Christina, princesse de l'érotisme (A Virgin Among the Living Dead)




















Christina, princesse de l'érotisme (A Virgin Among the Living Dead, Jess Franco, 1971)




La nuit des étoiles filantes (A noite das estrelas cadentes, em tradução livre) foi o nome que Jess Franco atribuiu a um projecto rodado em Portugal, nos jardins e palácios da zona de Sintra. Se tivermos em conta que o enredo anda em volta de uma mulher em luta com os fantasmas da morte do pai e que o acidente de automóvel que vitimou Soledad Miranda ocorreu na costa do Estoril, pouco tempo antes, a alguns quilómetros de Sintra, poderemos especular sobre as ressonâncias que são criadas para a leitura do filme. Apesar do que é apontado por algumas fontes, não é certo que nos planos iniciais, captados a partir de um veículo que circula pela costa, Jess Franco revisite o local do acidente de Miranda pois uma placa de sinalização aponta para uma localidade no sul de Espanha, junto ao Mar Menor. O facto de Jess Franco ter-se refugiado no trabalho como reacção à morte da musa já parece ser uma evidência, uma vez que coincide com o inicio de um ritmo intenso de trabalho em que chega a realizar vários títulos por ano, alguns ao mesmo tempo, contribuindo também como actor, argumentista, compositor, editor, cameraman ou produtor. Este novo começo em Portugal não se trata de uma simples encomenda de um produtor, com os constrangimentos habituais, nem de uma reutilização das personagens e das histórias anteriores, mas sim de um projecto pessoal em que são os delírios e a imaginação selvagem de Franco que vêm à tona, embalados numa abordagem erótica que fosse de encontro às expectativas do público e ao retorno que lhe permitisse continuar a financiar, ainda que parcialmente, os filmes.

A partir de Londres, Christina (Christina von Blanc) viaja para uma localização indefinida, para receber o testamento do pai (Paul Muller) que morrera e nunca conhecera. Por entre anjos e demónios, na mansão secular onde se instala, convive com os peculiares familiares e outros habitantes (Howard Vernon, Rosa Palomar, Britt Nichols e Jess Franco) que têm o corpo gelado mas não parecem mortos e é aconselhada por uma mulher cega (Linda Hastreiter) a fugir e não se deixar contaminar pelo ambiente de morte. As noites são passadas com pesadelos e aparições do pai que a obrigam a conhecer o lado secreto e negro que rodeia a família. Os tentadores símbolos fálicos são rejeitados e vistos como ameaça à sua inocência, imagem de uma suposta virgindade. Com a chegada de um viajante do mundo civilizado a um local marcado pela tradição e folclore locais, o inicio de Christina, princesse de l'érotisme (1971), o novo nome escolhido pelos distribuidores, remete para uma situação clássica do cinema e literatura de terror, que bem poderia ser Dracula de Bram Stoker. Porém, o destino de Christina não é o castelo de Dracula, mas sim o Palácio de Monserrate, que a população local diz estar desabitado. O restante material é organizado em torno de planos sucessivos de Christina, na cama, a dormir e a acordar aterrorizada perante vozes que a chamam e pesadelos que nunca vemos. Do mesmo modo, os habitantes de Monserrate são visíveis para ela e a população local garante que não existem. O que também leva o espectador a desconfiar do que vê: se, afinal, não se trata de um longo sonho de  Christina, em que apenas os seus planos na cama, como que a convalescer, marcam o real. Indicador disso é uma das cenas finais, quando Christina acorda febril no hospital psiquiátrico, que não é mais que a pousada onde dorme na primeira noite, antes de se dirigir para Monserrate, e a médica (Nicole Guettard, casada com Franco) que a monitoriza é a estranha mulher de bata branca que conhecera nessa ocasião. Num filme carregado de simbolismo, sublinhado pela variada e eficaz partitura de Bruno Nicolai, bastaria reter a última cena, e a mais bela, em que Christina aceita a morte de modo a redimir os familiares, sendo conduzida pela Rainha da Noite (Anne Libert), enquanto desaparecem no lago de nenúfares. Entre o elenco, temos a assinalar a presença de Britt Nichols, nascida María do Carmo Ressurreição de Deus, em 1950, na Guarda. Esta sua ligação a Portugal é quase desconhecida, apesar de ter sido Miss Portugal e ter trabalhado com Vasco Morgado. Teve um papel de relevo em vários filmes de Jess Franco até casar com o argentino Héctor Yazalde, goleador do Sporting Clube de Portugal. O ponto final na sua carreira no cinema, imposto pelo marido, foi a recusa em participar em Che? (1972) de Roman Polanski, convite que lhe poderia ter sido dirigido por algumas parecenças com a malograda Sharon Tate. Britt Nichols adoptou outro nome e, no presente, vive na Argentina onde é uma figura pública que não quer estabelecer ligações entre a vida actual e o cinema de Jess Franco.

