Ending: Beau Travail



Denis Lavant em Beau Travail (Claire Denis, 1999) 



A propósito da presença de Denis Lavant em Holy Motors (2012) de Leos Carax, lembrámo-nos desta cena que encerra o belíssimo Beau Travail (1999) de Claire Denis. Aqui, Lavant encarna o sargento Galoup, participante na Legião Estrangeira Francesa estacionada em Djibouti, que cria uma obsessão por um colega, Gilles Sentain (Grégoire Colin), invejando a beleza, a força física e a admiração que os superiores e os restantes colegas sentem por ele. Galoup põe, então, em andamento um esquema perigoso para eliminar Sentain, o que leva a que seja expulso da corporação. Uma pena que sabe a morte, para quem dedicou tanto empenho à causa militar. Comissariado pela cadeia de televisão franco-alemã ARTE, Beau Travail é inspirado no conto Billy Budd (1888) de Herman Melville. Ao coreógrafo Bernardo Montet foi entregue a coordenação do movimento, do que resultou um longo bailado, misto de exercício militar e dança contemporânea. Com excertos da ópera (1951) de Benjamin Britten que apropria a obra de Melville, acompanhamos um grupo de actores e bailarinos que dão corpo à Legião Estrangeira em tempo de paz, quando é esvaziada da sua funcionalidade e transformada numa unidade fantasmagórica. Resta, assim, filmar os corpos e a rotina. Exercícios de treino militar são intervalados por tarefas de manutenção e momentos de lazer. Em termos meramente narrativos, estamos num domínio do masculino, onde à mulher é entregue o papel de testemunha. Mas, Beau Travail é também o olhar de duas mulheres - a realizadora e a directora de fotografia Agnès Godard - sobre o Outro: o homem quando subjugado à ordem, disciplina, fisicalidade e violência.

De Denis Lavant, que, pelas possibilidades camaleónicas, encabeçou a nossa lista de melhor actor de 2012, Leos Carax afirmou que se recusasse participar em Holy Motors proporia o(s) seu(s) papel(is) a Lon Chaney, Charles Chaplin, Peter Lorre ou Michel Simon. Tal como Lavant, são actores a quem é pedida uma exigência física particular nos papeis que desempenham. Se na maior parte de Beau Travail, Denis Lavant impressiona pela circunspecção que oferece à personagem, na cena que repescámos é também a sua formação em actividades acrobáticas que é requerida para uma dança que balança entre a elegância e a brutalidade, a contenção e a violência. Num comentário sobre o filme, Claire Denis declarou que, inicialmente, não estava planeado que esta cena fosse a final. Apesar de o ponto de entrada da cena parecer o adequado, ela poderia surgir em qualquer outra parte do filme. Com um Galoup dominado pela obsessão no papel de narrador, não é claro que todos os factos que presenciamos tenham realmente acontecido e qual é a sua ordem temporal. À primeira vista, também parece ir contra o restante tom do filme em que, na quase ausência de diálogos, a câmara vagueia num olhar errante sobre os corpos e a paisagem desértica africana, procurando estabelecer ligações com o interior das personagens.

Antes desta cena, Galoup está deitado em cima de uma cama segurando uma pistola. A câmara aproxima-se do braço onde vemos uma tatuagem e ao lado uma veia que palpita de forma acelerada. Em off ouvimos Galoup a repetir o que está escrito na tatuagem: Sers la bonne cause et meurs. É possível que na cena que se segue, Galoup já não faça parte deste mundo. Sozinho, está na discoteca onde antes o tínhamos visto com os companheiros, rodeados por mulheres locais. A disciplina e a ordem ficaram para trás e abrem-se as cortinas do reino do hedonismo, que a pista de dança simboliza. This is the rhythm of the night. My life, oh yeah. The rhythm of the night. Ao som do êxito europop The Rhythm Of The Night dos Corona, Galoup fuma um cigarro, em jeito dandy, e lança-se num movimento que aponta para uma vontade de libertação tanto de ordem física como mental. Quando termina a primeira parte dos créditos, está novamente numa posição rígida que remete para a sua passagem pela regra militar. Mas por pouco tempo, pois logo regressam os movimentos ásperos que o levam, qual animal acossado, a rolar pelo chão e a sair de cena, pondo de imediato um ponto final no filme. //

2 comentários:

O Narrador Subjectivo disse...

Esta cena final é qualquer coisa, mas, no geral, os filmes desta mulher deixa-me algo indiferente. Mesmo o Trouble Every Day, que pelos vistos foi tão chocante para algumas pessoas, não me deixou grande impressão.

there's something out there disse...

Obrigado pelo comentário. Parece que não há amor como o primeiro. Beau Travail foi o primeiro filme de Claire Denis que vimos e é o que preferimos. Foi também aquele que nos levou a descobrir os seus filmes anteriores e a acompanhar a sua produção futura. Esta cena condensa o que nos desarma no seu trabalho. A utilização da música como elemento definidor da ambiguidade dos corpos e dos espaços. Num filme em tom poético marcado pela música erudita de Britten, é a pop, quase que poderíamos dizer trash, dos Corona que o encerra. À dança, espasmos, de Denis Lavant cabe estabelecer a substância que possa devolver o tom do filme. Quanto a Trouble Every Day, o que nos “choca” não é o excesso do gore mas, sim, o jogo que este estabelece com a música dos Tindersticks e a história de amor representada.