Snakewoman




















Snakewoman (Jess Franco, 2005)




Na entrada da década de 1990, a carreira de Jess Franco é marcada por dois factos aparentemente contraditórios: por um lado, o seu trabalho antigo recebe uma divulgação excepcional através de edições em VHS e destaques em publicações; por outro, a sua produção diminui de forma considerável, realizando apenas três obras em cinco anos, para além do seu envolvimento na finalização de Don Quijote (1992), projecto que Orson Welles deixara incompleto. Já em 1987, Faceless (Les prédateurs de la nuit), mais que o anúncio, era o certificado definitivo da morte  do cinema de terror europeu, sistema de produção e distribuição - do qual Jess Franco fora uma das peças chave - que conseguira resultados notáveis até 1984, com os seus próprios estúdios, vedetas, técnicos, editores, salas, críticos e revistas. A investigação e a produção de conhecimento em torno do cinema mais obscuro, levada a cabo por um conjunto de críticos anglo-saxónicos, cede um  enorme espaço mediático a Jess Franco, com o levantamento e organização da sua vasta filmografia e a chamada de atenção para títulos desconhecidos ou considerados perdidos. Em 1990, Tim Lucas inicia a publicação da revista Video Watchdog (1990- ), onde inclui o ensaio seminal How to Read a Franco Film. Outras publicações - como Obsession - The Films of Jess Franco (Lucas Balbo, Peter Blumenstock, Christian Kessler, Tim Lucas, 1993), Immoral Tales: European Sex & Horror Movies 1956-1984 (Cathal Tohill, Pete Tombs, 1995) e Manacoa Files (Alain Petit, 1994-1995), todas esgotadas e, em segunda mão, vendidas a preços proibitivos - divulgaram e impuseram Franco enquanto autor, criando uma base sólida de fãs interessados e curiosos relativamente a todos os aspectos que rodeiam a sua vida e obra. Anos depois, as edições em DVD (com a inclusão de entrevistas e comentários de especialistas) e a intensificação do uso da internet (os blogues, os sites e as redes sociais) fariam o resto, numa aproximação revolucionária entre criador e público. O blogue I'm in a Jess Franco State of Mind, de Robert Monell, e os foruns Cinemadrome, também dinamizado por Monell, e The Latarnia Forums são alguns dos exemplos que melhor ilustram este notável trabalho de divulgação.

É neste ambiente, de crescente interesse pela obra de Jess Franco e da sua incapacidade em produzir e distribuir os novos filmes, que surge o futuro produtor Kevin Collins. Enquanto recolhia material sobre estrelas do cinema de terror europeu, Kevin Collins encontrou-se com os seus ídolos, Lina Romay e Jess Franco, com vista a incluir o trabalho da actriz numa publicação. Durante o encontro, em Madrid, decidiram fazer um filme em conjunto, com Collins a participar como produtor. Isto traduziu-se na criação da produtora One Shot Productions, parceria entre Kevin Collins e Hugh Gallagher, da distribuidora Draculina Cine, e no filme Tender Flesh (Carne Fresca, 1996). Seguiram-se, ainda em conjunto com Jess Franco, Lust for Frankenstein (1998), Mari-Cookie and the Killer Tarantula (1998), Broken Dolls (1999), Dr. Wong's Virtual Hell (El infierno virtual del Dr. Wong, 1999), Red Silk (1999), Vampire Blues (1999), Blind Target (Objetivo a ciegas, 2000), Helter Skelter  (2000), Vampire Junction (2001), Incubus (2002), Killer Barbys vs. Dracula (2002), Flores de perversión (2005), Flores de la pasión (2005) e Snakewoman (2005). Ou seja, uma década de produção, em que Jess Franco filma em suporte digital exclusivamente para uma produtora dirigida por um admirador, em edições limitadas direct to video, dirigidas a uma sólida base de fãs. Uma liberdade não isenta de restrições pontuais, que Jess Franco aceita contrariado, nomeadamente quanto à diferença na duração e conteúdo erótico entre as edições americanas e espanholas de alguns títulos.



















