Les possédées du diable (Lorna The Exorcist)


Les possédées du diable (Lorna The Exorcist, Jess Franco, 1974)




Ao dividir a produção de Jess Franco por períodos, a publicação Obsession - The Films of Jess Franco (Lucas Balbo, Peter Blumenstock, Christian Kessler, Tim Lucas, 1993) considera os anos entre 1973 e 1979 como The Porno Holocaust Years. Como tínhamos referido logo a propósito de 99 Women (1968), os estúdios e distribuidores acrescentavam inserts hardcore nos filmes, sem o envolvimento ou consentimento do realizador. Les avaleuses, a versão hardcore de La comtesse noire (Female Vampire, 1973) é considerada a primeira entrada de Jess Franco em terreno explícito, em que é responsável pela filmagem dos segmentos que os estúdios exigiam para responder à invasão do porno feito nos Estados Unidos. A situação repetir-se-ia por muitos mais filmes, sem que isso resultasse propriamente chocante ou numa mais valia,  quando contraposto à singularidade da encenação e ao carácter bizarro das histórias. Descontente com o regime do General Franco e vivendo fora de Espanha, escondido sob vários pseudónimos, este foi um dos seus períodos mais produtivos, chegando a envolver-se em mais de uma dezena de filmes por ano, em que acumulava a direcção, com a actuação, a fotografia, a escrita das histórias ou a composição sonora. Após vários bons filmes para Robert de Nesle -  Al otro lado del espejo (1973), La comtesse perverse (1973) e Les possédées du diable (Lorna The Exorcist, 1974) -, na segunda metade da década, Franco refugia-se em Zurique, a trabalhar para a Elite Film do produtor Erwin C. Dietrich. Foi tempo de se dedicar, entre outros, a um aprofundamento do género Women in Prison, ainda que com resultados decepcionantes - Frauengefängnis (Barbed Wire Dolls, 1975), Greta - Haus ohne Männer (Wanda, the Wicked Warden, 1977), Frauen für Zellenblock 9 (Women in Cellblock 9, 1977) e Frauen im Liebeslager (Love Camp, 1977) -, ao famoso "porno" rodado em Portugal, em monumentos e com actores nacionais - Die Liebesbriefe einer portugiesischen Nonne (Cartas de Amor de Uma Freira Portuguesa, 1976) -, a uma actualização inspirada de La comtesse noire - Die Marquise von Sade (Doriana Gray, 1976) -, e ao seu último filme protagonizado por Klaus Kinski - Jack the Ripper - der Dirnenmörder von London (1976). Entretanto, estabelece-se por um pequeno periodo em Paris, seguido do seu regresso a Espanha, na passagem da década, em que retoma o melhor da sua veia criativa e realiza outro punhado de obras maiores.

Les possédées du diable é uma remontagem do mito de Fausto escrita por Jess Franco e Robert de Nesle, com a ajuda da mulher de Franco, Nicole Franco, na adaptação e nos diálogos. Argumento simples, que poderia caber em meia dúzia de linhas, e uma boa dose de improvisação no campo visual, assim se poderia resumir o método seguido por Franco. A felicidade no casamento de Marianne (Jacqueline Laurent) e Patrick (Guy Delorme) é interrompida por um telefonema de Lorna (Pamela Stanford) que vem reclamar a filha do casal, Linda (Lina Romay). Tendo oferecido a prosperidade ao casal, Lorna, que se considera a verdadeira mãe, exige que lhe seja entregue Linda, no seguimento do que tinha estabelecido anteriormente com Patrick. A recusa em aceitar o acordado, resulta numa vingança, em que Linda é possuida por Lorna e é colocado em causa o status quo familiar. A produção de Les possédées du diable acontece numa época em que o cinema vivia obcecado com demónios e exorcismos. The Exorcist (O Exorcista, William Friedkin, 1973) é o exemplo mais conhecido e que deu visibilidade a uma tendência importante do cinema de terror que se estendeu até aos dias de hoje. A representação do mal adquiria uma forma gráfica aterradora que provocava medos e pesadelos no grande público que acorria em enchente às salas de cinema. A violação do corpo da criança, a sua mutilação e sexualização, tornou-se parte do imaginário popular a partir de uma representação explícita sem precedentes no cinema de terror dos grandes estúdios, tendo The Exorcist sido o primeiro título do género a ser seleccionado para o Oscar de Melhor Filme. Com o intuito de capitalizar o sucesso do tema apareceram sucedâneos por todo o mundo, com alguns a copiarem o modelo, cena a cena. Curiosamente, Mercedes McCambridge, que dá a voz ao demónio Pazuzu de The Exorcist, fora actriz para Jess Franco em 99 Women e Marquis de Sade: Justine (Deadly Sanctuary, 1968). 

