Gemidos de placer






Gemidos de placer (Jess Franco, 1982)




A morte do General Franco traz a queda da censura e promove mudanças de costumes na sociedade espanhola. No período histórico correspondente à transição entre a ditadura e a democracia, Transición Española, deu-se um fenómeno cinematográfico conhecido como Destape, caracterizado pela exploração do nu integral de homens e mulheres, antes impossibilitado pela censura franquista. Os filmes que Jess Franco dirigira durante o exílio voluntário, para circularem em Espanha, foram alvo de cortes severos no material que pudesse provocar a censura. Com o regresso a Espanha, dirige uma avalanche de abordagens eróticas claramente causticas, algumas em tom de comédia, e revisitações a algumas das personagens que lhe deram fama, como Al Pereira, Eugénie e Orloff. Exceptuando grandes produções, entre as quais Faceless (Les prédateurs de la nuit, 1987) e Operación cocaína (1988), suscitadas pela popularidade que, entretanto, alcançara com a distribuição internacional de filmes antigos em formato VHS, os títulos que realiza a partir de inícios dos anos 80 são filmes de família, de orçamento baixo e de equipas pequenas, em que a parte técnica chega a ser assegurada pelos actores. Anos depois, a utilização da câmara de vídeo viria simplificar o processo. Desta forma,  Franco fica livre de produtores emblemáticos - Daniel e Marius Lesoeur, Allan Towers, Artur Brauner, Robert de Nesle, Erwin C. Dietrich e, mais tarde, Kevin Collins - para se dedicar aos filmes que sempre quis fazer, com a ajuda de pequenas companhias. Em Espanha, a legalização da produção de pornografia só chegaria em 1983. Franco que estava a terminar Lilian (la virgen pervertida) (1983), filma cenas adicionais com sexo explícito, tornando-o no primeiro filme pornográfico espanhol. A actriz Katja Bienert ficaria irritada com o realizador por ter utilizado, nessas cenas, o corpo de um duplo seu, associando-a, com pouco mais de dezasseis anos, a um filme pornográfico. Entre os filmes mais importantes que Franco dirigiu, após o regresso a Espanha, encontram-se Eugenie, Historia de una perversión (1980), El sexo esta loco (1980), Macumba Sexual (1981), Gemidos de placer (1982), Sola ante el terror (1983), Faceless e Snakewoman (2005).

A narrativa de Gemidos de placer é baseada em escritos do Marquês de Sade e pode ser vista como uma revisão de Plaisir à trois (1973), pelo menos no que diz respeito ao desenlace final. Gemidos de placer foi todo rodado numa moradia junto à baía de Calpe (Alicante), propriedade de Emilio Larraga, da companhia espanhola Golden Films Internacional S.A., produtora do filme. Em frente à moradia e presente na maioria dos planos de exterior, vemos o Peñon de Ifach, uma enorme estrutura rochosa  elevada sobre o mar e ligada à costa por apenas um delgado fio de terra. Por perto, sabemos que se encontram La Muralla Roja e Xanadú, edifícios desenhados por Ricardo Bofill, que adquirem uma carga simbólica forte em vários filmes de Jess Franco e que aqui se recusa a mostrar. Ao escolher o título para o filme, Franco é muito claro no programa que dirige e não engana o espectador quanto ao que o espera. Entre o fim de tarde e a madrugada, em poucas dezenas de planos sequência, de forma a induzir uma sensação de tempo real, cinco personagens deambulam por uma casa em repetidos encontros sexuais. Antes da filmagem, cada cena foi devidamente ensaiada, como se tratasse de uma elaborada peça de palco. O inicio do filme dá-se com o anúncio duma morte e em formato flashback o espectador conhece os detalhes do crime, a partir do relato, em off, de um criado mudo, a quem cabe também acompanhar os actos sexuais com a música que dedilha da guitarra. Jess Franco não participa fisicamente como actor, ao contrário do que acontece na maioria dos seus filmes, mas dá a voz à consciência do criado, enquanto observador e testemunha. A economia da história, a escassez dos diálogos e a repetição obsessiva dos actos físicos nas suas múltiplas variantes encontram paralelo no dispositivo do hardcore, mas, ao mesmo tempo, Jess Franco parece querer negá-lo, quando coloca a câmara atrás de estores, cortinas ou janelas e portas entreabertas, o que dificulta os grandes planos e a visibilidade sobre as partes mais intimas dos corpos. A música, da responsabilidade de Jess Franco e de Pablo Villa (nome fictício, atribuído à parceria entre Franco e Daniel White), mantém o ritmo entre as cenas e sustem as longas acções performativas que os actores dirigem em frente à câmara, que passeia errante pelo espaço, direccionando o olhar do espectador, ora mostrando, ora escondendo, numa sequência interminável de movimentos, zooms e manipulações do foco. Enquanto vibrante coreografia de corpos, Gemidos de placer avança como se fosse um sonho e termina em pesadelo. A Franco não interessa a representação do acto sexual enquanto mecanismo simples para a estimulação e criação de prazer, mas antes como parte de um inquietante e violento ritual de morte, que coloca em cena sentimentos de culpa e de dor. É ao criado Fenul (Juan Soler), a única testemunha, e ao amo assassinado (Antonio Mayans) que jaz na piscina, a quem compete abrir e encerrar o filme, depois de as duas mulheres autoras do crime (Lina Romay e Rocío Freixas) terem partido. Fenul fala de perda e solidão, dele, do amo e dos homens. Ao fundo, em ambas as cenas, permanece o Peñon de Ifach, que, num fácil jogo de associações, poderíamos imaginar como uma presença ostensivamente masculina que se ergue sobre o mar. Ou ainda, como a imagem de uma monumentalidade efémera que a erosão da natureza força a desintegrar-se, separando-o da costa. Gemidos de placer é um filme raro, que foi lançado no mercado em edições espanholas, que se encontram esgotadas ou de difícil acesso. Tendo em conta a crescente divulgação internacional que a obra de Jess Franco conheceu nos últimos anos, Gemidos de placer merecia mais. Trata-se de um dos mais belos e secretos filmes de Jess Franco e uma obra marcante do cinema erótico.


A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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