La comtesse perverse

















La comtesse perverse (Jess Franco, 1973)




Robert de Nesle, dono da companhia CFPC (Comptoir français de productions cinématographiques), começou a produzir filmes de Jess Franco, depois de ter trabalhado com Henry Lepage, Georges Franju, José Bénazéraf, Riccardo Freda ou Ousmane Sembene. Por ser oriundo de uma família respeitada, corre o mito que nem a sua mulher sabia que tinha entrado no mundo da sexploitation. Entre os filmes que Franco criou para de Nesle encontram-se títulos importantes da sua obra, como La maldición de Frankenstein (Erotic Rites of Frankenstein, 1972), Al otro lado del espejo (1973), La comtesse perverse (1973) e Les possédées du diable (Lorna The Exorcist, 1974). Grande parte dos filmes que resultaram desta parceria, foram rodados durante poucas semanas, em Portugal, procurando conciliar os baixos custos de produção locais com ambientes únicos que pudessem activar a imaginação efervescente do realizador. Mas, em La comtesse perverse a particularidade do cenário é fornecida pelo exterior de Xanadú e o interior de La Muralla Roja, projectos urbanísticos desenhados pelo arquitecto Ricardo Bofill para o complexo turístico La Manzanera (Calpe, Alicante, Espanha). Num registo diferente de linhas bem mais clássicas, este arquitecto é responsável pelo projecto Atrium Saldanha, em Lisboa. Para La comtesse perverse, Jess Franco, isolando Xanadú numa ilha deserta, faz com que a variação geométrica da sua estrutura lance um contraste perturbante com a monotonia da costa rochosa, que desperta nos visitantes o mesmo medo dos que se aproximam do castelo de Drácula, pela primeira vez. La Muralla Roja ou Xanadú são elementos arquitectónicos intrigantes em outros filmes de Jess Franco: Sie tötete in Ekstase (She Killed in Ecstasy, 1970) e Eugenie, Historia de una perversión (1980).

A estrela principal de La comtesse perverse é a modelo e actriz francesa Alice Arno (Marie-France Broquet), criando a imagem inesquecível da caçadora nua que vigia as dunas, em busca das suas presas. Víramo-la, pela primeira vez, num pequeno papel, numa das melhores cenas de Eugénie (Eugenie de Sade, Jess Franco, 1970), em que nem é mencionada nos créditos. Durante uma década teve uma carreira produtiva no cinema erótico e de terror europeu de baixo orçamento, trabalhando maioritariamente para a Eurociné e a CFPC. Como outras grandes estrelas do meio, com a implantação definitiva do hardcore, em 1977 retira-se do cinema, muito nova, aos 31 anos. Em La comtesse perverse, Alice Arno interpreta a Condessa Ivana Zaroff, proprietária de uma ilha misteriosa em que sobressai a casa extravagante (Xanadú) onde vive com o marido, o Conde Rabor Zaroff (Horward Vernon). Tom (Robert Woods) e Moira (Tania Busselier), um casal amigo que vive na ilha em frente, visita os Zaroff, levando consigo a jovem Silvia (Lina Romay).  Ivana e Rabor revelam um apetite exótico por repastos confeccionados com a carne dos convidados que Tom e Moira lhes trazem. Mas são incapazes de matar as presas a sangue frio. Amam a caça, enquanto jogo de vida e morte. Antes de os tornarem parte do menu, propõem aos convidados ser libertados se escaparem à caçada com arco e flecha que, ao nascer do dia, Ivana lhes fará. La comtesse perverse, foi produzido ao mesmo tempo que Plaisir à trois (1973), uma das adaptações livres de La Philosophie dans le boudoir de Sade por parte de Franco, partilhando parte da equipa de técnicos e de actores. A referência para La comtesse perverse é a história The Most Dangerous Game, de Richard Connell, publicada em 1924. A primeira adaptação cinematográfica data de 1932, realizada para a RKO por Irving Pichel e Ernest B. Schoedsack. Jess Franco faz uma revisão erótica com as mulheres em papeis centrais, actuando, quer como caçadoras, quer como presas, comandadas por impulsos selvagens. Aos homens, como quase sempre em Franco, cabe, pouco mais que, o papel de observadores que reagem de modo brando perante a possibilidade de agir e o aproximar da tragédia. Esta entrada de Jess Franco no tema do canibalismo, demarca-se de outras abordagens da produção da época, situando-a no seio da "civilização" ocidental, longe das culturas "primitivas" que infestavam as florestas tropicais, popularizadas por Ruggero Deodato e Umberto Lenzi. Em relação aos filmes que realizou neste período intenso de trabalho, Jess Franco denota aqui um maior cuidado com o desenvolvimento das personagens e da narrativa, mas, ao contrário da produção da concorrência, interessa-lhe a morte, e a sua degustação, enquanto relacionada com o impulso erótico e não com a violência gráfica. A este ultimo aspecto, Jess Franco responderia, de forma pobre, com Mondo cannibale (White Cannibal Queen, 1980) e Sexo caníbal (The Devil Hunter, 1980). O que não quer dizer que La comtesse perverse seja aconselhável para vegetarianos.

Como temos vindo a referir, chega a ser difícil acompanhar as versões que são feitas para cada filme que Jess Franco realizou durante a década de 1970. La comtesse perverse não é excepção. A versão original de Jess Franco foi considerada perdida durante muitos anos. O produtor Robert de Nesle, considerando excessivo o tema do canibalismo, avançado para a época, pediu a Jess Franco que adicionasse cenas cómicas com Lina Romay e Caroline Riviere e que amenizasse o final. Para uma outra versão, Les Croqueuses, foi solicitado a Franco que juntasse cenas de sexo explicito filmadas em Paris, entre Lina Romay e Pierre Taylou. Para completar o quadro, em Itália foi lançada outra versão, Sexy Nature, com novos inserts hardcore, não filmados por Franco e com outros actores. Em 2011, surgiram noticias do restauro do negativo original de Jess Franco, que a Mondo Macabro lançou em DVD no ano seguinte. A edição é considerada definitiva, com o áudio em francês e sem contar com os inserts que estrangulavam a atmosfera única da primeira versão. Os extras incluem: notas de produção e introdução por parte do crítico Stephen Thrower (antigo membro do grupo industrial Coil e autor da importante publicação Nightmare USA: The Untold Story of the Exploitation Independents); e entrevista com Robert Woods. Em França, a Artus Films lançou o mesmo título, colocando como extras os inserts eróticos de Les Croqueuses e o documentário Jess et la Comtesse pelo director de programação da Cinemateca Francesa, Jean-François Rauger. Para uma visão global de todo o processo de adulteração de La comtesse perverse, a Edition Tonfilm disponibilizou uma edição com dois discos. O primeiro inclui a versão original, e os inserts de Les Croqueuses como extra. Quanto ao segundo, é reservado a Sexy Nature. Enquanto o áudio é o original, a legendagem é em alemão.


A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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