99 Women





















99 Women (Jess Franco, 1968)



Um dos primeiros filmes a relatar, mesmo que timidamente, aspectos da vida de uma mulher em cativeiro é Hold Your Man (Sam Wood, 1933), com Jean Harlow e Clark Gable. Tendo em conta o código moral que orientava a produção de Hollywood, Louis B. Mayer, o patrão da Metro-Goldwyn-Mayer, forçou a argumentista Anita Loos a condenar a personagem de Harlow a uma passagem pelo reformatório, onde nascerá o filho, como penitência pela libertinagem sexual. Só depois de controladas as feridas da Segunda Grande Guerra, é que a audiência ficaria suficientemente preparada para receber, sem a consciência pesada, novas criações em torno do tema. Caged (John Cromwell, 1950) é um dos avanços, mas é com Women’s Prison (Lewis Seiler, 1955) que a prisão é relançada como ambiente e que surgem um conjunto de obras que sugerem o nascimento de um novo género: women in prison. Em vez de pequenas sequências como acontecia nos anos 30, a prisão, o reformatório ou qualquer outro espaço de cativeiro tornam-se o palco central da acção, com as rotinas e os jogos de força que geram. Já perto da década de 1970, motivado pela revolução de costumes, dá-se um verdadeiro boom, principalmente na Europa, na produção deste tipo de filmes, agora mais dedicados ao voyeurismo e a explicitar sádicas fantasias sexuais do que ao comentário social. Em 1969, são lançados dois marcos do género, grandes sucessos de público, mas diferentes na abordagem: Love Camp 7 (1969) de Lee Frost e 99 Women (1968) de Jess Franco. Love Camp 7 associa claramente a prisão a ideologias fascistas, lançando o campo de concentração nazi como espaço demente da relação entre dominador e dominado. Mais subtil, 99 Women situa a acção numa hipotética ilha, sem referência a regimes políticos específicos, mas não prescinde da forte componente erótica, uma das marcas definidoras da nova faceta do género.

99 Women segue um grupo de mulheres condenadas à prisão, entre a chegada e a familiarização com os métodos usados para assegurar a disciplina e a ordem. Ao mesmo tempo, entra em cena uma observadora externa (Maria Schell) que vai investigar as condições de vida e a origem da morte de várias presidiárias. O que sucede é um confronto entre duas visões do sistema prisional e em que termos é que a sua incompatibilidade afecta as expectativas e a vida das reclusas. Se, por um lado, a técnica externa entende que a capacidade correctiva não deve ser acompanhada de violência física, por outro, a directora (Mercedes McCambridge) assinala que a instituição existe para enfrentar quem desafiou os limites definidos pela sociedade, impondo-lhe castigos. Seguindo as premissas deste tipo de filmes, a narrativa é instigada pela inocência de uma personagem (Maria Rohm), que, perante a brutalidade do sistema e a impossibilidade de ver reconhecida a ausência de culpa, opta pela fuga. Com um bom elenco internacional, 99 Women é realizado no contexto da parceria que Jess Franco mantinha com o produtor britânico Allan Towers. Mercedes McCambridge - mais conhecida pela Emma Small de Johnny Guitar (Nicholas Ray, 1954) e pela voz do demónio Pazuzu de The Exorcist (O Exorcista, William Friedkin, 1973) - tem um papel que balança bem entre o contido e o histriónico, compondo uma figura temente que gere a prisão com a mesma dedicação da dona de um bordel, como se depreende das palavras do governador (Herbert Lom). Quanto à componente erótica, a insinuante Rosalba Neri, que víramos na semana passada numa cena memorável de Lucky, el intrépido (Lucky, the Inscrutable, 1967), rouba o protagonismo em todas as cenas em que participa, em bons diálogos com a óptima partitura de Bruno Nicolai. Como em muitos filmes de Franco, 99 Women resulta numa visão de um mundo dominado pelas mulheres, que agem como opressoras e vítimas, e aos homens é entregue o papel passivo, num jogo que os ultrapassa.