Christina, princesse de l'érotisme é um dos filmes de Jess Franco mais mutilados pelos distribuidores. O primeiro lançamento não teve grande sucesso, coincidindo com a invasão do cinema mainstream pelo erotismo. Aos distribuidores importava ir de encontro à crescente curiosidade da sociedade por matérias relacionadas com o sexo, com um mínimo de danos provocados pela censura. O filme tinha cenas de nudez, nomeadamente nos sonhos de Christina, que os produtores não acharam suficientes. Perante a indisponibilidade de Jess Franco, a Eurociné contratou um tarefeiro inexperiente, Pierre Quérut, para dirigir novas cenas que pudessem acentuar o conteúdo erótico. Numa dessas cenas, com o mesmo clima surreal do resto do filme mas vulgar na forma como é filmada, Alice Arno é uma rainha sem qualquer ligação com a restante narrativa, envergando apenas uma máscara e uma capa, que acompanha quatro casais por um jardim (sem a exuberância de Sintra e mais adequado para um chalet suburbano francês), enquanto lhes ordena para copularem em diferentes posições, por cima da relva. A cena termina com os quatro homens a envolverem-se com a rainha. Na década de 1980, a popularidade dos filmes de zombies, que existiam sem caracterização e de forma abstracta no material original mas que precisavam de ser enfatizados, vem apelar para uma nova remontagem. Com Le lac des morts vivants (Zombie Lake, 1981), Jean Rollin já tinha realizado um argumento de Jess Franco. Inicialmente, estava previsto que Franco assumiria a direcção e Rollin, insatisfeito com o resultado final, não assumiria a paternidade do projecto. Para Christina, princesse de l'érotisme, os produtores pediram a Rollin para filmar uma nova cena com zombies, em que o próprio realizador participa como actor, como parte de um grupo de mortos que sai da terra para aterrorizar a pobre Christina. Bem construida e muito divertida, quando vista isoladamente, com o cabelo da actriz que substitui Christina von Blanc a tapar-lhe a cara para não ser reconhecida, mas que perde qualquer pertinência quando colocada como insert no filme de Franco. Esta nova versão ficaria conhecida por Une vierge chez les morts vivants (A Virgin Among the Living Dead). O cut original de Christina, princesse de l'érotisme,  com setenta e nove minutos e sem os cortes e os inserts referidos, continua a ser a única versão que Jess Franco considera sua e um dos seus títulos favoritos.

Em Agosto, a Kino Lorber/Redemption Films lançou A Virgin Among the Living Dead em formato DVD e Blu-ray, que inclui como extra a edição original de Franco para Christina, Princess of Eroticism (Christina, princesse de l'érotisme). Tem áudios em inglês e francês  (aconselhável) e legendagem em inglês. Na imagem estão presentes riscos e sujidade que apontam para deficientes condições de preservação do material de onde foi feita a transferência ou, ainda, falta de limpeza desse mesmo material, algo a que nos habituamos facilmente perante a excepcional luminosidade, a vivacidade das cores e a qualidade do contraste. Entre o restante material que acompanha a edição, destaque para os documentários: Jess! What Are You Doing Now?, homenagem de convidados e amigos, que vale sobretudo pelo caracter emotivo que manifestam os que viveram de perto com a pessoa e a obra; The Three Faces of Christina, em torno das várias versões do filme; e Mysterious Dreams, uma das ultimas entrevistas de Jess Franco em que ressalta a permissividade que sentiu em Portugal, afirmando que as autoridades portuguesas foram sempre cooperantes nas filmagens ao enviar agentes para proteger a equipa, inclusive quando se tratavam de cenas eróticas em locais  públicos. É com surpresa que recebemos estas afirmações, tendo em conta o período politico português em que isto aconteceu, na fase final do Estado Novo. Nos extras, constam ainda os inserts eróticos referidos - a cena de zombies está incluída na presente versão de A Virgin Among the Living Dead -, mas o elemento mais precioso e que por si só torna obrigatória a aquisição é o comentário de Tim Lucas - editor da revista Video Watchdog e um dos autores de Obssession - The Films of Jess Franco - para a versão Christina, princesse de l'érotisme. Ao apontar relações e singularidades dentro da obra do realizador e da produção do cinema de terror europeu da época, assinala detalhes importantes que um simples visionamento não revela e obriga a reavaliar Christina, princesse de l'érotisme como um dos exemplos maiores da originalidade e imaginação fervilhante de Jess Franco.


A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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