Snakewoman (Jess Franco, 2005)




Snakewoman foi disponibilizado numa edição da Sub Rosa Studios, entretanto esgotada, com áudio em castelhano e legendagem incrustada em inglês. Como extra oferecia uma versão uncut de Dr. Wong's Virtual Hell. Combinando Jess Franco, Dracula e Marlene Dietrich, o enredo adapta livremente Vampyros Lesbos (Las vampiras, 1970), centrado num processo de aquisição de direitos sobre o trabalho de uma artista controversa envolvida em escândalos sexuais, Oriana Balasz, que teria a mesma idade de Franco, cerca de setenta e cinco anos. Uma agência envia Carla (Fata Morgana) para se encontrar com os herdeiros da artista para concluir a compra. É recebida por uma mulher (Carmen Montes) com uma enorme tatuagem de uma serpente que lhe envolve o corpo e que aparenta ser Oriana Balasz, ainda jovem, sem sinais da passagem do tempo. Na moradia existe uma fotografia autografada de Marlene Dietrich. A primeira vez que a vemos é ainda nos créditos quando é assinalado o nome do realizador. O elenco é completado pelos históricos Lina Romay e Antonio Mayans. Como nas restantes colaborações com Kevin Collins e nos auto-financiamentos que dirigiu até à sua morte, Jess Franco mostra estar consciente do público a que se dirige e encerra os filmes num sistema auto-referencial, com acesso codificado e reservado a um sector especializado ou bem familiarizado com a sua produção. Curiosamente, ou talvez não, o último filme que Jess Franco finalizou, Al Pereira vs. the Alligator Ladies (2012), contém nos agradecimentos: blogues, bloggers, críticos e divulgadores, entre uma lista de admiradores, mais ou menos famosos. Em termos narrativos existe uma dificuldade em detectar focos dramáticos - se é que realmente existem - e estabelecer a sua ligação. As cenas eróticas entre mulheres, às vezes em slow motion, chegam a durar cerca de meia hora, induzindo uma percepção do tempo como resultado do excesso da duração e do vazio instalado. Também, um certo amadorismo cultivado na sua produção antiga, que, paradoxalmente, tornar-se-ia numa das marcas do seu universo autoral, aparece agora exacerbado pelo uso da câmara de vídeo, que, além da imagem, capta o som, e pela aplicação de vulgares, e baratos, filtros e efeitos digitais durante a edição. Em Paula-Paula (2010), a que Franco chama "una experiencia audiovisual inspirada en Jekyll y Hyde de R. L. Stevenson", o uso de técnicas de tratamento digital é levado ao limite manipulando e distorcendo o corpo da mulher até atingir formas extremas de abstracção.

Todos estes sinais colocam a radicalidade da sua abordagem, não como um redutor tratamento amador, mas sim como um regresso aos desafios das vanguardas americanas e europeias, nos anos sessenta e setenta, e às interrogações, em torno da edição, da posição da câmara, do som, da construção da narrativa e do papel do espectador, dirigidas ao ilusionismo do cinema de Hollywood. Sobre a problemática deste ponto, é esclarecedor um artigo que Brad Stevens escreveu para o British Film Institut, em que discute a produção final de Jess Franco. Retomando a justificação do British Board of Film Classification (BBFC) em recusar a certificação para a distribuição de Les possédées du diable (Lorna The Exorcist, 1974) - the work of this particular filmmaker has often fallen well outside the parameters of BBFC standards... offering little pleasure to the viewer other than a conscious vicarious gratification of misogyny –, Brad Stevens contrapõe: one of the most touching aspects of Franco’s final period is the way he continued making erotica focused on his long-term partner, star and muse Lina Romay (who passed away last year)... Yet, in the context of a cinema where only young bodies are presented as attractive, Franco’s insistence that a woman in her fifties can still be viewed as a sexual ‘object’ seems positively revolutionary. Perhaps ‘misogyny’ and ‘feminism’ can no more be unproblematically opposed than amateurism and professionalism, exploitation and art, childish innocence and sexual perversity, or creator and audience.



A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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