Faceless (Les prédateurs de la nuit)


Les yeux sans visage (Georges Franju, 1960)




Tendo percorrido, em repetições sucessivas, muitas das variantes do cinema de terror (canibais, vampiros, zombies, fantasmas, demónios, women in prison, nunsploitation) era natural que, um dia, Jess Franco chegasse ao splatter e ao slasher. Não é que antes tivesse evidenciado uma apetência para mostrar sangue, já que muitas vezes ele surgia de forma forçada, como se fosse feito a partir de bâton ou tinta, mas mais por propostas vindas de produtores. Foi o que aconteceu nos anos 80, com Die Säge des Todes (Bloody Moon, 1980) e Faceless (Les prédateurs de la nuit, 1987). Entre muitos filmes de família, concretizados com pequenas equipas e capital maioritariamente espanhol, recebeu convites para realizar, o que, comparativamente, poderiam ser consideradas grandes produções. O resultado, para além da convocação de personagens, temas e histórias antigas, são títulos que, a nível formal, custa a enquadrar na sua produção da década anterior, pelo cuidado redobrado com a linearidade narrativa e um maior controlo no uso da improvisação, do zoom e do foco. Bloody Moon acontece com a participação de capitais alemães, para tirar partido do triunfo internacional das séries norte-americanas Halloween (1978-2009) e Friday the 13th (1980-2009), iniciadas por John Carpenter e Sean S. Cunningham, respectivamente, e que tiveram como precursora, a partir da Europa, a obra-prima de Mario Bava, Reazione a catena (A Bay of Blood, 1971). Jess Franco pega na premissa essencial do slasher, a morte em série de adolescentes algo desmiolados, e engendra uma história passada numa escola de aprendizagem de línguas, na costa de Alicante (Espanha), povoada por jovens louras estrangeiras que exploram intensamente os prazeres do sul da Europa. Uma intriga paralela em torno de uma família rica, com lutas entre os herdeiros, ainda baralha os dados, ao apontar mais para os códigos do giallo que do slasher, mas o resultado é de uma eficácia sensaborona, em que não basta o nome de Franco nos créditos para o diferenciar dos muitos derivados que os exemplos mencionados criaram pelo mundo fora. Colocado à apreciação do British Board of Film Classification, tendo em vista a sua distribuição no Reino Unido, foi conduzido imediatamente para a lista dos video nasties. Mais para o final da década, Jess Franco retomaria a colaboração com o estúdio francês Eurociné, que antes dera resultados tão frutuosos, mas que então origina produções marcadas pelo refrear das obsessões e de um interesse reduzido.

Faceless foi co-escrito e produzido por René Chateau, conhecido pelas companhias de produção e distribuição que detivera em conjunto com o actor Jean-Paul Belmondo. O orçamento foi confortável e o elenco pertence a várias nacionalidades, com caras reconhecíveis do grande ecrã (Helmut Berger, Brigitte Lahaie, Telly Savalas, Christopher Mitchum, Stéphane Audran e Caroline Munro) e habituais do cinema de Jess Franco, em cameos (Howard Vernon e Lina Romay). O argumento é uma actualização do primeiro filme de terror do cinema espanhol, Gritos en la noche (The Awful Dr. Orlof), realizado por Franco em 1961, que, por sua vez, se inspirava em The Dark Eyes Of London (1924) de Edgar Wallace e Les yeux sans visage (1960) de Georges Franju. Na novela de Wallace, um médico executa crimes com a ajuda de um cego, enquanto, em Les yeux sans visage, Franju conta a história de um cirurgião que recorre à pele de jovens para recuperar a face da filha. Para Gritos en la noche, Franco coloca o Dr. Orlof, com a ajuda de um assistente cego, a raptar jovens cantoras, de quem retira a pele para restaurar a face desfigurada da filha. No contexto europeu, a novidade de Gritos en la noche residia na ousadia com que abordava o erotismo e a perversidade. Gritos en la noche e Faceless são, respectivamente, o começo e o fim do reinado do Doutor Orloff (entretanto, o nome ganharia mais um F) na obra de Jess Franco. Pelo meio, ficariam outras revisitações ou sugestões da sua acção: El secreto del Dr. Orloff (1964), Miss Muerte (The Diabolical Dr. Z, 1965), Los ojos siniestros del doctor Orloff (1973) ou El siniestro doctor Orloff (1982). 

