Eugénie (Eugenie de Sade)



Eugénie (Eugenie de Sade, Jess Franco, 1970)




¿Eres alegre o triste de temperamento? 
Un poco triste. Vivo como mi nombre: en soledad.

Soledad Miranda em Lecturas, 31.01.1964



Soledad Miranda, nascida com o nome de Soledad Rendón Bueno, em 9 de Julho de 1943, em Sevilha, descendente de portugueses, foi cantora, bailarina de flamenco e teve pequenas aparições no cinema antes de se dedicar por inteiro à carreira de actriz. Sobrinha da popular cantora e actriz Paquita Rico, Soledad Miranda passou por aventuras épicas, filmes de terror, comédias, dramas e musicais. Enquanto filma em Portugal três filmes - A canção da Saudade (Henrique Campos, 1964), Los gatos negros (José Luis Monter, 1964) e Un día en Lisboa (Alfonso Nieva, 1964) - priva com o actor e piloto de automóveis José Manuel da Conceição Simões, com o qual casaria. Com o nascimento do primeiro filho decide retirar-se da vida artística e dedicar-se à família. Por pouco tempo, pois aceita a proposta para entrar no western 100 Rifles (Tom Gries, 1969). Também Jess Franco volta ao seu encontro, repescando-a para a Lucy de Count Dracula, a contracenar com Christopher Lee, muitos anos depois de lhe ter entregue um pequeno papel em La reina del Tabarín (1960). Esta nova parceria estendeu-se por sete filmes: Count Dracula (El Conde Drácula, 1969), Eugénie (Eugenie de Sade, 1970), Sex Charade (1970), Les cauchemars naissent la nuit (Nightmares Come at Night, 1970), Vampyros Lesbos (Las vampiras, 1970), Sie tötete in Ekstase (She Killed in Ecstasy, 1970) e Der Teufel kam aus Akasava (The Devil Came from Akasava, 1970). Ainda podemos contar com a sua participação na fascinante experiência documental Cuadecuc, vampir (1969), que Pere Portabella fez a partir da rodagem de Count Dracula, e no inacabado Juliette (Jess Franco, 1970).

Para proteger a vida familiar, nos filmes mais ousados adoptou a identidade de Susann Korda (indicada como Susan Korday em algumas fichas técnicas). Há quem diga que foi Jess Franco quem lhe criou esse alter ego, a partir de dois nomes populares: o produtor Alexander Korda e a escritora Jacqueline Susann. No entanto, o produtor Kevin Collins afirmou numa entrevista: Jess did say that he took the name from a German actress. Jess does not usually combine names. He takes names from obscure or relatively unknown artists for whom he has a particular affinity. Susan (or Susanne) Korda is no different than Lina Romay, the name purloined hook, line and sinker from Xavier Cugat's singer of the '40s and '50s. As for the 'Susanne' part, Jess pointed out that he never read her books and really hated Valley of the Dolls, so he'd certainly not use any reference to her to create a name for his dream actress, Soledad. As a rule of thumb, you can usually assume that any pseudonym used by Franco is a name taken - as an homage - from a Jazz artist or Hollywood technician or a European actor or actress from days gone by. O sucesso com Franco levou o produtor alemão Artur Brauner a propor a Soledad Miranda um contrato de trabalho para vários filmes. Quando o documento está a ser preparado, Jess Franco recebe a noticia de que Soledad Miranda tinha falecido, em Portugal, num acidente de automóvel, num trajecto entre Estoril e Lisboa. Era 18 de Agosto de 1970. Soledad Miranda tinha vinte e sete anos e, premonitoriamente, num dos últimos filmes em que trabalhou, Sie tötete in Ekstase (She Killed in Ecstasy), morreria também num acidente de automóvel. Na iniciativa Jess Franco: Um Mapa vamos destacar os dois filmes mais significativos para a criação do mito Soledad Miranda: Eugénie e Vampyros Lesbos.

