Ricardo Bofill, La Muralla Roja e Xanadú nos Filmes de Jess Franco


Ricardo Bofill, La Muralla Roja e Xanadú (Fonte: Ricardo Bofill, Taller de Arquitectura)




Formado na Suíça, depois de ter sido expulso da Escuela Técnica de Arquitectura de Barcelona, por alegadas ligações ao Partit Socialista Unificat de Catalunya, Ricardo Bofill dedicou cerca de duas décadas a projectos arquitectónicos destinados à urbanização La Manzanera, em frente ao Peñon de Ifach (Calpe, Alicante, Espanha). As construções no complexo turístico decorreram entre 1964 e 1982, com o desenvolvimento de diferentes unidades de apartamentos e vivendas: Plexus (1966), Xanadú (1967), Conjunto residencial  (1967-1971), La Muralla Roja (1973) e Anfiteatro (1981). Numa altura em que se assistia a uma desregulação da construção na costa espanhola, motivada pela exploração imobiliária selvagem do mercado turístico, o projecto propunha um diálogo com a paisagem circundante, em busca de novas relações com o meio ambiente e a sustentabilidade. A vontade de experimentação formal sobre uma costa rochosa disposta em forma de anfiteatro em frente ao mar, resultou na reconstrução de uma extraordinária paisagem natural para que pudesse cumprir funções ligadas a férias e ocupação de tempos livres. Uma vez que o projecto se prolongou por um longo período de tempo e ainda que prevalecesse uma vontade de coerência, cada unidade foi olhada como um ensaio em torno da forma e da linguagem, de modo que num único local se pode assistir às mudanças que foram ocorrendo na historia da arquitectura contemporânea. Pelo jogo de formas e cores, os dois edifícios mais emblemáticos de La Manzanera são La Muralla Roja e Xanadú. La Muralla Roja assemelha-se a uma estrutura militar sedimentada na costa rochosa. As cores que exibe, em diferentes tons de azul e vermelho, existem em função da intensidade da luz mediterrânica, que as pode moderar ou tornar mais vivas. Xanadú parece uma desconstrução da forma de um castelo, segundo uma perspectiva cubista, como resposta à robustez efémera do Peñon de Ifach, um “acidente” que a natureza quase libertou da costa. Num projecto mais actual e noutro registo, em linhas mais clássicas, Ricardo Bofill é responsável pelo edifício Atrium Saldanha, em Lisboa, que recebeu o Prémio Valmor de Arquitectura 2001.



Ricardo Bofill, La Muralla Roja (Fonte: Ricardo Bofill, Taller de Arquitectura)




Within the context of La Manzanera, La Muralla Roja (The Red Wall) asks to be considered as a case apart. It embodies a clear reference to the popular architecture of the Arab Mediterranean, in particular to the adobe towers of North Africa. The Red Wall is like a fortress which marks a vertical silhouette following the contour lines of the rocky cliff.  With this building the Taller de Arquitectura wanted to break the post-Renaissance division between public and private spaces reinterpretating the Mediterranean tradition of the casbah. The labyrinth of this recreated casbah corresponds to a precise geometric plan based on the typology of the Greek cross with arms 5 meters long, these being grouped in different ways, with service towers (kitchens and bathrooms) at their point of intersection. The geometric basis of the layout is also an approximation to the theories of constructivism, and makes La Muralla Roja a very clear evocation of these. The forms of the building, evoking a constructivist aesthetic, create an ensemble of interconnected patios which provide access to the 50 apartments, which include 60 sqm studios, and two- and three-bedroom apartments of 80 and 120 sqm, respectively. On the roof terraces there are solariums, a swimming pool, and a sauna for resident’s use. The criterion of applying to the building a gamut of various colours responds to the intention to give a determined relief to the distinct architectural elements, according to their structural functions. The outside surfaces are painted in various tones of red, to accentuate the contrast with the landscape; patios an stairs, however, area treated with blue tones, such as sky-blue, indigo, violet, to produce a stronger or weaker contrast with the sky or, on the contrary, an optical effect of blending in with it. The intensity of the colours is also related to the light and shows how the combination of these elements can help create a greater illusion of space. (Fonte: Ricardo Bofill, Taller de Arquitectura)



Ricardo Bofill, Xanadú (Fonte: Ricardo Bofill, Taller de Arquitectura)




This 18-apartment building [Xanadú], as part of the La Manzanera development, was a prototype experiment in applying a methodology to the team’s theory of a garden city in space and should be read as one of many large interconnecting elements. The building took the castle as its point of reference, and evolved in such a way as to arrive at a configuration inspired by the nearby Peñon de Ifach crag. The unit of each apartment is composed of three cubes corresponding to living space, sleeping space and services. These three cubes are grouped around the vertical axis of the stair well which serves to support them. The cubes are then applied to the supporting circulation spine determined on an orthogonal grid, then broken down to satisfy the particular requirements of the program: in this case, shaded internal terraces to avoid the intense heat, hyperbolic roofs for better views, and adaptation to local building techniques. No plans or elevations were drawn during construction, but each unit has its exterior walls pierced according to orientation, light needs, kitchen extractor fans, ventilators, privacy, and connection points, and was positioned after model analysis diagrammatically on the engineer’s structural drawings. The rigid geometry of the cube, the basis of the initial structure, was fractured on the exterior angles in order to create an irregular façade with a spectacular interplay of light and shadow and multiple views of the landscape. (Fonte: Ricardo Bofill, Taller de Arquitectura)


Ricardo Bofill, Xanadú (Fonte: Ricardo Bofill, Taller de Arquitectura)




No que diz respeito à relação destes elementos da baía de Calpe com o cinema de Jess Franco, antes de mais, importa referir que, enquanto colaborador de Orson Welles e amante da sua obra, o nome Xanadú evoca a mítica morada de Charles Foster Kane em Citizen Kane (1941), realizado e interpretado por Welles. La Muralla Roja ou Xanadú existem também como componentes arquitectónicos que indiciam sinais perturbantes em alguns filmes de Franco - Sie tötete in Ekstase (She Killed in Ecstasy, 1970), La comtesse perverse (1973) e Eugenie, Historia de una perversión (1980) são os melhores exemplos. Quanto ao Peñon de Ifach, é o elemento distintivo da paisagem que rodeia a moradia onde decorre toda a acção de Gemidos de placer (1982). Jess Franco opta, quase sempre, por desligar estes elementos, como se não fizessem parte da mesma baía, o que informa sobre o papel que lhes atribui, abrindo a possibilidade de poderem comunicar com o interior das personagens. Em La comtesse perverse, radicaliza o gesto e liberta Xanadú de toda a paisagem circundante. Ao localizá-lo numa ilha deserta, faz com que a geometria da sua estrutura crie um contraste com a monotonia da costa rochosa, que desorienta os visitantes e o liga a imaginários clássicos do cinema de género. No entanto, não é Drácula que aguarda os visitantes, mas sim outros dois Condes, canibais.    



























Peñon de Ifach (Fonte: aqui)



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