Paroxismus (Venus in Furs)




















Paroxismus (Venus in Furs, Jess Franco, 1968)



A interrogação, Può una morta rivivere per amore?, que interpela o espectador no cartaz italiano de Paroxismus (Venus in Furs, 1968), intenta sugerir o mote do filme, mas esconde a força principal que move essa vontade de reviver: a vingança. Não é que o amor seja um simples adorno na trama, mas declara-se incapaz de sobreviver, face à obsessão que a protagonista nutre pela vingança. Num argumento de Jess Franco e Malvin Wald, Maria Rohm (mais bela que nunca, jazendo nua na areia da praia) é Wanda Reed, uma morta  que regressa à vida para se envolver com o homem que a desejara, James Darren, e se vingar dos seus assassinos, Klaus Kinski, Dennis Price e Margaret Lee, numa viagem por Istambul e Rio de Janeiro. Com a escolha do nome Venus in Furs para a distribuição internacional, os produtores pretendiam colocar o filme como um herdeiro directo da conhecida obra de Leopold von Sacher-Masoch. Não foi isso que entendeu Jess Franco, que gostaria que o filme se chamasse Black Angel, atribuindo a origem do argumento a uma conversa que tivera com o músico de jazz Chet Baker, de onde saiu a ideia de um caso amoroso entre um trompetista negro e uma mulher branca. Os produtores opuseram-se, argumentando que a América do Norte não aceitaria ver um homem negro na cama com uma mulher branca, mas concordaram que pudesse ser trocada a cor da pele aos dois elementos da história. Deste modo, nasce Paroxismus, numa tentativa de equilíbrio entre as diferentes expectativas, em que o teor da conversa com Baker serve para um arco narrativo secundário e a novela de Leopold von Sacher-Masoch inspira o nome da protagonista e os quadros relativos ao prazer erótico derivado de dor e humilhação.

Entre os fiéis de Jess Franco, Paroxismus não é uma obra consensual. Muitos apontam para o excesso de imagens do Carnaval do Rio de Janeiro e para o uso de técnicas de manipulação da imagem, associadas à época, como a cobertura total do plano com cores psicadélicas e o uso da slow motion. O produtor Allan Towers, companheiro de Maria Rohm, foi acusado de ser o principal responsável, por ter interferido em demasia na produção. Quando morreu em 2009, a imprensa apelidou-o de guru da série B. Apesar de lhe serem apontadas actividades ilegais pelas quais esteve preso, ligações indirectas a espionagem e a fugas ao fisco, Jess Franco considerou-o como um dos poucos produtores que respeitava. Towers especializou-se em filmes de baixo orçamento, resultado de adaptações de histórias populares de Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, Edgar Wallace ou Sax Rohmer. Foi pioneiro na escolha de locais exóticos para as filmagens, procurando aliar extravagância a condições económicas de produção. Para o cinema de Jess Franco, trouxe actores carismáticos europeus, Christopher Lee e Klaus Kinski, e assegurou mercados para a distribuição dos filmes. Acusar Allan Towers pelo fracasso de filmes é abordar parcialmente a questão. É certo que com Towers, Franco fez alguns dos seus filmes mais acessíveis, mas ainda assim pôde dedicar-se a outros bem peculiares. A começar por Paroxismus, que é comovente como poucos dos seus filmes e ao mesmo tempo uma elaborada fantasia pop em tons psicadélicos, que aponta para cenários oníricos intemporais. Embora pesem as diferenças de estilo, hoje, ao ver Paroxismus pela primeira vez, é reviver fantasmas com que David Lynch assombra a sua obra. Antes de mais, o jazz que povoa todo o filme, em cruzamentos viciantes com hinos pop; e as cores azul e vermelho que mancham os cenários, os adereços e até os olhos de Klaus Kinski. Lembramo-nos de Laura Palmer, quando a água do mar devolve os corpos mortos à areia da praia; da angústia dos condenados de Lost Highway (1997), ao descobrirem que, há muito, não são mais que espectros afastados do mundo dos vivos; do Black Lodge, no espaço a que Wanda acede quando morre, pela segunda vez, e encontra as suas vítimas e um velho que balbucia palavras indecifráveis para um ocidental. E não falta a loura a transformar-se em morena. Que também pode ser a morena a transformar-se em loura.

Paroxismus (...Può una morta rivivere per amore?), a versão italiana de Paroxismus, como no caso de Necronomicon/Delirium, tem mudanças significativas em relação à cópia internacional, assemelhando-se quase a um novo filme. Editado por Bruno Mattei, perde a tintagem de efeitos psicadélicos usada em alguns dos planos e a marcante voz off de James Darren, e inclui mudanças na música e cenas filmadas por Franco que não aparecem na versão internacional. A edição em DVD que recomendamos é da Blue Underground, uma das casas mais mencionadas neste ciclo e que tem feito um trabalho meritório na recuperação dos clássicos do cinema de terror europeu, através de boas transferências e a inclusão de extras apetitosos. Neste caso, a cópia refere-se à versão internacional e inclui um ensaio de Tim Lucas, sobre a obra de Jess Franco, e duas entrevistas:  Jesus in Furs, com Franco a explicar o processo de cedências aos distribuidores; e um áudio de Maria Rohm, acompanhado por imagens de produção, sobre as relações de trabalho com o realizador e os actores.

A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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