Lucky, el intrépido (Lucky, the Inscrutable)


Com orçamentos bem mais modestos, alguma produção cinematográfica europeia especializou-se em versões de géneros e filmes, financiados ou apoiados por Hollywood, que faziam sucesso no mercado internacional. Foi isso que aconteceu, em meados da década de 1960, com a estreia de Goldfinger (Guy Hamilton, 1964) e o aparecimento de uma vaga de filhos bastardos de 007, coincidente com a transição entre o peplum e o western spaghetti. O fenómeno ficaria conhecido como eurospy e contou com realizações de notáveis experimentadores de géneros, como Antonio Margheriti ou Umberto Lenzi. Jess Franco contribuiu com vários projectos novos e a repescagem de La muerte silba un blues (1962), que ganhou os títulos de 077 Operation Jamaica e 077 Operation Sexy (apesar de não ter nada a ver com o famoso espião), e a adaptação no nome do protagonista, de Conrado San Martín para Sean Martin. Em 1965, para Tulio Demicheli, Jess Franco escrevera o argumento de Misión Lisboa (1965), numa nova tradução de La muerte silba un blues. Mas é com Cartes sur table (Attack of the Robots, 1966) e Residencia para espías (Residence for Spies, 1967) que entra no campo da paródia e assina em nome próprio dois veículos para Eddie Constantine, num momento em que o género conhece um notável florescimento com produções italianas, francesas, alemãs e espanholas. Cartes sur table, ainda a preto e branco, é uma história de Jean-Claude Carrière, que dá a conhecer pela primeira vez Al Pereira, uma personagem recorrente em Franco. O mundo está a ser ameaçado por robots com aspecto humano, que lançam ataques a figuras públicas, e o distinto agente Al Pereira (Eddie Constantine) é enviado a Alicante para deter a ameaça, enquanto cai nas graças de todas as mulheres e foge da garra de agentes secretos chineses. Franco retomaria esta história para a comédia Viaje a Bangkok, ataúd incluido (2005). Em Cartes sur table, a espionagem conhece elegantes aproximações à ficção cientifica, ao jeito de Miss Muerte (The Diabolical Dr. Z, 1965), também escrito por Jean-Claude Carrière. Numa homenagem divertidíssima ao seu realizador favorito, Jess Franco filma Eddie Constantine a galar Sophie Hardy, enquanto um microfone anuncia a exibição de Alphaville (Jean-Luc Godard, 1965), protagonizado também pelo actor, como agente secreto. Filmado em Istambul, Residencia para espías é o primeiro filme de Jess Franco a cores. Eddie Constantine regressa ao serviço de agente secreto, agora como Dan Leyton mas com o mesmo poder de sedução sobre as mulheres. Quando verificamos que a missão o leva a instalar-se numa residência de belas espias, onde é o único homem, para além do porteiro, podemos antecipar o resultado. Há uma pequena cena em Lisboa, no Elevador de Santa Justa, onde Howard Vernon é assassinado, que seria filmada mais tarde durante a produção de Necronomicon - Geträumte Sünden (Succubus, 1967). Um traço habitual em Franco, que, à revelia dos produtores e actores, aproveitava para rodar cenas que incluiria noutros filmes. Para além da presença marcante de Eddie Constantine, Residencia para espías é o desejado regresso de Diana Lorys, que tínhamos visto em Gritos en la noche (The Awful Dr. Orlof, 1961). Não foi possível localizar edições de Residencia para espías, mas Cartes sur table encontra-se num lançamento em DVD da francesa Gaumont. Tendo boa qualidade no som e na cor, o áudio é apenas em francês, com a possibilidade de obter legendagem na mesma língua. A versão editada é um pouco mais longa do que aquela que é conhecida no mercado anglo-saxónico.




