Eugénie (Eugenie de Sade) é outra das abordagens livres à obra do Marques de Sade, por parte de Jess Franco. Neste caso, trata-se de uma leitura actualizada de La Philosophie dans le boudoir, um ano depois de ter feito o mesmo em Eugenie... the Story of Her Journey Into Perversion (1969). Soledad Miranda vive o papel de Eugénie Radeck, que mora com o padrasto Albert Radeck (Paul Muller), um escritor de livros eróticos. Quando Albert a encontra amadurecida, propõe-lhe uma viagem iniciática pelo crime e pela perversão, facultando-lhe o poder de atingir prazer pelo infligir de dor: viver cada momento com consciência e intensidade por forma a descobrir que a chave da vida não é mais que o prazer pessoal, conseguido à custa de alguém. Garante-lhe que amará cada momento e celebrará o facto de saber secretamente que fez algo belo, ainda que proibido. Em conjunto, atraem e assassinam vítimas, que não desconfiam do plano, seduzidas pelo ar encantador de Eugénie. Como um casal de amantes, unidos pela morte, traçam um caminho sem limites, abrindo feridas e provocando sangue. Eugénie, filha e amante. Enquanto na obra de Sade, Eugénie é mesmo filha de Albert, no filme de Franco, os produtores, com medo da censura, impediram que tal acontecesse. Assim, Albert ficou como padrasto. De pouco serve, para impedir que caia o fantasma do incesto sobre a relação.

Embalada por uma melodia delicada de Bruno Nicolai, num longo flashback em tom documental, Eugénie narra, ao investigador Attila Tanner (Jess Franco), a sua história pacata e doce, ainda que de solidão consentida, apenas estremecida pelas mortes violentas. É nesses momentos que a música se metamorfoseia em algo inebriante e sinistro. Eugénie quase que perde a figura pálida e inanimada - da inocência dos planos repetidos, em que está recolhida a abraçar as pernas -, que faz parte do mito associado a Soledad Miranda, e é devorada por uma curiosidade e uma vontade de fazer que parecia estar-lhe vedada. Duas das mortes são momentos de antologia da obra de Jess Franco. Na primeira, uma modelo profissional (Alice Arno) é fotografada por Albert, enquanto Eugénie assiste. O som do disparar da máquina fotográfica torna-se em algo intrusivo que choca com a placidez da modelo. Quando lhe pedem para criar um ambiente sádico, traz objectos de tortura e pinta partes do corpo com tinta vermelha, para parecer sangue. Como cereja em cima do bolo, reclama que precisa de ajuda na aplicação dos objectos sobre o seu corpo. Eugénie avança. A música acelera mas é o disparar da máquina que ressalta, numa montagem à base de planos curtos. Na outra cena, uma mulher (Greta Schmidt) que encontram na estrada aceita participar num jogo em que faz de cadáver. Completado o crime, Albert e Eugénie entregam-se apaixonadamente. Em ambas as cenas, o espectador adivinha o que vai acontecer e as personagens, como que intoxicadas, dirigem-se imperturbáveis em direcção ao abismo, participando activamente numa encenação em que antecipam a experiência da morte. Antes de se tornarem vítimas, são agentes da sua própria morte. A artificialidade do cinema - um tema que se tornaria caro a Jess Franco e seria o motivo de El sexo está loco (1980) -, é logo sugerida na abertura do filme, durante os créditos, em que Attila Tanner visiona o que parece ser um snuff film, gravado por Albert e Eugénie, enquanto matam uma mulher e olham directamente para a câmara. Ou seja, olham para Attila Tanner, que não é mais que Jess Franco. Ainda não sabemos pormenores da história e das personagens, pelo que o que realmente vemos é Jess Franco a dirigir Paul Muller e Soledad Miranda. No cinema de Jess Franco, Eugénie é uma boa ponte entre as fantasias pop da década de 1960 e os devaneios da década seguinte, como uma obra provocante mas sóbria que contribuiu para solidificar Soledad Miranda enquanto mito. Uma construção de Jess Franco, cujo olhar se transfigura numa intensa declaração de amor.

No mercado anglo-saxónico, após lançamentos das distribuidoras Wild East e Oracle Entertainment, em 2008 a Blue Underground disponibilizou uma nova edição sem cortes de Eugénie, em formato DVD, com transferência a partir do negativo original. A edição é disponibilizada com faixas de áudio, em francês e inglês, masterizadas em Dolby Digital Mono, e legendagem em inglês. Como noutros exemplos de títulos de Jess Franco em que existe esta opção, insistimos no áudio em francês. Nos extras encontra-se um trailer e o documentário Franco de Sade, em que Jess Franco dá uma entrevista longa para discutir a obra de Sade e a relação pessoal e profissional com Soledad Miranda. E reitera que nunca foram amantes. Antes, pai e filha.


A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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