O lançamento de Les possédées du diable neste contexto, pode ser entendido mais como uma exploração da curiosidade pública pelo tema do que uma mera reprodução do filme de William Friedkin. Les possédées du diable envereda por uma abordagem erótica arrojada, embora à margem do que habitualmente catalogamos como pornográfico, e que toma o incesto como verdadeiro tema. As tentativas de uma mulher em resgatar a filha adolescente de um demónio, são substituídas por uma progenitora que corrompe a alma da filha, de modo a que esta a possa substituir na prossecução da sua agenda. Com um orçamento mínimo, Franco, creditado como Clifford Brown, substitui o horror gráfico e os efeitos especiais por cenas longas rasgadas pelo delírio e em que pouco se passa, alinhando-as por meio de uma banda sonora dolente, da autoria de André Bénichou, que assenta na repetição como um disco riscado que teima em não avançar. Perto do final, enquanto a zona púbica da mãe biológica, Marianne, é invadida por parasitas em forma de caranguejo, Lorna, qual demónio mascarado de mãe, executa um ritual de possessão em que lambe o sangue do dildo enorme com que profanara o corpo da filha virgem. Esta ultima acção ocorre fora de campo, sinalizada por um grito terrível de Linda que encontra eco no horror que invade o espectador. Mesmo que reconheçamos aqui um dos melhores papeis de Lina Romay na década de setenta, não podemos esquecer a pose transgressora de Pamela Stanford, com os figurinos de Paco Rabanne e os efeitos verdes acentuados da maquilhagem, que dialoga com a arquitectura utópica que Jean Balladur concebeu para o local em que decorreram as filmagens, a estação balnear de La Grande-Motte (França). Les possédées du diable pode ser encarado como um acto de fé. Não vai convencer os descrentes, mas os que persistirem serão surpreendidos pela vertigem de uma obra de posição incerta, entre o apelo do hardcore, do terror e da arte.























Les possédées du diable (Lorna The Exorcist, Jess Franco, 1974)




Com a edição exemplar de Miss Muerte (The Diabolical Dr. Z, 1965), a companhia norte-americana Mondo Macabro disponibilizara um dos melhores lançamentos em DVD da obra de Jess Franco. Seguiram-se Le journal intime d'une nymphomane (Sinner! The secret diary of a nymphomaniac, 1972), Les possédées du diable (Lorna The Exorcist) e La comtesse perverse (Countess Perverse). Les possédées du diable foi remontado numa versão restaurada de cerca de cem minutos, a partir de diversas fontes, incluindo o negativo original, tendo em vista recriar o cut definido por Franco. Acompanham áudios em francês e inglês (a evitar) e a opção de legendagem em inglês. Para além de notas de produção, biografias e trailers, dos extras fazem parte entrevistas ao crítico e músico Stephen Thrower, Fear and Desire: Stephen Thrower on Jess Franco e Stephen Thrower on Lorna, e ao designer de som e colaborador habitual Gérard Kikoïne, Gerard Kikoine on Jess Franco.


A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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