Necronomicon - Geträumte Sünden (Succubus)





















Necronomicon - Geträumte Sünden (Succubus, Jess Franco, 1967)



Na segunda metade da década de 1960, com o fim da fase das obras a preto e branco, Jess Franco dedicou-se a uma série de paródias aos filmes de espionagem e mistério, estilo James Bond, que tanto sucesso faziam no mercado. Isto sucedia através do apoio de produtores internacionais, o que lhe permitia melhorar os orçamentos - ainda que, comparativamente com outros realizadores, continuassem em níveis mínimos - e rodar noutros países, longe do cerco da censura espanhola. Ainda que seja um improvável filme de espionagem, Necronomicon - Geträumte Sünden (Succubus, 1967) só pôde acontecer com a chegada de capitais de fora de Espanha e o crescente apetite do público pelo exotismo dos locais. Durante as filmagens em Lisboa, perante a possibilidade de esgotar antecipadamente o financiamento, Jess Franco e o produtor Adrian Hoven convidaram o milionário alemão Pier A. Caminnecci para visitar o local de trabalho, numa tentativa de arranjar meios para terminar o filme. Caminnecci ficou encantado com a actriz principal, Janine Reynaud, e acedeu a participar na produção. Entretanto, iniciou uma ligação amorosa com a actriz, com o consentimento do marido Michel Lemoine, um dos actores (falecido durante esta semana), visto que era a via para garantir os fundos para a produção. Ainda assim, as filmagens continuaram imprevisíveis pois o guião inicial era mínimo, a partir de um texto medieval, e era durante a noite que Franco escrevia, em espanhol, os diálogos do dia seguinte e que o actor Jack Taylor os traduzia para inglês. Finda a produção, Caminnecci criou a sua própria versão, que distribuiu nos Estados Unidos com o nome de Succubus e um grande sucesso de público, e acordou a sua exibição no Festival de Cinema de Berlim. Fritz Lang considerou Necronomicon uma obra-prima do cinema erótico. Nos Estados Unidos, os meios de comunicação aderiram entusiasticamente, com a ajuda do cartaz que alertava para o conteúdo adulto, e Janine Reynaud transformou-se num símbolo sexual para as revistas dirigidas ao público masculino.

A primeira cena de Necronomicon é uma performance de Lorna (Janine Reynaud) num clube nocturno, simulando actos de sedução, tortura e morte sobre duas vitimas. Depois, em modo flashback, saltamos para Lisboa, que o amante de Lorna (Jack Taylor) chama de "misteriosa" e onde permaneceremos durante a maior parte do filme. Lorna atravessa a cidade, deambulando entre a fantasia e a realidade, incapaz de perceber de que modo seria responsável por várias mortes violentas. Mora na decadência das casas senhoriais e dos palácios lisboetas e é aí que regressará depois de uma passagem pelo modernismo e sofisticação de Berlim. Em planos alternados, Lisboa é filtrada pela câmara de Franco, criando uma espécie de névoa e dando forma ao ambiente onírico que aprisiona Lorna - que o considera sufocante, como que num grito para se libertar desse mundo fantasioso. Inspirado pelos movimentos libertários da época, Necronomicon é mais que uma trip em forma de filme. Franco dá pistas sobre as suas influências culturais, sendo isso mais evidente no jogo divertido de associação de palavras entre Janine Reynaud e Howard Vernon, e desvenda a radicalização estilística em que se empenharia nos anos 70. Sem grande preocupação com a história, persegue um mundo que escapa à lógica e que aposta na experiência sensorial. Se nos é permitido utilizar a palavra obra-prima na obra de Jess Franco, eis que é chegado o momento.

Mais uma vez, foram criadas diversas versões de Necronomicon, com diferenças em relação ao que o Jess Franco tinha idealizado. Para além das mudanças no tratamento do material erótico, na versão alemã o final é feito com o ecrã a negro, durante alguns minutos, sob um pedaço da banda sonora, de forma a suavizar a saída do filme. Numa outra versão mais curta, também dirigida ao mercado americano mas aparentemente diferente da de Caminnecci, para evitar o selo X foram cortadas partes da primeira performance no clube e na morte de uma das personagens. Em Itália, o filme foi lançado com o nome de Delirium, procurando ligações mais óbvias com o cinema de terror. Num novo final (aqui), atribuído a Bruno Mattei, vemos a cara de Lorna transformar-se numa caveira, antes de se lançar de uns penhascos para a morte. A versão que sugerimos é a alemã, mais rara mas que parece ir de encontro ao planeado pelo realizador. A alemã Lazer Paradise lançou esta versão, em DVD, mas não conseguimos obter mais esclarecimentos sobre o material incluído e as condições técnicas da edição. Em alternativa, existe um DVD da Blue Underground, com uma duração próxima da versão alemã, pequenas variações em algumas das cenas e sem o final a negro; dobrada em inglês, em formato widescreen e com um bom tratamento do som e da cor. Nos extras tem From Necronomicon To Succubus, uma entrevista com Jess Franco, onde em vinte e dois minutos são explicadas as suas influências e decisões na feitura do filme. Numa outra entrevista, Back In Berlin, à volta dos locais de filmagem em Berlim, o actor Jack Taylor fala do seu relacionamento com o realizador e com os outros actores. Um trailer completa esta edição.





















Necronomicon - Geträumte Sünden (Succubus, 1967)



A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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