishment’, well, I’m not here to do their homework". 
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Fascination, Philippe D'Aram (Finders Keepers, 2012)