Vampyros Lesbos (Las vampiras)

















Vampyros Lesbos (Las vampiras, Jess Franco, 1970)




Durante a primeira metade da década de 1970, Jess Franco realizou alguns dos seus filmes mais populares. Entre eles encontra-se Vampyros Lesbos (Las vampiras, 1970), exemplar de uma forma de mise en scène que o realizador tinha vindo a experimentar ao longo dos anos e indicia o seu trabalho futuro. As performances eróticas que antes aconteciam em clubes nocturnos e que apareciam pontualmente na primeira década da carreira, parecem agora contaminar por inteiro os filmes. Com a narrativa reduzida ao mínimo, a música é o mote para uma sucessão de longos actos performativos que os actores dirigem em frente à câmara, à qual cabe o papel de activar o olhar do espectador, ora mostrando, ora escondendo, numa sucessão de zooms e de manipulações do foco. O resultado são atmosferas em fuga para a abstracção, que tanto seduzem os fãs, como afastam irremediavelmente os detractores. Esta nova forma de organização dos filmes acontece com a chegada de Soledad Miranda e, mais tarde, de Rosa María Almirall Martínez (Lina Romay) que não só tomam o lugar de Estella Blain, Janine Reynaud e Maria Rohm, como aceitam o olhar fascinado de Franco, com uma disponibilidade sem precedentes. É o olhar obsessivo de Franco pelos seus corpos que se tornará o motor de cada filme.

Vampyros Lesbos é a participação mais famosa de Soledad Miranda no cinema, onde interpreta uma herdeira do conde Dracula, com uma predilecção por sangue de mulheres. Vampiros e amores entre mulheres não eram temas novos no cinema. Em 1936, ao camuflar lesbianismo com vampirismo, a Universal conseguiu que Dracula's Daughter (Lambert Hillyer, 1936) não ficasse enredado em processos levantados pela censura. Segundo Vito Russo, historiador especializado em estudos queer e autor do livro The Celluloid Closet (1981), o estúdio chegou a promover o filme com a slogan: Save the women of London from Dracula's Daughter! No entanto, o autor lembra a problemática que se levanta pois, na combinação de ambos os temas, a fraqueza predatória é apresentada como a essência da homossexualidade. A personagem Carmilla, criada em 1872 por Joseph Thomas Sheridan Le Fanu, para a novela com o mesmo nome, tornar-se-ia numa grande influência para os filmes que sugerem a temática. Ainda que com diferentes doses de subtileza, Vampyr (1932) de Carl-Theodor Dreyer e ... Et mourir de plaisir (Blood and Roses, 1960) de Roger Vadim vão inspirar-se a Carmilla. Na viragem da década de 1960, também o francês Jean Rollin e a produtora inglesa Hammer entram seguros neste território, respondendo ao esgotamento dos filmes protagonizados por Dracula e à mudança de costumes no que diz respeito à utilização do sexo e da violência no panorama audiovisual. Na Hammer, esta nova forma de abordagem ao vampirismo é mais evidente na Karnstein Trilogy, numa referência directa a Carmilla Karnstein e que inclui The Vampire Lovers (Roy Ward Baker, 1970), Lust for a Vampire (Jimmy Sangster, 1971) e Twins of Evil (John Hough, 1971).

Jess Franco não apreciava os filmes da Hammer, considerando-os mal produzidos e filmados e cópias a cores pouco inspiradas dos modelos da Universal. O que não o impediu de aceitar Christopher Lee, um dos símbolos do estúdio inglês, para protagonizar o falhado Count Dracula (El Conde Drácula, 1969), adaptação fiel da obra Dracula de Bram Stoker. Talvez Christopher Lee seja um dos maiores defeitos do filme, não pela qualidade da representação, mas pela inevitável lembrança e comparação, a que nos obriga, com o superior Dracula (1958), que Terence Fisher dirigiu para a Hammer e em que o actor vive a mesma história e personagem. Em Vampyros Lesbos, a perspectiva inventiva de Franco avança com desafios bem mais estimulantes, através de uma forma narrativa não linear que evita a criação de medo ou suspense e passa ao lado das convenções do género. Os vampiros não assumem qualquer incompatibilidade com a luz solar, os reflexos nos espelhos ou os símbolos religiosos. Nem há qualquer sinal dos famosos dentes pontiagudos. Tendo sido filmado em Alicante, Barcelona, Istambul e Berlim, as florestas e o gótico da Hammer dão lugar a paisagens ensolaradas, casas de recorte modernista, aves exóticas, escorpiões e borboletas. À volta, o mar, mais uma vez, e a música inebriante de Manfred Hübler e Siegfried Schwab, que Quentin Tarantino homenagearia na banda sonora de Jackie Brown (1997). O ar impenetrável de Soledad Miranda no papel da Condessa Nadine Korody, com os olhos escuros e a figura pálida, são a força e o sucesso público do filme, o que levou Artur Brauner, da produtora alemã Telecine, a propor-lhe um contrato para vários filmes, pouco antes de a actriz morrer num acidente trágico em Portugal. Caberia à senhora que se seguiu, Lina Romay, evocar a memória de Nadine Korody, já em terreno hardcore, em La comtesse noire (Female Vampire, 1973) e Die Marquise von Sade (Doriana Gray, 1976).

As companhias norte-americanas Image Entertainment e Synapse Films lançaram Vampyros Lesbos em DVD, no formato widescreen, em 1999 e 2004, respectivamente. Em ambas as edições é utilizado um áudio alemão, com a possibilidade de escolha de legendagem em inglês, embora a Synapse Films deixe pequenas secções de diálogo sem tradução. Em termos de tratamento de cor, a Image Entertainment conseguiu uma transferência que acompanha melhor as cores originais trabalhadas por Jess Franco. Nos extras, ambas têm o habitual trailer, mas a Synapse Films acrescenta notas valiosas do incansável Tim Lucas. A espanhola Divisa optou por lançar Las vampiras, numa versão de Vampyros Lesbos com áudio em castelhano ou japonês e legendagem em castelhano. Trata-se de uma versão feita na década de 1970 para o mercado espanhol, amputada de cenas problemáticas para a censura. Entre elas está a famosa performance erótica que abre Vampyros Lesbos, com Soledad Miranda e uma manequim viva. A banda sonora de Manfred Hübler e Siegfried Schwab, outra das marcas importantes da versão alemã, é eliminada ou substituída, em algumas cenas, por música da autoria de Jess Franco.



Vampyros Lesbos (Las vampiras, Jess Franco, 1970)



A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

 //

2 comentários:

Fábio Pereira disse...

Excelente filme. Excelente review.

there's something out there disse...

Caro Fábio Pereira,

Obrigado pela visita e pelas palavras simpáticas. Um excelente filme de um grande realizador. Em 2013, durante alguns meses, dedicámos um ciclo a Jess Franco.

O material que reunimos pode ser encontrado no seguinte link:
http://theresomethingouthere.blogspot.pt/p/jess-franco-um-mapa.html

Cumprimentos.