Lucky, el intrépido (Lucky, the Inscrutable, Jess Franco, 1967)



Se Cartes sur table e Residencia para espías podem ser considerados subversivos em relação ao modelo que pretendem invocar, Lucky, el intrépido (Lucky, the Inscrutable, 1967) é um Jess Franco de outra têmpera. Sem freios, numa paródia vibrante aos filmes de agentes secretos e super-heróis, mas com um orçamento tão limitado que obriga a recorrer a soluções verdadeiramente engenhosas. Lucky (Ray Danton) é um super agente, trapalhão mas muito dono de si, contratado para destruir uma organização que controla uma fábrica de dinheiro falso. O que não é mais que um pretexto para viajar pelo mundo e arrasar o coração de muitas mulheres. Uma história aparentemente banal e indistinta de tantas outras que invadiam as telas da época, mas que, em plena Guerra Fria, mostra um Franco mais interessado em míticas sociedades secretas que querem dominar o mundo do que nas movimentações geopolíticas inspiradas no real. Trata-se de uma narrativa que evolui em forma de sátira às convenções do género e que, chegando a tocar o slapstick, nunca fere a inteligência do espectador. Numa linguagem derivada da arte pop, Ray Danton compõe um boneco animado que parece saído de uma banda desenhada, criada sob o efeito de acido. Em certos momentos, são mesmo as pranchas e os balões que invadem os planos. O delírio é constante, pelo que custa destacar cenas, mas não podemos evitar de referir a do mercado dos segredos, em que numa rua de Roma, ao lado do Coliseu, agentes de todo o mundo oferecem, uns aos outros, troca de segredos. É o co-financiamento italiano do filme que assegura a participação de Bruno Nicolai - menos conhecido que Ennio Morricone, mas um grande maestro das bandas sonoras feitas a partir de Itália -, numa  partitura perfeita que impede qualquer quebra no ritmo imparável. Lucky, el intrépido é um filme raro, cujo visionamento é quase exclusivamente feito a partir de cópias digitais transferidas de antigas cassetes VHS. Injustamente, pois é o maior divertimento saído da mente extravagante de Jess Franco e que deveria ser obrigatório apresentar, como complemento, de qualquer ciclo de filmes sobre Bond, James Bond.




















Lucky, el intrépido (Lucky, the Inscrutable, Jess Franco, 1967)



O sucesso de Lucky, el intrépido leva o produtor alemão Adrian Hoven e a sua produtora Aquila Film a assinar com Jess Franco um contrato para três filmes, com Janine Reynaud como cabeça de cartaz. O primeiro foi Necronomicon, já aqui destacado como um improvável filme de espionagem. Os outros dois são Bésame monstruo (Küss mich, Monster; Kiss Me Monster, 1967) e El caso de las dos bellezas (Sadisterotica, Two Undercover Angels, 1967), recriações das duas personagens principais de Labios Rojos (1960). A Blue Undergound juntou os dois filmes numa edição em DVD, numa transferência com um bom tratamento do som e da cor e que conta com duas entrevistas de Franco. Algo datados e sem o brio dos exemplos citados acima, são curiosidades por se centrarem em duas femmes fatales, mas a desastrada dobragem para inglês retira o salero das línguas originais e os orçamentos baixos posicionam-nos como cópias menores dos modelos que pretendem parodiar. A data em que foram lançados originalmente, também corresponde à perda de frescura do género eurospy e em que era a invenção do western spaghetti que recolhia o interesse do público. Jess Franco declarou que nunca tinha feito um western. A única aproximação que se lhe conhece é em El llanero (1963), onde parece mais concentrado em desenvolvimentos amorosos do que em tiros e corridas de cavalos. Apesar deste aparente desinteresse pelo género, importa destacar o seu envolvimento em dois exemplos prematuros de western na Europa: foi assistente de realização e co-escreveu o argumento de El Coyote (Joaquín Luis Romero Marchent, 1955) - ao qual se atribui influência na trilogia dos dólares de Sergio Leone - e de La Justicia del Coyote (Joaquín Luis Romero Marchent, 1956).


A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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