The Bloody Judge (Il trono di fuoco)


Michael Reeves morreu prematuramente, aos vinte e cinco anos, mas deixou Witchfinder General (1968), um clássico do cinema de terror inglês que criou um surto de filmes sobre caçadores de bruxas. Nada de novo no tema, pois muito antes tinha havido o notável Häxan (Benjamin Christensen, 1922), mas trazia doses de violência invulgares que o British Board of Film Censors (actual British Board of Film Classification) procurou eliminar com os devidos cortes. Em The Bloody Judge (Il trono di fuoco, 1969), o produtor Allan Towers e Jess Franco pegaram no caso real de um juiz inglês do século XVII, George Jeffreys, e transformaram-no num agente da justiça que utiliza a bruxaria como desculpa para condenações que possam concretizar os seus desejos eróticos e objectivos políticos. Witchfinder General era protagonizado por Vincent Price, pelo que para The Bloody Judge convidaram o, igualmente, icónico Christopher Lee. No que toca à representação da violência para além da decência instituída, e ainda dentro deste tema, também Adrian Hoven, antigo produtor de Jess Franco, lançou um exemplo notório: Mark of the Devil (Hexen bis aufs Blut gequält, Michael Armstrong, 1970). Produzido num castelo-museu austríaco, onde tiveram lugar interrogatórios relacionados com bruxaria, nas filmagens foram utilizados os instrumentos de tortura verdadeiros aí existentes. Quando foi lançado nos cinemas, com a compra do bilhete, para evitar saídas apressadas da sala, ao espectador era oferecido um saco de enjoo.

A acção de The Bloody Judge passa-se em Inglaterra, em 1965, num contexto de confrontos políticos, quando o rei delega em George Jeffreys (Christopher Lee) o poder para julgar e condenar à morte os seus opositores, baseando-se em acusações de bruxaria. Pelo meio, há uma história de amor entre uma suposta bruxa (Maria Rohm) e um descendente (Hans Hass Jr.) de um nobre influente (Leo Genn), envolvido com a oposição política. A produção do filme decorreu em Espanha e Portugal pelo que a Inglaterra retratada ganha familiaridade - perde-se a natureza típica de climas temperados a favor de tons mediterrânicos, enquanto a arquitectura ganha inesperados ornamentos manuelinos. Jess Franco cria uma narrativa corrida, com eficácia na gestão das cenas, em que o modo como é criada a tensão denota uma grande capacidade para envolver o espectador. Quem estiver habituado a um Jess Franco mais intimista, ficará surpreendido com a segurança com que dirige os momentos de acção, em particular as cenas de batalha, cuja encenação esconde bem a limitação dos meios financeiros de produção. Como acontece nas produções de Allan Towers, o elenco é internacional - com destaque para Leo Genn, Maria Rohm, Maria Schell e Howard Vernon -, adequando-se às personagens e não permitindo que as diferentes origens dos actores crie fracturas na linearidade narrativa e na tentativa de fidelização histórica. Quanto a Christopher Lee, desde Dracula: Prince of Darkness (Terence Fisher, 1966), sabemos que não precisa de falar para encher um filme. No entanto, em certas passagens de The Bloody Judge, o seu desempenho quase que roça o cabotinismo, ficando aquém do melhor que fez para Franco. Teríamos de esperar até Eugenie... the Story of Her Journey Into Perversion (1970), em que assenta admiravelmente no papel de um líder fervoroso adepto de Sade. Numa abordagem mais ousada a nível erótico, ainda que não conseguida formalmente, Les démons (Demons, 1973) representa o regresso de Jess Franco à história e cenários de The Bloody Judge.















The Bloody Judge  (Il trono di fuoco, Jess Franco, 1969)



Sobre Christopher Lee e a relação com os outros actores, remetemos para a entrevista de Howard Vernon, parte da publicação Obsession - The Films of Jess Franco (Lucas Balbo, Peter Blumenstock, Christian Kessler, Tim Lucas, 1993), em que afirma: Lee is an incredibly arrogant man and an incredibly bad actor too! If you mention his Dracula roles, he gets very insulted and hates you for ever... Once, when we were shooting in a little Portuguese village, some children found out that the big scary Dracula was there. One of the kids managed to find a magazine with a picture of Lee as Dracula on the cover, and asked him to autograph it. Lee took one look and then tore the magazine to pieces. Isn't that horrible? And yet Christopher Lee is only famous for having played Dracula, he should be grateful he gets recognized at all. He also  used to complain about the actors on these films. Many of them weren't English and spoke with strong accents. He was reluctant to work with those "terrible actors who don't even speak proper English".

A partir de várias fontes, a Blue Underground compôs uma óptima edição, em DVD, de The Bloody Judge que incluiu cenas eróticas e de tortura que foram descartadas noutras versões. Dela fazem parte uma cena, considerada perdida, de Maria Rohm a confortar uma vítima de tortura, enquanto lhe lambe as feridas, e outros momentos de nudez e violência que Christopher Lee considerou como scenes of extraordinary depravity. Outro motivo de interesse desta edição é o documentário Bloody Jess, com entrevistas a Jess Franco e Christopher Lee. Em alternativa, a Blue Underground disponibiliza a caixa The Christopher Lee Collection, composta por quatro filmes protagonizados por Christopher Lee e produzidos por Allan Towers:  The Bloody Judge, The Blood of Fu Manchu (Fu-Manchu and the Kiss of Death, 1967), Castle of Fu-Manchu (Jess Franco, 1968) e Circus of Fear (John Moxey, 1966). Um conjunto de documentários, incluindo o mesmo Bloody Jess, contextualizam os filmes. Uma boa oportunidade para espreitar outros títulos de Jess Franco que, não sendo dos seus melhores, merecem alguma atenção.


A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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