La comtesse noire (Female Vampire)
















La comtesse noire (Female Vampire, Jess Franco, 1973) 



A morte de Soledad Miranda criou condições para o lançamento de Lina Romay como protagonista privilegiada dos filmes de Jess Franco. Baptizada Rosa María Almirall Martínez, adoptou o nome de Lina Romay, para constar na ficha técnica dos filmes em que participou. O alter ego foi roubado a uma cantora de mambo, de origem mexicana, com alguma experiência no cinema e foi escolhido por Jess Franco como homenagem ao mambo e ao cinema. Companheira de um habitual actor e assistente de câmara de Jess Franco, Ramon Ardid, começou por trabalhar no cinema, como apoio nos bastidores, nomeadamente na maquilhagem. Iniciou-se na representação com pequenos papeis, em La maldición de Frankenstein (Erotic Rites of Frankenstein, 1972), Los ojos siniestros del doctor Orloff (1973) e Plaisir à trois (1973). Aos dezanove anos, com La comtesse noire (Female Vampire, 1973) chega a protagonista sem precisar de dizer uma palavra, ao interpretar uma mulher vampiro muda, e lança-se na carreira que a colocaria como uma das peças centrais do erotismo internacional. Tornar-se-ia na companheira de Jess Franco, com quem casaria muitos anos mais tarde. Colaborou com o realizador em mais de cem filmes, dividindo-se pela representação, co-realização - principalmente em filmes hardcore -, ajuda nos argumentos e outras tarefas de produção. Morreria em 2012, vítima de cancro, uns meses antes do desaparecimento de Jess Franco.

Depois de um intervalo com Allan Towers, Artur Brauner e Robert de Nesle, La comtesse noire é o regresso de Jess Franco ao trabalho com Daniel e Marius Lesoeur, do estudio francês Eurociné. A invasão do porno made in USA, com o sucesso planetário dos títulos Behind the Green Door (Artie Mitchell, Jim Mitchell, 1972), Deep Throat (Gerard Damiano, 1972) e The Devil in Miss Jones (Gerard Damiano, 1973), e o aparecimento das estrelas Linda Lovelace e Marilyn Chambers, força os estúdios europeus a encontrar respostas vigorosas que garantam as necessárias quotas de mercado. Para a Eurociné, Jess Franco é nome certo. Tendo dado ao estúdio, durante a década anterior, um grupo de filmes de terror que obtiveram um sucesso apreciável, Jess Franco demonstrava um apetite natural para o erótico que agora poderia seguir por caminhos ainda mais arrojados, com a companhia da espontaneidade e desinibição de Lina Romay. Na publicação Immoral Tales: European Sex & Horror Movies 1956-1984, Cathal Tohill e Pete Tombs resumem, assim, o clima que se vivia na Europa, nessa época : many Continental low budget horror directors were forced to move sideways into the skin-flick market, where they turned out even weirder and wilder films in order to compete with the explicit attractions of porno. The films they made were filled with outrageous scenarios and strange fantasy, drawing heavilly on the same kooky material that had helped make their earlier horrors so potent. Inside Europe, audiences lapped up the weird thrills that these movies offered, causing them to become even wilder. Many of them were just too way out for overseas consuption. Too hotblooded and intense for England and the U.S.A. Unlike earlier, sexy, European films they couldn't be marketed as art. They were too strange and disreputable for that. As a result, many of them ended up mangled by the censor, with key scenes left lying on the cutting room floor. Para além de Jess Franco, são citados os casos de Jean Rollin, José Larraz, José Bénazéraf, Walerian Borowczyk e Alain Robbe-Grillet.
















La comtesse noire (Female Vampire, Jess Franco, 1973) 



Lina Romay é a insaciável vampira Irina Karnstein, condenada à imortalidade, que deambula pela Ilha da Madeira em busca de alimento, incapaz de alcançar a felicidade e pôr fim à solidão. Para a vigiar, tem o inseparável assistente, igualmente mudo (Luis Barboo). A errância eterna é questionada com a chegada do Barão Von Rathony (Jack Taylor) e o amor que desponta entre ambos. Com o nome de trabalho La comtesse noire, Jess Franco filmou durante uma semana na Madeira. Posteriormente, acrescentou outras cenas gravadas em França e na Bélgica. Foram criadas várias versões finais - circulando insistentemente, por todo o mundo, durante a época áurea do VHS - que, com diferenças substanciais, alteram por completo o resultado final. Essas diferenças recaem na abordagem de Irina Karnstein às suas vitimas. Numa dessas versões, colada ao cinema de terror, a vampira mata as vítimas sugando-lhes o sangue. Numa outra, mais longa e próxima de terrenos hardcore, a morte chega enquanto a vampira lhes sorve os fluidos sexuais. Pela proximidade temporal e temática de ambos os títulos, La comtesse noire é o Vampyros Lesbos de Lina Romay. Tal como em Vampyros Lesbos (Las vampiras, 1970), o apogeu de Soledad Miranda, a narrativa é construída sem grande preocupação com o medo ou o suspense e contornando as convenções do cinema de vampiros. Poucas características separam Irina Karnstein dos humanos, para além da imortalidade e da forma como se alimenta. É esta ultima faceta que converte a versão erótica na singularidade e bizarria que Cathal Tohill e Pete Tombs sugerem na publicação que referimos. Ao deslocar o alvo das investidas do vampiro, do pescoço para os órgãos sexuais, pega numa marca do cinema de terror sobejamente conhecida e utiliza-a de forma inusitada, e diríamos igualmente perturbante, para potenciar o material erótico. Aparentemente, num filme atmosférico como La comtesse noire, Lina Romay, sem falar, não teria muito a dar. Porém, conta muito a forma generosa como se expõe, flirtando com a câmara enquanto esta, num longo adeus a Soledad Miranda, vagueia persistente pelo seu corpo, até ao limite dos vaginal zoom, característicos de Franco. Ainda assim, a grande personagem desta história é a Ilha da Madeira que - esquivando-se da imagem comum de bilhete postal -, com a ajuda preciosa da música de Daniel J. White, oferece a  melancolia das colinas, florestas e nevoeiro como a atmosfera e o cenário irreais para refúgio e elemento místico da Condessa Irina Karnstein.

Continuando a política de distribuição de clássicos do terror erótico europeu, a Kino Lorber, através da subsidiaria Redemption Films, tomou a iniciativa feliz de reunir em Blu-ray e DVD as duas versões mencionadas. À versão convencional deu o nome de Erotikill e à mais erótica o de Female Vampire. Erotikill tem apenas um áudio em inglês, enquanto em Female Vampire pode-se optar pelos áudios em francês e inglês, para além da legendagem em inglês. Os áudios em inglês são incrivelmente amadores, pelo que sempre que houver outras opções devem ser essas as escolhas. Ainda que não tenha havido grande cuidado na limpeza do material original, as cores apresentam-se adequadas e as imagens com uma melhor definição que nas edições mais antigas. Trailers e entrevistas completam a edição. Em Destiny in Soft Focus, Jess Franco fala de La comtesse noire e da sua relação com Lina Romay, enquanto Words for Lina é um tributo à actriz por parte do crítico, e também actor no filme, Jean-Pierre Bouyxou. Relativamente às duas versões incluídas nesta edição, o divulgador Robert Monell assinala que Erotikill é prosa enquanto Female Vampire é poesia. Uma não anulando a outra, razão suficiente para espreitar ambas as versões.
















La comtesse noire (Female Vampire, Jess Franco, 1973) 



A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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