Uns anos depois da estreia, 99 Women conheceu uma versão porno intitulada Les brûlantes, com o selo da produtora francesa CFPC (Comptoir français de productions cinématographiques) de Robert de Nesle. Trata-se de uma nova montagem atribuída a Bruno Mattei, com inserts hardcore, trocas nos diálogos, omissão e inclusão de cenas e mudanças na utilização da banda sonora. Mattei filmou também os inserts com outros actores, esquartejando sem atenção ao raccord, de um modo intrusivo que não respeita a restante atmosfera. Em abono da verdade, parecem mais clipes retirados de outros filmes da produtora e que foram adicionados, à pressa, a Les brûlantes. A música usada no strip-tease sofisticado de Rosalba Neri, torna-se no fundo sonoro de todos os inserts, conspurcando insistentemente um tema belíssimo com imagens de qualidade muito duvidosa. O feito épico de Mattei é deitar fora uma das melhores cenas de 99 Women, o flashback surreal de Maria Rohm que mostra a sua violação, e substituí-lo por uma cena amadora em que um velho se rebola em cima de uma rapariga. Les brûlantes vem assinalado como uma versão "uncut" de 99 Women, o que não parece correcto pois é uma apropriação abusiva do trabalho de Franco. Se há algo que lhe temos de agradecer é o facto de se tornar num óptimo documento das patifarias que os produtores europeus andaram a fazer, durante anos, a muitos filmes estimáveis. Interessa ver e crer, até que ponto ia a gulosice dos produtores e distribuidores, numa exploração intensiva dos produtos que lhes chegavam às mãos. A Blue Underground planeou uma edição conjunta em DVD das duas versões. Posteriormente, desistiu da ideia e os filmes foram editados em separado, sem Les brûlantes obter o logotipo da editora. 99 Women apresenta-se numa edição cuidada, com boa qualidade tecnica. Nos extras, tem Jess’ Women, uma entrevista com Jess Franco a discutir detalhes do filme, incluindo a versão francesa que acabámos de referir. Um trailer e três cenas não utilizadas na montagem final completam a edição.

Não foi Jess Franco que criou o género women in prison, mas é certo que deu uma grande ajuda para o seu estabelecimento, com o grande sucesso público de 99 Women e, uns anos depois, com uma série de variantes: Quartier de femmes (Lovers of Devil's Island, 1972), Des diamants pour l'enfer (Women Behind Bars, 1975), Frauengefängnis (Barbed Wire Dolls, 1975), Greta - Haus ohne Männer (Wanda, the Wicked Warden, 1977), Frauen für Zellenblock 9 (Women in Cellblock 9, 1977), Frauen im Liebeslager (Love Camp, 1977) e Sadomania - Hölle der Lust (1980). Os quatro filmes da segunda metade da década de 1970 foram realizados para a produtora Elite Film do suiço Erwin C. Dietrich, como meros instrumentos de exploração sexual, situados muitos furos abaixo do melhor de Franco, mas contendo alguns pormenores que importa reter. Antes de mais, a ligação de alguns deles a Portugal. A vegetação luxuriante dos jardins tropicais de Lisboa e de Sintra fornecem o cenário, nem sempre convincente para o público português familiarizado com os locais, dos países tropicais indefinidos que pretendem retratar. Frauengefängnis é a recriação mais próxima da narrativa de 99 Women, enquanto Greta - Haus ohne Männer retoma a protagonista, Dyanne Thorne, e a personagem do clássico do género Ilsa, She Wolf of the SS (Don Edmonds, 1975), do qual Erwin C. Dietrich detinha os direitos. Em Frauen für Zellenblock 9, o melhor é Howard Vernon que regressa como um sádico responsável por torturas arrepiantes, ainda hoje dificeis de digerir. Se algo de relevante fica destes filmes, é enquanto testemunhos de uma época com grande apetite para a transgressão, antecipando algum torture porn da década de 2000. Dietrich apostou nestes filmes, perante a dificuldade de os imaginários nazis de Ilsa entrarem no mercado alemão. A adesão pública nesse país foi notória, com alguns títulos a tornarem-se nos mais vistos, nos anos em que foram estreados. Algo que não ajudou, certamente, para a reputação de Jess Franco, impondo-os para as gerações da época e futuras como a imagem do seu trabalho. Portugal como destino de filmagens não era algo novo para Franco, onde tinha trabalhado intensivamente no início dessa década. A viver um período pós-revolucionário, às condições de produção baratas unia-se uma natureza exuberante e o acesso facilitado a palácios e casas senhoriais. Ainda para a Elite Film, foi aqui que realizou os bem mais interessantes Die Marquise von Sade (Doriana Gray, 1976) e Die Liebesbriefe einer portugiesischen Nonne (Cartas de Amor de Uma Freira Portuguesa, 1976), o célebre filme "pornografico" rodado em monumentos e com vedetas nacionais em começo de carreira. Rodado noutra latitude, há a destacar Jack the Ripper - der Dirnenmörder von London (1976), o último filme de Franco protagonizado por Klaus Kinski.


A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

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