Eugenie... the Story of Her Journey Into Perversion


 Eugenie... the Story of Her Journey Into Perversion (Jess Franco, 1969)




Cruelty, far from being a vice, is the first sentiment nature injects in us all.


O telefona toca e interrompe Madame de Saint-Ange (Maria Rohm) que, enquanto lê Philosophie dans le boudoir de Sade, imagina uma cerimónia em que uma mulher é sacrificada.  Do outro lado da linha, a adolescente Eugenie (Marie Liljedahl) está apreensiva quanto à concordância dos pais, em que passe um fim de semana na ilha privada de Madame de Saint-Ange. Apesar do desconhecimento da mãe (María Luisa Ponte), o pai (Paul Muller) entrega Eugenie, em troca de uma tarde de sexo com Madame de Saint-Ange. Na ilha, Eugenie é recebida pela anfitriã e pelo meio-irmão/amante (Jack Taylor), que lhe têm destinado um longo ritual de iniciação sexual. Drogada, a jovem sente-se baralhada, não conseguindo separar o sonho da realidade. Entretanto, chega um grupo de visitantes,  seguidores do Marquês de Sade, que vêm observar e completar o ritual iniciático. O líder do grupo (Christopher Lee) propõe a Eugenie uma vingança pelos actos a que foi sujeita, que se revela como a fase final do processo de corrupção da jovem.

Sade é uma das referências maiores na obra de Jess Franco. Para além das citações dispersas por toda a sua obra, Justine ou les Malheurs de la vertu (1791), La Philosophie dans le boudoir ou Les instituteurs immoraux (1795) e L’Histoire de Juliette, ou les Prospérités du vice (1801) inspiraram directamente o enredo de vários filmes, tendo Franco optado, em muitos deles, por localizar a história em cenários actuais. A primeira incursão nesse universo deu-se com Marquis de Sade: Justine (Deadly Sanctuary, 1968) e no ano seguinte realizaria Eugenie... the Story of Her Journey Into Perversion, ambos com produção de Harry Allan Towers. Com o subtítulo de Dialogues destinés à l'éducation des jeunes demoiselles, a obra La Philosophie dans le boudoir inspirou Franco nos filmes: Eugenie... the Story of Her Journey Into Perversion (1969), Eugénie (1970), Plaisir à trois (1973), Cocktail spécial (1978), Eugenie, Historia de una perversión (1980), Historia sexual de O (The Sexual Story of O, 1981) e Tender Flesh (Carne fresca, 1997). No ciclo Jess Franco: Um Mapa, hoje iniciamos um pequeno destaque aos três Eugenie, que se incluem claramente entre os filmes mais poderosos que Jess Franco realizou.

Eugenie... the Story of Her Journey Into Perversion foi filmado no Mediterrâneo, com o mar e a paisagem a proporem serenidade, como o ponto de partida do caminho rumo à perversão. No entanto, o recorrente sopro do vento cria desconforto e ameaça, lembrando La frusta e il corpo (The Whip and the Body, 1963) de Mario Bava, outro manual sobre a crueldade e a perversão, curiosamente também protagonizado por Christopher Lee. Allan Towers, sob o alter ego Peter Welbeck, escreveu um argumento sedutor e bem resolvido, que surpreende continuamente o espectador quanto ao eventual desfecho. A banda sonora, assinada pelo italiano Bruno Nicolai mistura géneros, da música latina ao jazz, do doce ao trágico, que embalam admiravelmente as diferentes nuances da perda da inocência. No elenco, com vários habituais de Jess Franco, destacam-se Maria Rohm, Jack Taylor e Christopher Lee. Maria Rohm, voltando à frieza e decisão da sua personagem de Paroxismus (Venus in Furs, Jess Franco, 1968), é a chefe de cerimónias que conduz a jovem Eugenie em direcção ao abismo, como se fosse a sua melhor amiga. Tendo protagonizado algumas das melhores obras de Franco, o discreto Jack Taylor confirma ser um valor seguro e prova o quão valiosa é a sua presença para assegurar a qualidade desses títulos. Christopher Lee tem poucas cenas, rodadas durante um fim de semana, mas compõe um papel possante exercido essencialmente a nível da voz, que faz esquecer o excesso que víramos em The Bloody Judge  (Il trono di fuoco, Jess Franco, 1969). Mas o verdadeiro maestro é Jess Franco, que coordena todos os elementos e cria um notável jogo visual, onde até planos mal focados encontram o seu lugar, em quadros que dificultam a separação entre o sonho e o real. Uma caminhada pela educação, corrupção e destruição, em que o sonho não é mais que uma extensão do desejo e do temor. Mas, Eugenie... the Story of Her Journey Into Perversion é, acima de tudo, a visão brutal da criação de uma mulher. A imagem violenta, da transição da adolescência para a idade adulta, em busca da aceitação e da capacidade de participação.

Durante muitos anos inacessível ao grande público, em 2002, a Blue Underground disponibilizou Eugenie... the Story of Her Journey Into Perversion para consumo doméstico. Numa versão sem cortes com características técnicas adequadas, é acompanhada por extras que servem como bons complementos ao visionamento do filme. As notas têm a assinatura do especialista em Jess Franco, Tim Lucas. Perversion Stories reúne entrevistas de Jess Franco, Harry Alan Towers, Marie Liljedahl e Christopher Lee, que tecem considerações em torno do filme. Apesar de o filme ter sido rodado em inglês, esta edição contém uma pista de áudio alternativa, em francês sem legendagem. Convém lembrar que, muitas vezes, os diálogos registavam alterações significativas entre as línguas em que eram dobrados. Neste caso, optamos pela versão em inglês. Uma biografia de Jess Franco, um trailer e uma galeria de posters e imagens rematam esta edição histórica.















Eugenie... the Story of Her Journey Into Perversion (Jess Franco, 1969)



A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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