Miss Muerte (The Diabolical Dr. Z)

















Miss Muerte (Jess Franco, 1965)



Se Gritos en la noche (1961) parece agarrado ao passado, Miss Muerte (The Diabolical Dr. Z, 1965) respira o ar do tempo, influenciado pelas novas correntes que sopravam da vizinha França. Também, é de lá que vem o argumentista Jean-Claude Carrière, colaborador habitual de Luis Buñuel, para desenvolver um enredo que aproveita vagamente a personagem Orlof, citando-o num diálogo, e põe a componente cientifica como mero fundo para uma trágica história de vingança. O argumento tem algumas semelhanças com a novela The Bride Wore Black, de Cornell Woolrich, que em 1967 François Truffaut adaptaria para o seu clássico La Mariée était en noir. David Khune, o autor da novela que é referida como inspiração e que é mencionado nos créditos iniciais de Miss Muerte, é apenas um dos pseudónimos do realizador Jess Franco. No papel da sua vida e numa das personagens memoráveis do cinema de Franco, a malograda Estella Blain - suicidar-se-ia na década de 1980 - é Miss Muerte, uma bailarina que recebe um tratamento científico que a metamorfoseia numa assassina eficaz, para ser usada numa operação de vingança pela morte de um investigador. Na composição do mito conta o adereço em forma de aranha, que se enrola ao seu corpo, a partir da zona vaginal, e as unhas mortíferas. Howard Vernon, o Dr. Orlof de Gritos en la noche, ainda que num pequeno papel, como um dos cientistas a eliminar, ganha um dos melhores momentos, com o assassinato no comboio.

Como o penúltimo filme a preto e branco de Franco - o último seria Cartes sur table (1966), a segunda colaboração com Jean-Claude Carrière -, Miss Muerte é um formato comedido na abordagem ao conteúdo sexual, apostando mais na sugestão do que na exibição. Os apelos à libido devem muito às actuações de Miss Muerte no clube nocturno. É numa dessas cenas que o filme está sedimentado. Num jogo sexualmente provocador e que se adivinha letal, quando a bailarina põe a mascara da morte, a personagem de Estella Blain contracena com um falso manequim masculino. Os assassinatos a que será obrigada serão encenados como se fossem mais uma performance de Miss Muerte; como se nunca tivéssemos abandonado o palco do clube. Para completar o conjunto, a combinação do preto e branco com a exploração da iluminação, em aproximações chiaroscuro, cria focos de luz que surgem como unidade dramática e consolidam o estado onírico que é proposto ao espectador.


Miss Muerte (Jess Franco, 1965)



Antes de Miss Muerte, Jess Franco realizou El secreto del Dr. Orloff (1964), outro herdeiro de temas e personagens de Gritos en la noche. O gótico ficara para trás e o Dr Orloff (agora com mais um F) é trazido para a actualidade, numa história tocante em que uma mulher conhece pela primeira vez o pai, enquanto máquina de matar, sob a influência de um cientista. A proximidade no lançamento dos dois filmes talvez tenha obscurecido El secreto del Dr. Orloff. Indevidamente, pois, mesmo que por momentos  se afigure como antecâmara para a sofisticação de Miss Muerte, trata-se de um óptimo exercício de série B, exemplar no sentido de economia. Anos mais tarde, agora a cores, Franco remontaria a história de Miss Muerte para Sie tötete in Ekstase (She Killed in Ecstasy, 1970), um dos últimos filmes da musa Soledad Miranda e que, premonitoriamente, anunciaria a sua morte. De destacar ainda que, ao contrário da Hammer que mantém Dracula fora da contemporaneidade, até 1972 - com duas entradas na "swinging London", Dracula A.D. 1972 (Alan Gibson, 1972) e The Satanic Rites of Dracula (Alan Gibson, 1973) -, Jess Franco cedo recorre a ambientes modernos para situar a sua personagem mais popular. Depois de Miss Muerte, Franco inicia um periodo de colaboração com Orson Welles. O resultado é La isla del Tesoro (Jess Franco, 1965), inacabado e com argumento e actuação de Welles, e Campanadas a medianoche (Falstaff - Chimes at Midnight, Orson Welles, 1965), como director da segunda equipa de filmagens.  

A edição em DVD que sugerimos pertence à norte-americana Mondo Macabro, pois contém uma transferência para DVD, a partir do negativo original, no formato 16-9, considerada exemplar. Há a possibilidade de seleccionar o audio inglês ou francês e adicionar legendas em inglês. Aconselhamos a opção em francês, pois como já tivemos a oportunidade de referir, por regra, as dobragens em inglês são de qualidade inferior. Entre os extras, contam-se um trailer, stills, posters raros e o documentário The Diabolical Mr Franco, cheio de entrevistas para iniciados no seu cinema. Em resumo, uma edição histórica em formato digital, para um filme fundamental da primeira fase da obra de Jess Franco.





















Miss Muerte (Jess Franco, 1965)



A iniciativa Jess Franco: Um Mapa resulta de uma parceria entre os blogues My Two Thousand Movies e there's something out there.

 //

Sem comentários: