Eugenie, Historia de una perversión


No ensaio The Undying Legend sobre Jess Franco, assinado por Tim Lucas para a revista Fangoria #325, Agosto 2013, há um ponto que se aplica perfeitamente a Eugenie, Historia de una perversión (1980): every Franco movie sheds light on the rest, because he filmed so rapidly that his work becomes a continuum, a house of mirrors, rather than a series of self-contained statements. This doesn't mean that each movie can't be enjoyed on its own merits, but there's no question that you get more out of them the better acquainted with his overall output. Como Lucas conclui no ensaio, isto reflecte-se numa repetição de actores, locais, personagens e situações. Eugenie é uma dessas personagens, inspirada em La Philosophie dans le boudoir de Sade, que serviu de referência para vários filmes de Franco: Eugenie... the Story of Her Journey Into Perversion (1969), Eugénie (1970), Plaisir à trois (1973), Cocktail spécial (1978), Eugenie, Historia de una perversión (1980), Historia sexual de O (The Sexual Story of O, 1981) e Tender Flesh (Carne fresca, 1997).

O produtor Harry Allan Towers escreveu o argumento de Eugenie... the Story of Her Journey Into Perversion, tendo em vista um elenco internacional. Apesar de ter sido rodado numa ilha mediterrânica perto de Barcelona, não existe contacto com a realidade espanhola e a localização geográfica do espaço não tem qualquer interferência na acção. Mantendo semelhanças na história, tudo o resto muda radicalmente em Eugenie, Historia de una perversión, pequena produção espanhola, falada em castelhano e maioritariamente com actores locais, habituais do cinema de Jess Franco. A excepção é a alemã Katja Bienert, que, anos mais tarde, se tornaria numa cara da produção televisiva alemã. Os cenários são os singulares projectos urbanísticos La Muralla Roja e Xanadú, desenhados pelo arquitecto Ricardo Bofill para o complexo turístico La Manzanera (Calpe, Alicante), que através de investigações geométricas lembram estruturas militares que mimetizam a solidez da costa rochosa. Xanadú é um elemento arquitectónico intrigante em outros filmes de Jess Franco: Sie tötete in Ekstase (She Killed in Ecstasy, 1970) e La comtesse perverse (1973). Em breve, dedicaremos uma nova postagem a La Muralla Roja e a Xanadú. Eugenie, Historia de una perversión foi produzido no principio da década de 1980, aquando do regresso de Jess Franco a Espanha, depois do exílio voluntário no exterior, durante o regime do General Franco. Enquanto em Madrid, Pedro Almodóvar aborda os desafios e as mudanças operadas na sociedade espanhola, Jess Franco dirige-se à Costa Blanca, junto ao Mediterrâneo, para compor um retrato desencantado e uma crítica feroz das elites abastadas que durante os meses de calor, entre o sol e o mar, contaminam com decadência e perversão o que as rodeia.

Alberto de Rosa (Antonio Mayans) pede ajuda à irmã Alba de Rosa (Mabel Escaño), por viver obcecado com Eugenie (Katja Bienert), filha de um casal francês que conheceram na praia. Alba seduz Erwin Tanner (Antonio Rebollo), pai de Eugenie, e convence-o para que a jovem lhes seja entregue, para guarda, enquanto os pais se ausentam. Deste modo, Eugenie é lançada num caminho de descoberta da sexualidade e da perversão, com resultados trágicos inesperados. A relação entre Alba e Alberto é dúbia pois apresentam-se como irmãos, mas na intimidade agem como amantes. Consideram-se espanhóis, mas pertencentes a um sector que intitulam de "evolucionado". De idade indefinida, Eugenie é uma menina com corpo de mulher. Uma criança, perfumada pela inocência, mas que desperta o pecado. Ainda que rodeada por brinquedos, é atraída pelo novo mundo da sexualidade que Alberto e Alba representam. Segundo Alberto, Eugenie sabe que a olha, que gosta dela. Sabe que a deseja e provoca-o. Sabe que a espia e exibe-se perante ele. Alberto ama-a e, ao mesmo tempo, odeia-a pela falta de pudor, pelo fundo de perversão que há no seu olhar, nos seus movimentos, pela consciente provocação. A câmara filma Eugenie segundo o ponto de vista de um voyeur - Alberto, Jess Franco ou o espectador - e ela aparece e desaparece dos olhos ou pensamentos, enquanto algo obsessivo e insuportável. O olhar que lhe é dirigido não se quer fazer notar e por isso resguarda-se por detrás de portas, janelas ou cortinas. Ou mesmo, entre planos rasgados pela entrada excessiva de luz.

Entrar em Eugenie, Historia de una perversión sem ter passado pelos filmes que Jess Franco realizou durante a década de 1970, incluindo as incursões pelo porno, é passar ao lado das musas Soledad Miranda e Lina Romay – esta última, aqui, quase irreconhecível no pequeno papel da surreal mascote-cão do casal - e de todo um processo de experimentação, em que a música e a acção performativa dos actores eram aliadas a manipulações incontidas do foco e do zoom. Eugenie, Historia de una perversión e Gemidos de placer (1982), obras fundamentais da produção tardia de Jess Franco, surgem como apuramentos desse método, com a narrativa a ser subalternizada a favor da exploração erótica quase explicita, resultando em coreografias visuais que tocam a abstracção. Em 1981, Franco dedicaria um novo filme à obra de Sade, com Historia sexual de O, num universo de mulheres em que aos homens é retirada a capacidade de agir. A única cópia de Eugenie, Historia de una perversión que localizámos pertence a uma transferência de um formato VHS para um ficheiro digital. Uma experiencia curiosa, esta mediação do analógico pelo digital. Com a decadência do suporte analógico, em pleno culto da pureza digital, é poder experienciar a glória do VHS, congelando no tempo toda a sujidade e as interferências que a passagem e o uso repetido da fita poderiam causar.


Eugenie, Historia de una perversión (Jess Franco, 1980)



A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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