Em Faceless, a narrativa de Gritos en la noche é actualizada, com a acção deslocada de uma cidade provinciana, dos seus ambientes expressionistas e contaminados pelos filmes de monstros da Universal, para o luxo e sofisticação dos meios abastados de Paris. Em vez da cacofonia vanguardista de Jose Pagan e Antonio Ramirez Angel, as baladas doces de Romano Musumarra interagem com o glamour e as aspirações da sociedade de consumo. Um famoso cirurgião plástico, Frank Flamand (Helmut Berger), usa as facilidades da clínica que dirige, para executar operações cirúrgicas, que se destinam a transplantar tecido da face de raparigas para a da irmã (Christiane Jean), que se encontra desfigurada devido a um acidente em que ele fora, indirectamente, responsável. Howard Vernon interpreta o Dr. Orloff, tanto em Gritos en la noche como em Faceless. Se no primeiro é a mente por detrás dos crimes, no segundo surge como elemento secundário que sugere um médico nazi refugiado em Espanha - a pátria de Jess Franco, de onde estivera exilado durante muitos anos, até ao fim da ditadura do General Franco - para ajudar Flamand nos transplantes. Lina Romay, musa e interprete de várias dezenas de filmes de Franco, é a companheira-criada de Orloff, que a apresenta como a sua melhor criação. Jess Franco parece divertir-se a distribuir alfinetadas, aqui e ali, aparentemente inofensivas, mas que resultam verrinosas para quem estiver familiarizado com a sua vida e obra. A poesia do belíssimo filme de Franju, que ainda espreitava em Gritos en la noche, cede lugar ao excesso do gore presente nas mutilações e cirurgias, transformando-o no seu filme mais sanguinolento. Entre as mutilações brutais com variados objectos existem as operações para retirar o tecido facial, em ambiente clínico e higiénico, que são detalhadas e de uma crueldade não aconselhável a almas sensíveis, com as vítimas imobilizadas, a observarem todos os movimentos. Numa delas, o médico, depois de retirar todo o tecido, vira-o para a cara da mulher a que pertencia, onde estão apenas intactos os olhos, que o fixam, aterrorizados. Uma maior cautela na exploração do erotismo e a proposta de equilíbrio entre o gore e a sofisticação, mantêm Faceless longe da experimentação visual da década de 1970, mas bem para além da mecânica das mortes em série de Bloody Moon. Num momento, em que o nome do realizador ganhava um novo fôlego com as edições em vídeo do seu trabalho antigo e de renovado interesse por parte da crítica especializada, Faceless testemunha os ventos de mudança, como o adeus definitivo à época dourada do cinema de terror europeu, entre 1956 e 1984, e aos seus próprios canais de produção e de distribuição (estúdios, editores, salas, actores, técnicos e revistas). Não são sinais de menor importância, a abertura dos créditos com uma dedicação ao Midi-Minuit, sala mítica parisiense, entretanto desaparecida, especializada em terror e erotismo, e o destaque no elenco a Brigitte Lahaie, uma das mais elegantes estrelas europeias, que procurava consolidar a carreira fora do circuito X, que Jean Rollin lhe tinha oferecido. No mercado digital, Faceless está disponivel em edições da René Chateau Vidéo (França) e da Shriek Show (Estados Unidos), divisão da Media Blasters vocacionada para o cinema de terror das margens.





















Faceless (Les prédateurs de la nuit, Jess Franco, 1987)




A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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